SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo”, Emicida cantou na primeira faixa de sua primeira mixtape, “Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, até que Eu Cheguei Longe”, de 2009. O rapper tinha uma música, “Triunfo”, a fama de imbatível nas batalhas de rima, 24 anos de idade e uma carreira a construir. Voltar, então, para onde?
A resposta ali é a mesma que a de agora –os Racionais MCs. Há 16 anos, Leandro Roque, nome de batismo do rapper, retratava uma confusão, a viabilidade de ter uma carreira sem abandonar os fundamentos do gênero que defende. Perguntava se “essa porra de ‘nós’ existe mesmo ou é outra ideia que ficou pra trás”, e rimava que “os MCs nem sabem mais se pedem um drink ou pedem paz, se aqui é Disney ou Alcatraz, se nós é Rouge ou Racionais”.
Agora, ele se inspira –e, deliberadamente, revira– a obra do maior grupo de rap do Brasil numa trilogia reversa que batizou de “Emicida Racional”.
O terceiro volume, já lançado, é uma mixtape em que o DJ Nyack, seu fiel escudeiro, encaixa faixas de voz de músicas antigas de Emicida em bases instrumentais do grupo de Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay. O segundo é “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, que sai neste mês. É o primeiro álbum de estúdio do rapper desde “AmarElo”, de 2019, e também sua primeira obra desde que se separou do irmão, Evandro Fióti, com quem está envolvido numa disputa judicial milionária em torno do selo Laboratório Fantasma.
“Quantas coisas valiosas nós abandonamos em nome de outras que hoje a gente não acha que têm a solidez que imaginou que teria?”, diz Emicida. “Fizemos escolhas boas e ruins, e chega nesse momento em que sou tocado por aquela mesma sensação. Observo isso de um lugar difícil de alcançar –o de não julgamento. Olhar para a situação como um elemento da vida, me sentir, sei lá, perdido, desesperançoso e falar ‘é hora de voltar e pegar o que ficou ali atrás, porque esse é o caminho que eu gostaria de seguir para sempre’.”
Esse caminho é o rap. Não exatamente seus maneirismos sonoros –samples, scratchs, batidas de trap ou boombap–, mas o artesanato das palavras, seus sons e combinações. “Essa é a nossa brincadeira enquanto rappers. É voltar para o começo nesse lugar.”
É isso que Emicida faz em “Finado Neguin Memo”, do novo disco, em que estressa ao máximo as possibilidades de rima com palavras proparoxítonas. Também em “Os Memo Preto Zica”, em que constrói sua poesia recombinando versos de músicas dos Racionais, por cima de um instrumental meio Jorge Ben Jor, meio Marvin Gaye. É uma colcha de retalhos que soa estranhamente familiar, como se ele sampleasse frases em vez de trechos de LPs antigos.
Em “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, uma referência ao álbum “Cores & Valores”, lançado pelos Racionais em 2014, o rapper mete o dedo na obra do quarteto na forma e também no conteúdo. Em “A Mema Praça”, reclama sua veia política de elaboração e denúncia do racismo –o mais próximo do que os fãs chamam de “Emicida do velho testamento”.
A música original, “A Praça”, retrata o show dos Racionais na Virada Cultural de 2007, em que a praça da Sé, em São Paulo, virou cenário de guerra após ação da polícia. Agora Emicida narra sua versão daquela mesma noite ao lado dos rappers Rashid e Projota –os três estavam na plateia naquele dia.
Ele recria também “Quanto Vale o Show?”, em que Mano Brown desfila rimas como Pelé costurava defesas, enquanto convida o ouvinte a um passeio por sua adolescência nos anos 1980. “É uma roda gigante essa caneta. Você vai da chacina ao sucesso do Michael Jackson”, diz Emicida.
Se Brown começa por uma batida de partido alto no pandeiro, o fã e rapper mais novo, em sua versão, lembra-se que o som do zíper da blusa remetia ao scratch que os DJs fazem nos discos de vinil. Dali, parte para outra jornada –a sua própria adolescência, na década de 1990, até a morte de Sabotage, em 2003.
Na sua “Quanto Vale o Show Memo?”, Emicida rima sobre a eleição de “um presidente operário” em 2001. “As pessoas fazem essa associação [com o Lula], mas a brincadeira é com ‘Uma Odisseia no Espaço'”, diz, citando o filme de Stanley Kubrick. “Ali o ser humano vê a possibilidade de fazer viagens intergalácticas. É um paralelo doido, porque é uma distância parecida com a de uma pessoa pobre e operária alcançar um lugar de reconhecimento como a presidência da República no Brasil.”
Seu processo de escrita, diz Emicida, é meticuloso, em que ele vai riscando as palavras como pedra –“até sair faísca”. “Procuro [no dicionário] a palavra e as formas de interpretá-la, porque às vezes varia a sílaba tônica. Muitas vezes você altera uma sílaba e muda todo o sentido. Tem coisas de uma subjetividade tão grande que não são captadas nem pelos fãs”, ele afirma.
Desde as batalhas de freestyle, Emicida sempre foi um craque das rimas, e nunca abandonou o rap. Mas em seus últimos álbuns –“O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”, de 2013, e “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, de 2015, e “AmarElo”– ele foi caminhando para perto da MPB.
Em 2017, o rapper Don L lamentou que o rap só seria reconhecido enquanto arte a partir de movimentos desse tipo. “Se é MPBoy a grana vem/ Igual passarinhos voando/ Colando no Leblon vez em quando/ Pra chupar a Lavigne/ Mais do que o Athayde faz plano/ Na sauna hype do Caetano”, ele rimou em “Eu Não te Amo”, citando indiretamente “Passarinhos”, canção de Emicida com Vanessa da Mata, levada ao ukelele, e marco daquele momento.
Não era uma crítica a Emicida, como o próprio Don L esclareceu no mesmo álbum, na faixa “Fazia Sentido”, mas ao ecossistema da música no Brasil. É como se o rap não se bastasse –ele precisaria do aval dessa elite da MPB.
Na última década e meia, Emicida cantou em todos os grandes festivais do país , excursionou no exterior –tocou no Coachella, nos Estados Unidos, bem antes de Anitta e Ludmilla–, colecionou prêmios e angariou uma admiração intelectual que é rara para qualquer rapper em qualquer época. Culminou com o show de “AmarElo” para um Theatro Municipal, em São Paulo, abarrotado –e, também raro, repleto de pessoas negras no palco e na plateia.
Na úlima quinta, teve um verso seu citado pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lucia em seu voto na ação sobre a possível omissão do Estado na garantia de direitos da população negra. E neste sábado (29), recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Recentemente, também deu aulas nas universidades de Pittsburgh, nos EUA, e Coimbra, em Portugal. “Pude reorganizar em parâmetros acadêmicos toda a informação que a gente manipula para fazer um rap –e é muita coisa”, ele diz.
Agora, na “fase Racional”, Emicida quer exercitar o rap em toda a sua magnitude. “Depois dessa jornada de indústria, arte e cultura, quero apresentar a música rap não como um quase algo, mas como um gênero completo. O rap existe dentro de si mesmo há décadas. Fomos muito questionados –às vezes pela imprensa, às vezes pelo mercado, com a demanda de ter refrão, ser mais pop.”
Se a confusão de agora lembra a de 2009, talvez o retorno seja diferente. Mais que aos Racionais, Emicida está buscando a si mesmo através do grupo que arquitetou a maneira brasileira de se fazer rap. Está mais para o glorioso retorno de quem já esteve aqui.
“Fiquei introspectivo, cuidei de minha família, minhas plantas, meus cachorros, li meus livros”, diz. “Rodei o mundo, mas era a hora de voltar para casa. Mostramos mil possibilidades, mas se você quer ser alguém, você tem que ser você. E sou isso aí. É a música de que gosto.”
“Onde a sua mente está agora?”, Emicida indaga numa faixa de “Mesmas Cores & Mesmos Valores”. É uma estratégia budista para se não deixar levar por preocupações futuras ou problemas do passado. Recentemente, o rapper lidou com alguns contratempos.
Dona Jacira, sua mãe, morreu em julho, aos 60 anos. Os mais de oito minutos da primeira faixa do novo álbum são dedicados a ela, que surge numa colagem de áudios por cima do piano de Amaro Freitas. Entre outras coisas, ela fala da necessidade de escrever, algo em comum com o filho MC, mas que não era percebido assim.
“Nossa relação foi de embates”, diz Emicida. “Meu pai foi um DJ frustrado. Isso tem relação com o alcoolismo no qual ele caiu, o que tem vínculo direto com a forma como ele morreu. Ter uma situação dessa em casa gera um assombro.”
Sua mãe não gostava de rap, nem queria que ele seguisse essa carreira. Na periferia, ele diz, as pessoas não são moldadas para sonhar, mas fazer parte de uma engrenagem. “Só que sou uma engrenagem rebelde. Um parafuso que falou ‘vá se foder, vou ficar girando aqui o resto da minha vida? Sai fora.'”
Não ajudou o fato de que na década de 2000 o rap era visto como a música do crime. É algo que não mudou muito, diz o artista, lembrando as prisões de Oruam e Poze do Rodo, no Rio de Janeiro, acusados de fazer apologia do tráfico de drogas e de envolvimento com o crime.
“Quando ganhei a Liga dos MCs, em 2006, dormi na calçada com o prêmio no bolso. Minha mãe ficou brava de eu ter ido ao Rio fazer essa parada. Demorou para ela entender, e a gente nunca falou sobre isso”, diz. “É uma parada muito louca da relação de mãe e filho. São conversas que não aconteceram.”
Num dos áudios de “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, Jacira, sua mãe, diz que precisa escrever, algo que ela fazia havia décadas. “Você ia pegar um caderno de receitas e tinha um negócio escrito sobre o bairro. Foi ver isso que me fez escrever”, diz o rapper. “Ela não entendeu que, além da cultura hip-hop, tinha algo dentro da minha casa que emanava dela e que me fazia teimar naquele bagulho. No meio das nossas tretas, minha capacidade de improvisar evoluiu. Eu não podia ter um caderno, ia gerar discussão. Tive que levar tudo para dentro da cabeça. E nas batalhas era onde eu podia botar para fora.”
Até sua primeira música, “Triunfo”, de 2008, Emicida teve outros trabalhos –foi pedreiro, artesão, assistente de estúdio. Quando lançou a mixtape de estreia, no ano seguinte, já foi por um selo próprio, o Laboratório Fantasma.
Tocada por ele com o irmão, a empresa nasceu da vontade de fazer as coisas por conta própria, dada a incompreensão em torno do rap –que começava dentro de casa, mas se estendia à indústria. Em alguns anos, se tornou uma das mais bem-sucedidas experiências independentes da música brasileira.
Além de Emicida e Evandro Fióti, a Lab publicou obras de gente como Rael e Drik Barbosa, desfilou na São Paulo Fashion Week com suas coleções de roupas, teve escritório, estúdio e um negócio rentável. Em abril, os irmãos romperam após um desacordo financeiro milionário e a disputa está na Justiça.
Emicida não proibiu a reportagem de perguntar sobre o assunto, mas não quis se aprofundar. “Em minha trajetória sofremos muito enviando trabalhos para a imprensa que não receberam a atenção que considerávamos devida. Não quero ser protagonista desse tipo de situação e prefiro não visitar esse assunto. A Laboratório Fantasma continua dentro de um litígio a partir desse desacordo, e a gente não tem previsão de fazer novos projetos através dela.”
O modelo de negócios que impulsionou a empresa fez sentido na época, ele diz, mas é uma bananeira que já deu frutos. Ele era baseado em publicidade –“monetizar cliques e ‘likes’ tendo visibilidade e seguidores”. “Essas métricas vão ser irrelevantes porque podem ser reproduzidas em uma agência por qualquer pessoa que tenha ou não um vínculo com algo verdadeiro.”
Para o rapper, a internet tem de voltar a ser protocolo, não plataforma, e a tendência é de fricção contra as redes. “Se você tem atenção por ser legítimo, consegue se manter de pé. Esse vai ser o parâmetro –pessoas que não são ameaçadas pela inteligência artificial porque significam algo fora do digital.”
Ele crê que a ascensão das pautas de afirmação de identidades marginalizadas no auge da gravadora gerou choques valiosos. “O resultado são as conversas que tenho com minhas filhas. Enquanto sociedade, fomos para um lugar melhor”, diz. “Tomamos flechadas e disparamos, mas eram ideias que precisavam de atenção. Excessos foram cometidos. Nem tudo o que foi dito por quem trouxe essas bandeiras foi legítimo. Assim como nem todo mundo que defendia outro ponto era digno de vaia.”
“Mesmas Cores & Mesmos Valores” sai pelo novo selo de Emicida, Cecrópia. “Pouco refrão? Só tem um”, diz Emicida, rindo, ao comentar o novo disco. Ele diz que cria sob uma lógica de agricultor –para ter um bom grão de café, é preciso um trabalho de três anos antes. Ao mesmo tempo, agora quis captar o calor do momento. Mais ou menos como uma foto de Walter Firmo, autor da capa do álbum do rapper, que retratou ícones do samba com um clique espontâneo.
Nisso sobram ruídos, silêncios e uma faixa de dez minutos que é música concreta no estilo John Cage. Ao fim da primeira música, ouvimos ao fundo um barulho de choro. “É um microfone que estava dentro do piano e colateralmente gravou o momento que eu estava chorando, me levanto, abraço o Amaro Freitas e a gente chora junto.”
As cores podem ser as mesmas, mas alguns valores mudaram. Em “Intro (É Necessário Voltar ao Começo)”, a primeira música da primeira mixtape, Emicida rima que Jesus perdoou demais e morreu, e Lampião confiou demais e morreu, antes de arrematar –“não confio nem perdoo, por isso mandaram eu”. Era ali o rapper que veste seu eu-lírico com uma capa de super-herói para inspirar o ouvinte e esconder fragilidades.
Emicida está de volta ao rap, mas não sem o que colheu enquanto se tornou um dos grandes nomes da história do gênero no Brasil. E com toda a sua vulnerabilidade. “Como todas as pessoas, também tenho minhas angústias, ansiedades, desesperanças. E aí a cabeça entra em um vórtex”, ele diz, citando o aprendizado budista a que recorria.
Até porque, para o rapper, o que define o melhor da música e da cultura brasileira é uma “dimensão inseparável da melancolia e da luz”. “Você vai achar isso na bossa nova, no Johnny Alf, no Jorge Ben Jor, nos Racionais”, ele afirma.
Emicida diz que sua “fase Racional” é um presente para o garoto que descobriu no poder das palavras o sentido da vida, e seu agradecimento aos responsáveis por isso, o maior grupo do rap nacional.
Afirma também que fez o novo álbum para aproximar pessoas e gerações. “A gente precisa se reconectar. Estou falando aqui numa esfera íntima, familiar, mas a gente precisa produzir uma atmosfera de conexão enquanto sociedade. E não é por ideologia simplesmente –é porque isso é vital para nossa sobrevivência enquanto povo. A gente vai ter que colocar perdão no horizonte. E perdoar não é fácil.”



