RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Na primeira de uma série de cartas sobre a COP30, publicada em março, o presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago, apresentou o Balanço Ético Global (BEG). O projeto ouve pensadores, cientistas, líderes religiosos, artistas, filósofos e comunidades tradicionais sobre os compromissos éticos necessários diante da crise climática.

Na mensagem, ele cita o humanista francês François Rabelais: “Ciência sem consciência é apenas a ruína da alma”.

A iniciativa se inspira no Balanço Global, um mecanismo previsto pelo Acordo de Paris que avalia o progresso dos países em direção às suas metas de redução de gases de efeito estufa.

Quando soube do anúncio, a americana Karenna Gore, diretora do Centro de Ética da Terra (CEE, na sigla em inglês) e dedicada à intersecção entre ética, fé e justiça ambiental, colocou-se à disposição para contribuir e foi convidada a coliderar o Diálogo da América do Norte, encontro regional dentro da iniciativa.

Durante o ano, o BEG promoveu eventos em todos os continentes, reunindo diversas tradições políticas, sociais e espirituais e defendendo que uma transformação ecológica real exige um pacto ético global. Karenna, filha de Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, tornou-se uma de suas principais apoiadoras.

Ela celebra a participação de Robert Bullard, conhecido como o “pai da justiça ambiental” por seu trabalho pioneiro ao mostrar como comunidades minoritárias e de baixa renda são desproporcionalmente afetadas por danos ambientais.

Na ocasião, conta Karenna, Bullard falou sobre os princípios de justiça ambiental formulados na Primeira Conferência Nacional de Lideranças Ambientais de Pessoas Não Brancas, em 1991, em Washington, e lembrou que esteve entre aqueles que viajaram para o Rio de Janeiro logo depois, onde perceberam que o trabalho realizado já era compreendido e acolhido na Eco-92.

“Foi extraordinário ouvir Bullard relembrar e ensinar sobre esses princípios e sobre as lideranças que emergem dos próprios povos que vivem nos EUA, mesmo em tempos como os de hoje”, diz Karenna.

Em 2016, Karenna foi presa ao participar de um ato não violento contra a construção de um gasoduto em Boston. A ação denunciava a expansão da infraestrutura fóssil enquanto ondas de calor, como a que matou mais de mil pessoas no Paquistão, já deixavam suas marcas. “Deitamos na vala do gasoduto em referência às valas comuns no Paquistão, recusando sair em protesto pacífico”, recorda.

Após a COP30, Karenna enfatiza que o BEG não deve ser visto como um evento isolado, com resultados a serem capturados em um único momento. “Ele atua como um catalisador, um ponto de virada, podendo se tornar um marco capaz de influenciar o que vem depois.”

*

*Folha – Como a fé e a religião moldaram a sua trajetória profissional e pessoal?*

*Karenna Gore -* Eu fui criada frequentando igreja. Cresci em uma tradição cristã protestante e tenho muito interesse nas diferentes tradições espirituais e religiosas. Por isso, busquei diálogos e experiências com tradições judaicas, muçulmanas, hindus, budistas e também indígenas.

Fui estudar a forma como a história foi moldada e como as sociedades são organizadas. Acredito plenamente que a fé, a religião e a espiritualidade são parte intrínseca da experiência humana.

*Folha – O que aprendeu sobre os pontos em comum entre essas diferentes religiões?*

*Karenna Gore -* Existe um sentimento de humildade e reverência nas tradições religiosas, porque elas tendem a se concentrar em algo maior do que nós, como indivíduos ou como seres humanos.

Acredito que essas convergências entre diferentes tradições religiosas podem ser aliadas importantes. Elas ajudam a ampliar o nosso horizonte diante da crise climática, porque nos lembram da relacionalidade, da reciprocidade e da interdependência.

*Folha – Nos EUA, uma pesquisa mostrou que os cristãos evangélicos estão entre os grupos religiosos com maior probabilidade de expressar ceticismo em relação à crise climática, enquanto os fundamentalistas argumentam que o futuro está nas mãos de Deus. Na sua perspectiva sobre ética e destino, como a negação e a passividade podem ser efetivamente abordadas?*

*Karenna Gore -* A expressão cristão evangélico é complexa. Existem múltiplas tradições.

Precisamos entender quais são os sistemas de crenças das pessoas. Muitas vezes, fala-se de cima para baixo, sem reconhecer as nuances dessas crenças. Se alguém acredita no fim dos tempos, na segunda vinda de Jesus ou no arrebatamento, ainda assim pode haver valores compartilhados dentro dessa conversa.

A pergunta é: se essa é a premissa daquela pessoa, quais são os valores centrais que Jesus representava e que deveriam orientar sua ação agora? Em vez de desqualificar ou ridicularizar essas visões, precisamos de mensageiros vindos dessas próprias comunidades, capazes de dialogar a partir de dentro. Caso contrário, perdemos a oportunidade de reconhecer os pontos de convergência e de alinhamento.

*Folha – Como iniciativas inter-religiosas ou baseadas em valores influenciam a agenda climática e fortalecem o debate público?*

*Karenna Gore -* Um ótimo exemplo disso é o décimo aniversário da “Laudato Si” [encíclica do papa Francisco], celebrada ao longo deste ano. Publicada pouco antes da COP21, ela catalisou debates dentro das comunidades de fé. Quando foi lançada, influenciou o Acordo de Paris, algo reconhecido por diversos chefes de Estado. A linguagem era belíssima, inspiradora e trazia uma crítica cultural profunda, impulsionando outros diálogos espirituais.

Outro é o “Al-Mizan: Um Pacto para a Terra”, que reúne estudiosos islâmicos e instituições muçulmanas para reafirmar princípios de proteção da natureza diante dos desafios atuais. Há várias declarações rabínicas ou de diferentes organizações judaicas.

O Parlamento Mundial das Religiões também desempenha um papel importante. Já palestrei lá, em um espaço onde questões de colonização e cristianismo foram abertamente discutidas e onde povos indígenas puderam expressar críticas e participar ativamente.

Esses diálogos inter-religiosos com povos indígenas são particularmente poderosos. Estamos atravessando um momento bastante difícil nos Estados Unidos, para dizer o mínimo. Ainda assim, vale destacar que, na administração anterior, foi aprovada uma legislação importante, a Lei de Redução da Inflação, que incluiu diversas disposições relacionadas ao clima, influenciadas, ao menos em parte, pela atuação de grupos inter-religiosos.

*Folha – Como a senhora entende o que é ética e como o seu centro tem atuado hoje em projetos voltados para a crise climática?*

*Karenna Gore -* A ética da Terra não é uma ciência exata, mas um exercício de discernimento sobre como vivemos em relação ao planeta vivo. Historicamente, a ética se torna mais poderosa quando leis e normas sociais entram em conflito com um senso moral mais profundo, como no caso da escravidão, que era legal e socialmente aceita, mas passou a ser percebida como moralmente inaceitável. Esse processo de mudança também é necessário agora diante da crise climática, já que grande parte do que causa o problema é legal e até incentivado.

Por isso, precisamos recorrer a valores mais profundos. A crise climática revela um conflito fundamental: nosso sistema econômico destrói a base da vida, e precisamos redefinir o que entendemos como sucesso, progresso e riqueza, porque hoje esses valores estão em desacordo com o que sustenta a vida.

A ética da Terra amplia o nosso “círculo de preocupação moral”, incluindo três grupos historicamente excluídos das decisões: pessoas pobres e marginalizadas, gerações futuras e a vida não humana. Esses três lugares vazios deveriam estar presentes em todas as salas onde decisões climáticas são tomadas. Se tivessem sido considerados desde o início, nossas escolhas teriam sido mais sábias.

A ética também precisa ser entendida como o lugar onde buscamos o diagnóstico da doença, não apenas o tratamento dos sintomas. Para ilustrar essa diferença, surge a lembrança de uma frase de Dom Helder Câmara: “Quando dou de comer aos pobres, chamam-me de santo; quando pergunto por que são pobres, chamam-me de comunista”. Mostra como é mais confortável reagir aos acontecimentos do que investigar suas causas profundas.

Após desastres climáticos, comunidades frequentemente se mobilizam de forma bela e solidária, mas seria igualmente necessário aplicar essa mesma energia para enfrentar as forças que tornam as tempestades cada vez mais fortes.

*Folha – Como a senhora se envolveu com o BEG e qual foi seu papel no processo?*

*Karenna Gore -* Quando li a primeira carta da presidência da COP30, achei a ideia excelente. Já admirava a ministra Marina Silva, e saber que a iniciativa era dela me deixou ainda mais entusiasmada.

Procurei a liderança da COP30 para informar que o CEE já trabalhava nessa direção e me coloquei à disposição para contribuir. Fui convidada para ser colíder do diálogo na América do Norte. Fiquei profundamente honrada com o convite.

Embora os diálogos oficiais tenham sido encerrados, eles não terminaram de fato, trata-se de um processo em permanente construção.

*Folha – Quais são os principais elementos do BEG e como eles influenciam as negociações climáticas?*

*Karenna Gore -* O BEG é um instrumento importante porque permite trazer elementos de cultura, espiritualidade, ciência, fé, tradições indígenas e diferentes visões de mundo para orientar decisões climáticas. Ele incorporou ao menos três elementos centrais.

O primeiro é um chamado profundo à mudança de consciência sobre a relação humana com a natureza: reconhecer que somos apenas uma entre muitas espécies em um planeta vivo, e que transformar os sistemas que alimentam a crise climática pode também melhorar nossa saúde e bem-estar.

O segundo elemento é reconhecer com clareza os obstáculos, especialmente o papel da indústria fóssil. Há avanços recentes no processo da COP ao finalmente nomear os combustíveis fósseis como problema, mas é preciso reconhecer que o setor atua ativamente para bloquear decisões coletivas, influenciando universidades, instituições filantrópicas, tentando barrar transições para energias renováveis por meio de lobby e campanhas de desinformação.

O terceiro é a necessidade de mudar a forma como se comunica a crise climática, incorporando mais narrativas, música, humor e histórias que conectem com as pessoas de maneira humana e direta.

Esses três elementos –consciência, lucidez sobre os obstáculos e novas formas de comunicação– ajudam a moldar o que o BEG pode acrescentar à agenda de ação climática.

*Folha – Qual foi a programação do BEG na COP30 e o que esperavam alcançar na conferência?*

*Karenna Gore -* Tivemos um pavilhão na zona azul, e a TED Countdown House [casa organizada fora do espaço oficial da COP] em Belém também atuou como um espaço colaborativo. Além disso, vários outros diálogos informais aconteceram.

Algo que se comentou sobre o BEG é que ele funciona como um movimento de movimentos. Percebo que os movimentos se tornam verdadeiramente poderosos porque são formados por pessoas e comunidades, cada uma com sua própria cultura, e carregam muito coração e alma.

É isso que me atrai no Brasil: sinto uma força intensa de coração e alma. Um “movimento de movimentos” não pode ser capturado em um único momento. Seus resultados não acontecem em um dia específico ou mesmo durante duas semanas de COP. Ele atua como um catalisador, um ponto de virada.

*Raio X | Karenna Gore, 52*

É fundadora e diretora-executiva do Centro de Ética da Terra (CEE, na sigla em inglês) no Seminário Teológico Union, onde também é professora de Prática em Ética da Terra. Integra ainda o corpo docente adjunto da Escola de Clima da Universidade Columbia e a rede de especialistas do programa Harmonia com a Natureza, das Nações Unidas. Graduada por Harvard, possui doutorado em direito por Columbia e mestrado em ética social pelo Seminário Teológico Union.