SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Mastercard e American Express travam uma queda de braço com as empresas de maquininhas, conhecidas como adquirentes, sobre quem deve arcar com os calotes nos cartões de crédito utilizados pelos clientes de Will Bank e Fictor, segundo pessoas a par das discussões.

No caso do Will, do conglomerado Banco Master, o volume de recursos a receber soma R$ 5 bilhões. Documentos da recuperação judicial da Fictor, que tentou, sem sucesso, comprar o Banco Master, mostram que a American Express Brasil é a empresa com o maior volume de recursos a receber entre os seus credores, com um saldo de R$ 893 milhões. A American Express nega que tenha esses valores a receber da Fictor.

A disputa por quem vai pagar essa conta mostra que, apesar de a liquidação do Master não ter representado um risco sistêmico, ela deixou perdas que vão além daqueles que investiram em seus títulos de renda fixa sem garantia, como letras financeiras.

Quando um pagamento é feito com cartão, diferentes instituições financeiras atuam para que o pagamento chegue ao vendedor do produto ou serviço. Quando o cliente paga a fatura do cartão de crédito para o banco que o emitiu, esse valor vai para as bandeiras, que distribuem o dinheiro para as empresas de maquininhas nas quais os cartões foram passados. Nesse meio-tempo, as adquirentes costumam adiantar o pagamento aos lojistas, ficando com um valor a receber das bandeiras.

As bandeiras de cartão têm, em seus regulamentos, a cláusula de “honor all cards”, ou “aceitação de todos os cartões”. Por essa norma, as maquininhas de cartão são obrigadas a aceitar todos os cartões, sem discriminá-los.

Em contrapartida, as bandeiras são responsáveis por garantir que o banco tem a capacidade de emitir cartões e honrar suas dívidas. As bandeiras têm as informações para avaliar e acompanhar as condições econômico-financeiras e solicitar garantias dos bancos para autorizá-los a emitir os cartões a seus clientes.

Quando uma instituição financeira é liquidada, o sistema de cobranças pode falhar, já que as áreas de cobrança e tecnologia do banco tendem a parar de funcionar de forma adequada. Além disso, clientes aumentam a inadimplência de forma deliberada por acreditar, de forma equivocada, que não precisam pagar um banco que quebrou.

No caso de Will, essas faturas e parcelas a pagar somaram R$ 5 bilhões, de acordo com pessoas próximas à discussão. Na Fictor, o atraso está em poucas compras de volumes altos, que somam os R$ 893 milhões.

Sem receber dos bancos, Mastercard e Amex também cessaram o repasse às maquininhas. Desde a liquidação do Will Bank, ao fim de janeiro, e com o pedido de recuperação judicial da Fictor, em 2 de fevereiro, as adquirentes estão sem receber.

O mesmo, porém, não aconteceu no caso do Banco Master, pois a Visa, bandeira usada pela instituição, repassou todos os valores às chamadas adquirentes.

As empresas de maquininhas cobram as bandeiras sob o argumento de que elas são as responsáveis finais em caso de calote, como determina a resolução 522 do Banco Central, publicada em novembro.

“A norma proposta […] deixa mais claro que o instituidor do arranjo (bandeira) é responsável, sem exceções, por assegurar o pagamento de todas as transações ao usuário recebedor, inclusive com o uso de recursos próprios caso os mecanismos de proteção que adote sejam insuficientes”, disse o regulador à época.

No entanto, essa regra traz um período de 180 dias para que as bandeiras implementem a mudança em seus contratos. Dessa forma, ainda não seria válida, argumentam as bandeiras.

Além disso, em seus contratos, Mastercard e American Express estabelecem os próprios critérios em caso de calote, o que justificaria não repassar os valores para a frente. No lugar deste repasse, as maquininhas poderiam ficar com os recebíveis dos clientes de Will Bank e Fictor e receberiam conforme eles pagassem suas dívidas, preveem os acordos comerciais. Porém, grande parte desses indivíduos é inadimplente.

“Entendemos que é responsabilidade da bandeira Mastercard garantir tais pagamentos. Temos nos posicionado nessa linha também junto ao Banco Central”, disse a Abranet (Associação Brasileira de Internet), que representa Mercado Pago, PicPay e Recargapay, além de PagBank, marca atual do PagSeguro, pertencente ao Grupo UOL, que tem participação minoritária e indireta do Grupo Folha, que edita a Folha de S.Paulo.

Além da norma 522, regras anteriores do BC que apontam o instituidor do arranjo de pagamentos como responsável, como a resolução 150, podem embasar o argumento das maquininhas. Outro recurso é a lei 12.865, de 2013, conhecida como a lei do repasse, que institui que os recursos devem ser repassados aos participantes subsequentes da cadeia de liquidação até o usuário final.

Procurada, a Mastercard disse que cumpre com todas as obrigações legais e regulatórias. “Continuaremos trabalhando em estreita colaboração com o liquidante e regulador para minimizar os impactos no ecossistema de pagamentos”, disse a empresa em nota.

Ambos os lados têm levado seus argumentos ao regulador, que procura uma solução para o sistema como um todo. Sem acordo, a disputa deve ir para a Justiça.

A Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), que representa bancos, bandeiras e adquirentes, disse estar acompanhando a evolução dos acontecimentos, atenta à “preservação dos fluxos financeiros e à segurança do ecossistema.”

Já a American Express disse apenas não ser credora do Fictor. “Um documento judicial protocolado em 2 de fevereiro de 2026 lista incorretamente uma entidade da American Express, a American Express Brasil Assessoria Empresarial Ltda., como credora do Grupo Fictor.”

Também procurados, Zetta (associação que representa empresas do setor financeiro e de meios de pagamentos), Abipag (Associação Brasileira de Instituições de Pagamentos) e Banco Central não comentaram.

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COMO FUNCIONA O ARRANJO DE PAGAMENTOS DE CARTÃO DE CRÉDITO

Emissor

É a instituição financeira ou de pagamento que dá o crédito aos clientes.

Bandeira

Mastercard, Visa, American Express e Elo firmam contratos com cada emissor para emitir cartões de sua rede e estabelecem as regras do arranjo, conectando todas as partes.

Adquirente

São as maquininhas em que se faz o pagamento por cartão, como Stone e Getnet. Elas costumam adiantar o pagamento aos comerciantes.