SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Sandra Vargas e Luiz André Cherubini, do grupo Sobrevento, se apresentam sozinhos em “A Casa que Espera”, com trajes amarelos desenhados pelo estilista João Pimenta, acompanhados apenas de alguns objetos: ora um bule e uma xícara, ora uma viola caipira, ou então uma mala. Coisas simples.
A partir desses e de outros utensílios, desfiam a trama sobre um homem e uma mulher que, prestes a deixar a casa dos pais, recuperam memórias de suas infâncias. Pequenos momentos valiosos vêm à tona no momento da partida, como servir um chá ou cuidar de um jardim.
Para a montagem de “A Casa que Espera”, Cherubini e Vargas partiram de algumas estratégias que já haviam consolidado em peças anteriores. Visitaram Centros de Educação Infantil, os CEIs, para ouvir de crianças suas histórias de memórias ligadas a objetos queridos.
“A gente escuta essas memórias, se emociona com elas e tenta expandi-las como reflexo do nosso tempo, da sociedade e das injustiças que essas crianças sofrem, criando um espetáculo que possa envolver as pessoas”, afirma o diretor.
Reconhecendo a influência que têm junto à comunidade local, composta em grande parte por imigrantes, os artistas programaram uma série de palestras para acompanhar a temporada da peça, que cruzam discussões sobre a infância e a cultura com temas como alimentação, meio-ambiente e a relação com a cidade.
Para garantir que a apresentação gratuita alcançasse o público, e este não dependesse da facilidade com aplicativos de mapa para poder assistir à peça, o grupo distribuiu filipetas na rua Coimbra, do Brás, ponto bastante frequentado por imigrantes bolivianos e seus filhos, com indicações de como chegar ao teatro a partir de lá.
Às vésperas de completar 40 anos, o Sobrevento escolheu essa peça para bebês para encerrar sua programação de 2025. A trupe mantém também uma programação consistente de apresentações para adultos e crianças mais velhas, mas não é nenhuma principiante na oferta de arte para os mais pequenos.
Suas primeiras peças para bebês são de 2010. Os diretores do Sobrevento acreditam que, na época, o teatro infantil vertia para o que chamam de prestação de serviço, a busca por atender às demandas dos pais e dos educadores.
Eles se opunham à produção que usava a arte apenas para passar lições às crianças e ao teatro com cara de animação de festa, que buscava prender a plateia com o estímulo fácil. Desde lá, já eram guiados pelo mesmo norte que preservam: para eles, o teatro para a primeira infância deve ser, mais do que didático ou puro divertimento, poético.
“A arte não é entretenimento, recreação, distração”, afirma Cherubini. “Nós, artistas, buscamos transformar o mundo por meio da transformação de uma pessoa num encontro poético.”
“Mas, por vezes, teatros são tomados como estacionamentos de crianças e nós, artistas, como garçons, pessoas que estão a serviço das expectativas daquela pessoa. O que nós queremos fazer é subverter essas expectativas.”
Já em 2010, o Sobrevento fundou o festival de teatro para a primeira infância Primeiro Olhar, acompanhado da antiga companhia espanhola La Casa Incierta, grupo estrangeiro influente na formulação dessa ideia de arte para o público infantil.
Vargas e Cherubini dizem que sua guinada para o teatro infantil foi recebida com desconfiança pela classe artística e pela crítica em um primeiro momento. Mas, no fim, a iniciativa foi bem sucedida. Seu teatro infantil lotou sessões e sessões do Espaço Sobrevento, no Belenzinho, e diretor e diretora acreditam ter influenciado a produção nacional voltada para os menores.
“A gente fica muito feliz de ver grupos que iam como espectadores e depois se sentiram capazes de criar um espetáculo para a primeira infância”, diz Vargas. “Isso foi muito bonito.”
Para o ano que vem, de efeméride, o Sobrevento planeja uma mostra com grande parte do repertório produzido ao longo dos anos, que deve acontecer na virada do semestre. Adiantaram à reportagem que devem também circular o país com “Para Mariela”, como parte de uma grande mostra de teatro, mas o público precisará aguardar um momento futuro para mais detalhes.
A Casa que Espera
Dir.: Sandra Vargas e Luiz André Cherubini. Com: Sandra Vargas e Luiz André Cherubini. Texto: Sandra Vargas. Livre.
Espaço Sobrevento – r. Coronel Albino Bairão, 42. Belenzinho, zona leste. Até 14/12. Sáb. e dom., às 11h e às 15h. Entrada gratuita.



