SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Amapá será destaque do desfile da Estação Primeira de Mangueira neste Carnaval. A homenagem da escola de samba carioca acontece em meio a um dos anos eleitorais mais polarizados no estado do Norte para os candidatos a governo e suas bases.
O enredo não marca sozinho a presença da política no Sambódromo do Rio. Além da Mangueira, outras escolas prestigiam figuras políticas -a Acadêmicos de Niterói traz o presidente Lula (PT) como tema central, enquanto a Inocentes de Belford Roxo destaca Antonio Rueda, presidente do União Brasil.
No Amapá, o atual governador e candidato à reeleição, Clécio Luís Vieira (União), firmou um termo de apoio de R$ 10 milhões com a Mangueira, por meio da Secult (Secretaria de Estado de Cultura). A pasta é chefiada pela irmã dele, Clícia Vieira.
O montante financia o enredo que tem como protagonista o curandeiro Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca (1926-1999). A proposta temática exalta, ainda, as culturas indígena e quilombola, como o marabaixo, a maior manifestação cultural afro-brasileira do Amapá.
O convênio inclui ações de intercâmbio cultural e a criação de conteúdos audiovisuais para divulgar a história e os atrativos do estado. Artistas amapaenses participam da construção do tema e devem participar do desfile de domingo (15), na Marquês de Sapucaí.
Com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, o governo estadual afirma que quer fomentar o Amapá como destino turístico, reforçando a identidade cultural por meio da visibilidade do Carnaval carioca, e nega a intenção de autopromoção política.
“Ao destacar o Mestre Sacaca e a história tucuju para audiências nacionais e internacionais, o Amapá segue o exemplo de estados como Pará e Amazonas, que utilizam a vitrine do Carnaval para atrair investimentos”, diz nota governo enviado à reportagem.
A articulação entre o governo e a Verde e Rosa partiu do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) -o parlamentar diz, em nota, que incentivou a escolha do tema, mas nega a destinação ou locação de recursos públicos da Casa.
Segundo assessoria de imprensa, Alcolumbre “é naturalmente procurado em assuntos que envolvem” o Amapá. “Ele orgulha-se de ter incentivado essa iniciativa e considera que ela fortalece o orgulho do povo amapaense e impulsiona o potencial econômico e turístico.”
Clécio Luís, da base política de Alcolumbre, vai tentar a reeleição pelo contra o prefeito de Macapá, Antônio Furlan (MDB), reeleito em 2024 com 85% dos votos válidos ainda no primeiro turno, a maior aprovação de um candidato ao Executivo municipal naquele ano.
O governador se filiou ao União Brasil no dia 30 de janeiro a convite de Alcolumbre. Ele também é aliado de Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo Lula no Senado -juntos, já passaram por PT, PSOL e Rede. O último partido do gestor foi o Solidariedade.
“Clécio, eu tenho muito orgulho de você. E em você eu confio. Hoje, fica registrada a maior filiação partidária do Amapá”, disse Alcolumbre durante a cerimônia de filiação do governador, em Macapá.
Furlan derrotou o irmão de Alcolumbre, Josiel (União), na corrida eleitoral da prefeitura de Macapá em 2020, durante a pandemia e ao apagão que deixou 13 dos 16 municípios do estado no escuro por 21 dias. Desde então, o emedebista tem aumentado sua popularidade.
Para enfrentar o adversário, Clécio Luís utiliza uma estratégia similar à de seu aliado, Waldez Góes, ex-governador do Amapá por quatro mandatos e atual ministro de Integração e Desenvolvimento Regional, indicado por Alcolumbre no governo Lula.
Waldez, então governador em 2008, apoiou a Beija-Flor de Nilópolis, que foi campeã do Carnaval carioca ao homenagear Macapá em meio às eleições municipais. O título também influenciou a campanha de seu primo, Roberto Góes, eleito prefeito pelo PDT na época.
Esta eleição aumentou a popularidade da família Góes no Amapá, que competia contra a família Capiberibe, principalmente nos cargos do Executivo (estadual e municipal). Até hoje os dois grupos seguem em lados opostos de uma rivalidade polarizada.
A gestão de Clécio declarou, ainda, que a iniciativa de homenagear o Amapá partiu da Mangueira e que a parceria “não possui viés eleitoral nem relação com o desfile da Beija-Flor de 2008, ocorrido em contexto político e administrativo distinto”.
ELEIÇÕES NA SAPUCAÍ
O presidente Lula é um dos políticos homenageados na Marques de Sapucaí neste ano. Protagonista do enredo da Acadêmicos de Niterói, ele declara ser candidato à reeleição e deve enfrentar Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial.
Para evitar caracterização de propaganda eleitoral antecipada, a escola adotou medidas como a criação de um grupo de advogados para auxiliar na construção do enredo e orientou os integrantes a se aterem exclusivamente ao samba, em razão das eleições de outubro.
Com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola pretende abordar a trajetória de vida de Lula, da infância em Pernambuco à mudança para São Paulo e à atuação sindical, sem aprofundar a carreira política.
É a primeira vez que um presidente em atividade é tema central de um enredo na elite do samba carioca. Ele ainda não confirmou oficialmente se irá à Sapucaí, mas aliados afirmam que ele estará presente. O petista deve acompanhar o desfile no camarote da Prefeitura do Rio, ao lado de Eduardo Paes (PSD).
Técnicos do TCU (Tribunal de Contas da União) recomendaram veto ao repasse de R$ 1 milhão em recursos federais à Acadêmicos de Niterói. A recomendação depende da chancela do relator Aroldo Cedraz para ser enviada ao Executivo.
O repasse é parte de um patrocínio mais amplo de R$ 12 milhões às integrantes do Grupo Especial, firmado por meio da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo). Cada uma teria direito a R$ 1 milhão, segundo o acordo.
Já no grupo de acesso, a Inocentes de Belford Roxo vai destacar Antonio Rueda, presidente do União Brasil, com o enredo “Sonho de um pagode russo nos frevos do meu Pernambuco”. Rueda é pernambucano.
A agremiação carioca disse à reportagem que o político, pré-candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, estará na Sapucaí ao lado de seu aliado, o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, do mesmo partido.
“Rueda é pernambucano e tem sido um grande parceiro da nossa cidade, o que nos despertou a vontade de fazer esse enredo. [Ele] vem sendo um grande entusiasta da escola, não tivemos auxílio financeiro, mas ele tem buscado e intermediado parcerias para ajudar a Inocentes”, diz a escola.



