SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Falar que oriental é tudo igual é o mesmo que dizer que brasileiro e argentino são a mesma coisa”. A tese é de Roberto Yi, 51, coreano que chegou ao Brasil aos 7 anos de idade. A família engrossou a leva de imigrantes da Coreia do Sul que transformaram o Bom Retiro, bairro da região central de São Paulo, em um polo da indústria têxtil.

Mas o administrador e engenheiro mecatrônico também defende a tese do ponto de vista profissional: no setor de ar-condicionado, as três gigantes mundiais Daikin, Midea e Gree são todas asiáticas. A primeira nasceu em 1924 no Japão, e as outras duas na China, em 1968 e 1991, respectivamente.

Yi, que trabalhou durante 20 anos na conterrânea LG, agora está à frente da filial brasileira da Daikin, onde se empenha em mostrar que a japonesa é uma opção melhor que a coreana, líder da categoria no Brasil, e que as rivais chinesas para climatizar ambientes corporativos, comerciais e residenciais.

O problema é o preço: mesmo fabricados na Zona Franca de Manaus, os aparelhos da Daikin chegam ao consumidor custando entre 30% e 50% mais do que a média de mercado, devido à tecnologia de alta eficiência energética embarcada. O discurso da fabricante é que o que se economiza ao longo do tempo com o aparelho, que consome bem menos energia do que os rivais, mais do que compensa o custo.

Nos últimos três anos, a multinacional investiu mais de US$ 2,7 bilhões (R$ 14,4 bilhões) globalmente para desenvolver produtos e soluções com eficiência energética, como o ar-condicionado que consome menos que um ventilador, produzido em Manaus.

“Estamos tentando encontrar soluções para diminuir esse gap, só não podemos deixar de fabricar um produto de alta qualidade”, diz Roberto Yi. A alternativa estudada pela Daikin para o mercado brasileiro é a assinatura do serviço de ar-condicionado, algo inédito no país: o cliente bancaria os custos de instalação do aparelho na residência (nova ou usada), e pagaria uma baixa mensalidade pelo uso. A ideia é que o consumidor se acostume com o serviço a ponto de decidir pela compra do aparelho.

A Daikin lançou o programa em 2020 em alguns países da África, como Tanzânia e África do Sul. “Lá o cliente vai pagando um pouquinho por mês, cerca de US$ 5 (R$ 26,70) e, ao final de cinco anos, pode quitar o valor residual e comprar o ar-condicionado, ou rescindir a assinatura. Neste caso, os próprios técnicos da Daikin retiram o aparelho”, afirma Yi, ressaltando que no Brasil a proposta ainda precisa amadurecer.

Apenas 2 a cada 10 residências no país têm ar-condicionado, diz Yi, o que dá uma ideia do mercado em potencial. “Alguns estudos indicam que a venda de aparelhos residenciais deve quintuplicar até 2035”, afirma. Neste período, a Daikin Brasil planeja sair da atual participação de 4% em volume em aparelhos residenciais para 20%. Até hoje, o foco da japonesa esteve no mercado corporativo, onde assina grandes projetos como o complexo Eldorado Business Tower e o novo Museu do Ipiranga, em São Paulo, hospitais da Rede D’Or, e grandes estádios como a Vila Belmiro, em Santos, e o Mané Garrincha, em Brasília.

No exterior, estão na lista o Palácio de Westminster (Londres), a One World Trade Center (Nova York), o restaurante Terrazza Triennale (Milão), o complexo Costanera Center (Santiago) e o arranha-céu Abeno Harukas, em Osaka, sede da multinacional. Foram grandes projetos como estes que fizeram da Daikin a líder mundial em HVAC (aquecimento, ventilação e ar-condicionado): em 2024, somou vendas globais de US$ 26,42 bilhões (R$ 140,9 bilhões). Com, isso, segundo a empresa de pesquisas Fuji Keizai, ficou à frente da Midea (US$ 20,13 bilhões/R$ 107,4 bilhões) e da Gree (US$ 18,53 bilhões/R$ 98,8 bilhões).

No Brasil, para brigar de verdade, a Daikin sabe que precisa crescer no varejo. Um caminho tem sido as 31 lojas conceito da marca abertas até agora, em 16 estados, onde o público pode perceber que um ambiente climatizado para trazer conforto térmico é bem diferente de um local refrigerado para proporcionar frio. “Muitos consumidores não querem sentir um jato de ar frio na direção da sua cabeça”, diz Yi.

Os pontos de venda não são próprios, mas de parceiros que fazem a instalação dos produtos Daikin. Essas equipes passam por treinamentos intensivos em três centros da companhia no Brasil –em São Paulo, no Rio e em Salvador; um quarto centro deve ser aberto em Belo Horizonte. “Os instaladores duplicaram a receita a partir das lojas”, afirma o executivo. A marca vende no próprio site, nas lojas conceito e via distribuidores, que levam a marca a grandes varejistas, mas de forma pontual.

No ano passado, a categoria de ar-condicionado somou faturamento de R$ 14 bilhões no Brasil (alta de 26% sobre 2023), com a venda de 4,4 milhões de unidades (crescimento de 5%), segundos dados da NielsenIQ. A maior alta veio em 2023, quando ondas de calor fizeram sumir aparelhos das lojas: a venda em volume avançou 14% e, em valor, 34%. O preço médio dos equipamentos também vem aumentando, e não só por conta da inflação: em 2024, foi R$ 3.112, alta de 20% sobre 2023 e de 40% sobre 2022.

O avanço, diz Yi, está relacionado à busca por aparelhos de maior eficiência energética, a “praia” da Daikin, que inventou em 2012 o fluido refrigerante R-32, responsável por reduzir sensivelmente o impacto ambiental e o consumo de energia. A empresa liberou a patente, hoje utilizada pelas maiores indústrias.

Na COP30, em Belém, a Daikin apresentou aparelhos de ar-condicionado para uso em edifícios que reduzem o gasto de energia elétrica em até 40%. A própria empresa realizou testes em seus prédios para comprovar a redução do consumo, em comparação a métodos convencionais de ventilação e climatização. A solução pode contribuir para a descarbonização de edifícios, responsáveis por cerca de 37% das emissões globais de gases de efeito estufa.

“Aparelhos que consomem menos energia contribuem para que o país não sofra mais com apagões, nem precise aumentar a produção de energia elétrica”, diz Robert Yi, que em Belém montou a exposição da Daikin no “Pavilhão Japonês”, organizado pelo Ministério do Meio Ambiente do Japão. A esse respeito, o engenheiro já constatou algo que o aproxima da cultura brasileira. “Os coreanos são muito mais barulhentos que os japoneses”, brinca.

RAIO-X DAIKIN BRASIL

Fundação: 2011

Sede: São Paulo

Funcionários: 580

Presença: 31 lojas conceito (em 16 estados); 3 centros de treinamento; 1 fábrica em Manaus

Principais concorrentes: LG, Midea, TCL, Gree, Elgin, Philco

Faturamento em 2024: US$ 200 milhões (R$ 1,06 bilhão)

2026, MODO DE USAR

Nova série da Folha traz entrevistas semanais em texto e vídeo, apresentando expectativas, receios e estratégias escolhidas para 2026 pelos principais executivos de dez segmentos diferentes: supermercados, varejo, consórcios, têxtil, calçados e confecções, ar-condicionado, tecnologia, telefonia, serviços financeiros e mobilidade. Todas as empresas da série faturam mais de R$ 1 bilhão ao ano.