SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Jennifer Lawrence, 35, estava grávida do segundo filho, nascido no começo deste ano, quando gravou “Morra, Amor”, em cartaz nos cinemas. No filme, ela dá vida a Grace, uma escritora que, após o nascimento do primeiro filho, se vê isolada e cada vez mais irritada com tudo e com todos ao seu redor.

Apesar de ser a primeira vez que interpreta uma mãe depois de ter se tornado uma, ela diz que sua experiência não foi fundamental para a composição da personagem. “Algo que me deixaria chateada ou até mesmo como eu ficaria chateada seria diferente de como um personagem que estou interpretando reagiria”, explica.

Ela admite, no entanto, que a maternidade fez com que ela tivesse mais a oferecer para Grace. “Tanto eu quanto o Rob [Robert Pattinson, que vive seu marido no longa] éramos pais de primeira viagem quando estávamos filmando, então havia muita experiência que podíamos trazer para a mesa para adicionar dimensões a isso”, conta.

“Mas não senti que estava trazendo coisas literais da minha vida para o papel”, continua. “Foi mais usar a minha imaginação e empatia, apenas imaginando se eu fosse sensível, se eu fosse ela, se eu estivesse sendo ignorada…”

A atriz, que diz saber separar bem o papel de mãe dos que interpreta nas telas, conta que entende quem tem dificuldade para administrar tudo o que está acontecendo ao seu redor após o nascimento de um filho. “Acho que há muito a dizer sobre expectativas culturais”, avalia.

“Enquanto as mulheres estiverem enfrentando essa expectativa irreal de serem donas de casa perfeitas e mães perfeitas e também terem uma carreira… isso é uma maneira inteligente de garantir que não avancemos muito no mercado de trabalho”, afirma. “Sei que provavelmente não sou a pessoa certa para falar disso. Para mim, todo o sistema está manipulado.”

O fato de Grace se mudar para uma propriedade rural e longe dos seus é algo que, para a atriz, ajudou a personagem a se perder um pouco dela própria. “Descobri que ter uma comunidade, especialmente uma comunidade de mães, foi tão fundamental quando tive meu primeiro filho”, comenta.

“Eu teria me sentido muito isolada se não tivesse mães para conversar quando as encontrava no parque ou então as amigas que tiveram bebês mais ou menos na mesma época para fazermos encontros e brincadeiras juntas”, continua. “Eu estava muito consciente disso.”

Jennifer lembra que o filme é, à primeira vista, sobre depressão pós-parto, mas que a diretora e roteirista Lynne Ramsay acrescentou muitas camadas à história. “A personagem é uma exploração muito poderosa, foi diferente de tudo que eu já tinha lido ou sentido”, diz.

Em determinado momento da trama, a personagem começa a rastejar como se fosse um animal, algo que foi experimentado durante as gravações e acabou ficando na edição. “Acho que foi uma combinação de eu estar grávida –e, quando você está grávida, você meio que está nesse espaço animalesco– com a minha personagem sendo levada para esse lugar onde ela estava realmente isolada”, analisa. “É como se ela fosse um animal selvagem preso em uma jaula.”

A atriz diz que sempre quis fazer personagens mais cheios de camadas, como Grace, mas que nem sempre isso foi possível. “No começo da minha carreira, não pensava nisso como uma opção. Eu só queria um salário fixo, então consegui um papel em uma sitcom que ninguém viu, o que foi perfeito”, diz ela sobre “The Bill Engvall Show”, que durou de 2007 a 2009.

Ela diz que foi essa estabilidade que lhe permitiu ser mais seletiva depois. “Eu era consciente o suficiente para tentar não ficar rotulada em certas coisas”, afirma. “Foi quando tive uma resposta realmente forte a ‘Inverno da Alma’ [filme de 2010 da cineasta Debra Granik] que algo em mim despertou. Percebi como é gratificante estar sob a liderança de uma grande diretora, algo que sempre tentarei buscar.”

E O PAI, ONDE ESTÁ?

Robert Pattinson, 39, dá vida ao passivo Jackson, marido de Grace, e diz que tentou ser ponderado ao interpretar o parceiro dessa mulher tão intensa. “Tive uma reação um tanto visceral ao ler o primeiro rascunho do roteiro e o livro, eu só queria defender o parceiro masculino em um relacionamento”, diz.

“Mesmo que alguém seja desprezível e que o ponto do personagem seja servir como um dispositivo –especialmente no livro, onde ele é uma criatura sombria absolutamente inútil que deveria apenas personificar a decepção dela com a vida deles–, acho que seria simplesmente entediante se você apenas interpretasse um cara sentado no sofá sendo um completo perdedor. Então, você precisa criar algo.”

Ele comemora que, agora que o filme começou a chegar ao público, tem recebido mensagens de pessoas que assistiram ao filme e se identificaram com o que é mostrado. “Isso meio que faz você entendê-los de uma maneira diferente”, avalia. “Você pode assistir a algo que é muito homogeneizado e simplesmente não há nada a dizer depois, mas, se você vê um filme que tem uma intensidade muito concentrada, isso força você a falar sobre ele.”

“MORRA, AMOR”

Quando: Em cartaz nos cinemas

Classificação: 16 anos

Elenco: Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek, Nick Nolte e LaKeith Stanfield, entre outros.

Direção: Lynne Ramsay