SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Na quarta-feira passada (26), a União Europeia anunciou que irá transferir o equivalente a R$ 270 bilhões para a Polônia reforçar suas defesas contra a percebida ameaça da Rússia, que invadiu em 2022 a Ucrânia, cujo território separa os países.

Ao agradecer, o premiê Donald Tusk falou em comprar drones e sistemas de defesa fronteiriça, mas não só. “Poderemos financiar rodovias e ferrovias relacionadas à segurança do Estado polonês”, afirmou.

A fala reflete uma crescente preocupação entre os membros do flanco leste da aliança militar Otan com gargalos de infraestrutura que podem dificultar a movimentação de recursos de defesa em caso de guerra com Moscou, algo que ambos os lados consideram provável por volta de 2030.

Da Grécia à Finlândia, o flanco leste da aliança é a linha de frente se as previsões se concretizarem, algo ligado ao futuro das negociações de paz sobre a Ucrânia. Há anúncios semanais de compras militares e reforço de efetivo, como a França fez na quinta (27), e cada vez mais foco na estrutura física.

Um novo estudo, publicado neste mês pela consultoria americana Geopolitical Futures, ilumina essa questão e aponta as fragilidades em oito países do Leste Europeu e adjacências, apontadas durante exercícios militares da Otan desde 2020.

Durante duas manobras na Estônia em 2024, por exemplo, os tanques britânicos Challenger-2 enviados tiveram de desviar de pontes e estradas secundárias devido a seu grande peso —até 74 toneladas carregado.

Boa parte das pontes na vital rodovia E67, a via Báltica, foi feita quando o país era parte da União Soviética, que usava blindados mais leves.

O governo em Tallinn corre contra o tempo e, desde o ano passado, promove um programa de revitalização de estruturas de R$ 620 milhões, metade do valor bancado pela UE. Logo ao sul, na Letônia, a mesma E67 é objeto de investimentos, mas o que salta aos olhos é o projeto de renovação da Ferrovia Báltica, que vai até a Polônia.

É mais rápido transportar blindados e suprimentos por via férrea, e aqui o investimento com fundos europeus liberados em 2022 é de R$ 950 milhões. Mas o nó do ferrovia está na Lituânia.

A partir da cidade de Kaunas, perto da capital Vilnius, a antiga rede com bitola soviética vira um ramal com padrão ocidental, usado na Polônia. Os trens têm de ter rodas adaptáveis ou então tê-las trocadas, com vagões sendo levantados com elevadores. O impacto disso em uma urgência militar é autoexplicativo.

O país é bastante visado devido ao corredor de Suwalki, um trecho na fronteira polonesa de 65 km que separa a Belarus pró-Moscou do exclave russo de Kaliningrado, visto como um ponto óbvio de ataque do Kremlin se o objetivo for isolar e tomar os três Estados Bálticos.

Vital num cenário desses é o porto de Klaipeda, cuja rodovia M1 que vai até a capital passa por obras que chegam a quase R$ 400 milhões. Elas foram aceleradas depois que brigadas americanas ficaram paradas em cidades como Kaunas no exercício Defender Europe-2022.

Alvo de uma incursão de drones russos em setembro, a Polônia tem o maior gasto proporcional com defesa da Otan, 4,7% de seu Produto Interno Bruto previstos para este ano, e anunciou na quarta passada a compra de três novos submarinos suecos, que se unirão a outros sistemas.

O estudo mostra que há inúmeros pontos de engasgo rodoferroviário no país, e há duas semanas uma explosão na linha de trem que liga a capital à fronteira da Ucrânia demonstrou a vulnerabilidade do sistema —o governo acusou Moscou, que negou a autoria.

O principal projeto aqui é o corredor ligando o país à Alemanha, visando estabelecer uma via de entrada terrestre sólida para material militar, que foi anunciado no ano passado. Parte do dinheiro anunciado por Tusk é para esse empreendimento.

Outros países mais distantes dos russos têm os mesmos problemas. A Hungria, um centro logístico óbvio por sua posição mais central, desde 2023 tenta adaptar suas ferrovias ao padrão de trens da Otan, composições com 740 metros de comprimento.

Na Romênia, a infraestrutura compromete: em edições das manobras Europe Defender e Saber Guardian, tanques americanos tiveram de fazer desvios sendo levados de trem em linhas pouco confiáveis para seu peso.

A principal ligação da Europa Ocidental com o centro o estratégico porto de Constanta, no mar Negro, é a rodovia A1.

Ela é cortada pelos montes Cárpatos —o trecho entre a Transilvânia e a Valáquia mal pode ser transposto com segurança por carros, dada sinuosidade impossível dos 90 km da mítica via Transfagarasan, que liga as duas partes da autoestrada.

Outro porto destacado no mar Negro é o búlgaro de Varna. Se precisar descarregar provisões vindas da Turquia ali, elas precisam ser escoadas por um corredor rodoferroviário até a cidade de Ruse que está obsoleto.

“A ferrovia Báltica, cruzamentos sobre o Danúbio e portos modernizados não apenas fortalecem a dissuasão da Otan, mas também reduzem vulnerabilidades de cadeias logísticas e contribuem para o crescimento econômico. É um jogo de ganha-ganha estratégico”, afirma a autora do estudo, a romena Antonia Colibasanu.

Foi o que ocorreu na Grécia, segundo o governo. Um acordo com os EUA em 2021 reformulou o uso do porto de Alexandroupoli, com estradas e ferrovias reformadas servindo tanto ao escoamento militar quanto à economia.

Para Colibasanu, os países mais ricos da Europa terão de abrir o bolso, até porque aceitaram a pressão de Donald Trump para elevar a meta de gasto com defesa para 5% do PIB até 2035 no clube com um truque: 1,5% disso é para gastar justamente com asfalto, trilhos e afins.