JÚLIA GALVÃO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – IPTU, IPVA, material escolar, reajustes de mensalidades e as faturas que sobram das festas de fim de ano fazem de janeiro um dos meses mais apertados para o bolso do brasileiro. A concentração de despesas recorrentes costuma transformar o início do ano em um período de estresse financeiro, mas especialistas afirmam que esse cenário é previsível e pode ser administrado com planejamento.
Segundo educadores financeiros, o problema não está nas contas em si, que se repetem todos os anos, mas na falta de organização prévia. Muitos consumidores usam o dinheiro extra do fim do ano, que chega com o 13º salário, para gastos imediatos e chegam a janeiro sem margem no orçamento, o que aumenta o risco de endividamento. “Sempre se gasta o dinheiro no presente, e quando as despesas extras chegam, a receita adicional já foi embora”, explica o economista e educador financeiro Leonardo Baldez.
Para evitar esse estresse, Cleomir Kuhnen, planejador financeiro CFP pela Planejar, diz que a principal recomendação é conhecer detalhadamente as despesas ao longo do ano e antecipar gastos sazonais.
“Quando você planeja as receitas e despesas do ano, passa a ter controle real das contas, entende os meses de maior pressão financeira e se prepara para gastos sazonais e imprevistos. Sem esse olhar anual, as decisões acabam sendo tomadas no impulso, e eventos simples podem comprometer toda a estabilidade financeira”, afirma o especialista.
COM TANTAS CONTA PARA PAGAR, O QUE DEVO PRIORIZAR?
Segundo Leonardo Baldez, o cenário ideal é que o consumidor conte com uma reserva de emergência equivalente a duas, três ou até seis vezes o valor dos gastos fixos mensais. Esse recurso pode ser usado nos meses de maior aperto, como janeiro, e deve ser recomposto ao longo do ano.
Para quem não tem reserva, a recomendação é recorrer às formas de parcelamento mais baratas. A orientação é comparar os descontos oferecidos nos pagamentos à vista e priorizar aquele que gera maior economia. Em alguns casos, o abatimento para pagar o IPVA à vista é menor do que o obtido na compra à vista de material escolar, por exemplo, o que torna mais vantajoso parcelar o imposto.
O especialista diz ainda que o consumidor nunca deve recorrer ao cheque especial, que é uma das linhas de crédito mais caras do sistema financeiro. “Ele [cheque especial] acaba com seu patrimônio e com sua capacidade de poupança. Trabalhe o parcelamento sem juros no cartão de crédito, não gaste mais que ganha, nunca entre no cheque especial e nunca pague a fatura mínima do cartão”, diz Baldez.
Para quem ainda não tem familiaridade com investimentos ou dificuldade de manter uma poupança regular, o economista aponta que produtos que estimulam o acúmulo gradual de recursos, sem cobrança de juros, podem funcionar como ferramenta de educação financeira. Como exemplo, ele recomenda os consórcios.
Ele ressalta que, a partir dessa disciplina inicial, o consumidor tende a avançar para aplicações financeiras mais tradicionais, especialmente de renda fixa, que seguem oferecendo retornos elevados no Brasil.
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DEZ PASSOS PARA ORGANIZAR AS FINANÇAS EM 2026
O planejador financeiro Cleomir Kuhnen reuniu ainda dez orientações que os consumidores podem seguir para se preparar não apenas para as contas concentradas em janeiro, mas também para organizar o orçamento ao longo de todo o ano.
1. CONHEÇA SUAS RECEITAS E DESPESAS
Kuhnen afirma que o primeiro passo é mapear todas as entradas e saídas do orçamento, separando os gastos fixos (aluguel, energia e internet) dos variáveis (lazer, presentes e reparos). A partir desse diagnóstico, o consumidor deve definir limites percentuais para cada categoria para evitar desequilíbrios ao longo do ano.
“Quando a pessoa sabe exatamente para onde o dinheiro vai, ela já resolve metade dos problemas financeiros. O desconhecimento das próprias despesas é o que mais cria ansiedade e faz o orçamento sair do controle”, afirma o especialista.
2. AVALIE SUAS DÍVIDAS
Priorize a eliminação de dívidas com juros elevados, como cheque especial e rotativo do cartão, buscando alternativas mais baratas quando necessário.
“A dívida cara corrói qualquer planejamento e consome uma energia enorme da vida financeira. Quando você coloca isso na mesa e começa a organizar a quitação, o alívio é imediato e o orçamento respira de novo”, diz o planejador.
3. MONTE UMA PLANILHA OU CONTROLE ANUAL
O especialista diz que é ncessário registrar receitas, contas mensais e despesas sazonais de janeiro a dezembro. Além disso, é recomendado incluir projeções de reajustes para tornar o planejamento mais realista.
4. DEFINA METAS DE POUPANÇA E INVESTIMENTO
Reserve parte do orçamento para objetivos como construção da reserva de emergência, aposentadoria ou aquisição de bens. “A meta escrita vira compromisso. E quando ela tem prazo e valor definidos, começa a orientar decisões do dia a dia”, diz Kuhnen.
5. ESTABELEÇA OBJETIVOS FINANCEIROS CLAROS
Metas com prazo e valor definido ajudam a direcionar esforços para conquistas como viagens, cursos ou quitação de dívidas.
6. PREVEJA POSSÍVEIS IMPREVISTOS
O especialista diz que é necessário incluir margem para despesas inesperadas, como saúde, manutenção do carro e reparos no imóvel.
“O imprevisto não avisa, mas o orçamento precisa estar preparado para ele. Ter uma reserva ou uma margem de segurança evita que pequenos problemas se transformem em crises financeiras grandes.”
7. ANALISE O ORÇAMENTO DO ANO ANTERIOR
Revisar gastos passados ajuda a identificar excessos, padrões e oportunidades de redução.
8. ACOMPANHE MENSALMENTE O PLANEJAMENTO
O planejador financeiro diz que a execução do orçamento exige revisão contínua, ajustes e conferência de extratos para evitar desvios.
9. PROTEJA SEU DINHEIRO
Evite golpes e promessas de retorno fácil para preservar o patrimônio e manter o plano financeiro seguro. “Se parece bom demais para ser verdade, provavelmente é”, afirma Kuhnen.
10. BUSQUE AMPLIAR SUAS RECEITAS
Atividades extras, qualificação profissional e progressão na carreira podem acelerar a realização de metas. Além disso, Kuhnen diz que o planejamento financeiro deve envolver toda a família quando possível. “Quando todos participam, o orçamento deixa de ser uma obrigação individual e se torna um projeto coletivo. Isso reduz estresse, evita surpresas e cria uma relação mais saudável com o dinheiro.”






