SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Três escolas de samba que nasceram de torcidas organizadas vão desfilar na noite do domingo (15) sob um forte esquema de segurança deslocado pelo governo de São Paulo pela prefeitura. A entidade que representa a organização dos desfiles, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, diz não ver riscos de tumultos e confusões.

As agremiações Camisa 12 (ligada ao Corinthians), Mancha Verde (Palmeiras) e Independente Tricolor (São Paulo) vão desfilar no domingo no Anhembi. O evento faz parte do grupo de acesso. A primeira escola torcida a entrar no espaço será a corintiana, às 21h. Na sequência, o desfile da Mancha Verde está previsto para ocorrer à meia-noite e, por fim, a escola ligada ao São Paulo deve desfilar às 4h.

“A organização desses horários foi uma ação estratégica para dificultar o encontro das escolas”, diz Carlos Henrique Lucena, coronel da Polícia Militar e coordenador operacional da PM. O policiamento deslocado para atuar no sambódromo do Anhembi será 10% superior ao do ano passado, segundo Lucena. Ele afirma que este ano haverá média de 400 policiais militares por dia no espaço em comparação aos cerca de 350 deslocados para a operação no ano passado. Eles farão a segurança dos desfiles de Carnaval sexta, sábado e domingo e depois no desfile das escolas de samba campeãs, no sábado seguinte (21).

Além disso, serão deslocados 70 cadetes da Academia de Polícia Militar do Barro Branco para dar apoio aos agentes, diz o coronel. No total, ele estima que mais de dois mil homens trabalharão pelo policiamento do sambódromo com 30 carros para vigilância no entorno. Lucena diz ainda que serão utilizados dois drones por dia para a transmissão das imagens para o Copom, o Centro de Operações da Polícia Militar.

Ações de inteligência e câmeras do Smart Sampa também foram reforçadas em ação da prefeitura e do governo, diz coronel. Segundo o secretário executivo da Segurança Pública de São Paulo, o coronel Henguel Ricardo Pereira, todas as câmeras estarão conectadas aos centros de operação da Polícia Militar. “Esses dias de maior concentração no sambódromo terão uma atenção especial da polícia”, disse.

Desfile com escolas de torcida organizadas são “evento sensível”, diz secretário executivo. “Não é a primeira vez que elas desfilam, mas vamos fazer um esquema especial”, diz Pereira. Segundo ele, haverá policiamento reforçado nas áreas de intersecção das torcidas -tantos nos espaços externos quanto externos- para prevenir eventuais conflitos.

Serviços de monitoramento vão informar deslocamentos e chegadas, diz Lucena. O número de agentes destacado para as operações focadas em inteligência podem variar conforme avaliação das autoridades. O coronel disse também que câmeras do programa municipal Muralha Paulista serão empregadas no sambódromo. “Haverá leitura facial para detecção de procurados pela Justiça, que serão detidos pelas equipes de serviço”, disse Lucena.

O desfile de escolas ligadas a torcidas rivais já ocorreu no Carnaval de 2011. Em fevereiro daquele ano, três escolas se apresentaram no Desfile das Campeãs em horários alternados. Como campeã do Grupo de Acesso, a Dragões da Real, do São Paulo, abriu os desfiles, seguida por Camisa Verde e Branco, do Palmeiras, e da Gaviões, do Corinthians. Na época, a Liga-SP também disse não ter tomado precauções específicas.

As escolas afirmam que não há riscos de tumulto e criticam a estigmatização de agremiações criadas a partir de torcidas organizadas. “Não há nenhum receio. As escolas mencionadas tomam decisões conjuntas para o Acesso I, já fizeram ensaios técnicos juntas”, afirma Tiago Bombonatti, diretor de comunicação da Liga-SP. “Nas três escolas, existem milhares de sambistas que estão ali para defender seus pavilhões, suas comunidades e suas escolas de samba.”

Liga-SP afirma que “problemas podem ocorrer em qualquer lugar, com qualquer pessoa e qualquer escola”, diz o diretor de comunicação. “Alimentar o estigma de que escolas oriundas de torcidas organizadas tendem a ser violentas, às vésperas do carnaval, é um desserviço ao Carnaval, ao samba, à cultura, ao turismo, e à assistência social que essas escolas promovem durante 365 dias no ano”, afirmou.

Presidente da Mancha Verde, Paulo Serdan diz que já desfilou com outras escolas ligadas a torcidas organizadas e não teve problemas. “Já desfilei com a Gaviões, com a Independente [Tricolor], a Dragões [da Real] e não aconteceu nada, não tem o que falar. Nos últimos 10 anos a gente já desfilou juntos diversas vezes, não vai acontecer absolutamente nada”, afirmou ao UOL.

O presidente da Macha Verde diz que escolas de torcidas convivem sem registros de confusão durante a fase de produção do evento. “Lá onde a gente está, estão barracões da Mancha, da Camisa 12 e da Independente e não aconteceu nada. Na rua de trás, do lado de trás, está a torcida jovem, não aconteceu nada”, disse. “Estamos há uma semana lá no terreno montando as alegorias e não aconteceu nada.”

“Ninguém gostaria de jogar o trabalho de uma comunidade toda por água abaixo”, diz Giovanni Bargi, da Camisa 12, agremiação ligada ao Corinthians. “Não há problema nenhum [em relação ao desfile no mesmo dia], Carnaval é o trabalho de uma comunidade toda o ano inteiro”, disse ele. “Acredito que nem a nossa nem as outras torcidas vão querer jogar esse trabalho fora.”

Bargi disse que já ocorreram dois ensaios técnicos seguidos de duas escolas torcidas. Segundo ele, não houve registros de ocorrências. “Nenhum problema foi relatado até mesmo pelo respeito que entre elas. Fazemos Carnaval para levar alegria à nossa comunidade”, disse ele. O UOL procurou a escola Independente Tricolor, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.

Reunião com autoridades do governo do estado e da prefeitura definiu mudanças no esquema de policiamento do Carnaval de São Paulo. Participaram do encontro na terça-feira representantes da Polícia Militar, da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo e da Secretaria Municipal de Segurança. Algumas mudanças foram adotadas na reunião após a superlotação e o tumulto registrado nos megablocos do último fim de semana.

Controle restrito de acesso de foliões com gradis será adotado, diz o coronel Pereira. “No Ibirapuera tem um espaço maior, mas na Consolação, que é mais limitado, temos que manter uma ‘linha da vida’ para ter um fluxo de serviços de emergência”, afirma ele, que também é secretário executivo da pasta. “Para isso, precisamos respeitar o número de pessoas nesses espaços e vamos fazer o controle do acesso dessas pessoas.”

Colapso de infraestrutura atrapalha o trabalho das polícias, avalia Pereira. Segundo ele, ficou decidido em reunião que as empresas de telefonia serão acionadas para que haja um reforço dos serviços de internet e sistemas de dados nas áreas de circulação dos megablocos. Com isso, na avaliação do secretário, as polícias têm mais celeridade na comunicação. “É importante que a gente mantenha a comunicação entre as equipes de segurança.”

Polícia fará controle mais rígido com tapumes em marquises e prédios públicos para evitar depredações. “Tivemos muitos pontos de ônibus danificados no último fim de semana, por isso vamos adotar contenções de segurança”, diz o coronel. Além disso, ele disse que algumas vias serão fechadas antes da realização dos eventos para garantir o fluxo de motoristas e pedestres que moram e chegam nas regiões.

Haverá um guarda municipal e um PM em cada um dos carros dos megablocos, de acordo com a Polícia Militar. Segundo o coronel, a ideia é deslocar uma pessoa da segurança pública e urbana para organizar os espaços. O coronel disse ainda que outras medidas também serão adotadas como o fornecimento de água aos foliões, maior fiscalização de vendedores ambulantes localizados nos entornos dos trios e ampliação no número de trens em circulação e de agentes de segurança em algumas estações. O UOL procurou o secretário municipal de Segurança Urbana, Orlando Morando, mas não obteve retorno até o momento.