RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O governo do Rio de Janeiro prevê para julho de 2026 a conclusão das obras no palacete do parque Lage, na zona sul da cidade. O restauro, com custo estimado em R$ 21,4 milhões, tem como objetivo recuperar parte da estrutura e das cores originais do casarão.

No auge, nos anos 1930, o local ficou conhecido por abrigar banquetes e outros eventos da elite carioca. Os anfitriões eram a cantora lírica italiana Gabriela Besanzoni e seu marido, o industrial Henrique Lage.

“O luxo ali não humilha, ao contrário, conforta”, escreveu a jornalista Magdala de Sousa Pinto em edição do Jornal do Brasil de 1937.

O palacete, de estilo eclético, era herança de família. O comendador Antônio Martins Lage havia comprado o terreno no século 19. Antes, o lugar fora uma fazenda do militar português Rodrigo de Freitas, às margens da lagoa que depois teria seu nome.

Havia jantares exclusivos para artistas, jornalistas e nomes da colônia italiana na então capital federal. O palacete figurava em colunas sociais com importância de clube social, como o Tijuca Tênis Clube e o Clube de Regatas do Flamengo, na Gávea.

Ali também Besanzoni, mezzo-soprano, uma das cantoras líricas mais celebradas de seu tempo, começou a ensinar canto lírico aos jovens.

As obras de restauração em andamento buscam recuperar parte do luxo do antigo espaço. A gestão Cláudio Castro (PL) diz ser a maior intervenção já feita no palacete em 100 anos.

“Essa obra de restauro é um pouco complexa porque a gente tem que deixar tudo o mais parecido possível com o que era originalmente”, afirma o secretário de Infraestrutura e Obras, Uruan Andrade.

O parque Lage é uma área verde de 52 hectares (equivalente a 72 campos de futebol) localizada na rua Jardim Botânico, na zona sul do Rio. É um casarão com imenso jardim ao redor, repleto de fauna e flora de mata atlântica.

Seus fundos dão para o parque nacional da Tijuca. A frente fica próxima à lagoa. Dentro do parque, os pontos mais visitados retratam um país e um tempo: um casarão construído por ricos do século 19, uma lavanderia usada pelos escravizados do local e, desde 1975, uma tradicional escola de artes visuais.

A restauração do palacete, tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1957, é feita com cuidado. Equipes usam bisturis, espátulas e solventes em gel.

“Na biblioteca, a gente encontra uma pintura decorativa como original, que é a que a gente está tentando resgatar. São diversas camadas de tinta e massa sobre essa pintura. Por isso, estamos fazendo a remoção completa desses materiais para poder identificar o estado de conservação do material”, afirma a restauradora Alice Torres, à frente dos reparos na parte interna.

O trabalho inclui ainda a limpeza externa do palacete, com uso de escovas sobre as pedras e concreto. A escovação é feita com água e sabão neutro, ou a seco.

Dentro do imóvel funciona desde 1975 a Escola de Artes Visuais, que oferece cursos pagos em núcleos de arte e tecnologia, gravuras e história da arte. As aulas foram transferidas para o edifício das Cavalariças, dentro do parque, por conta das obras.

A escola foi presidida por nomes importantes das artes plásticas do país como Rubens Gerchman, Luiz Áquila e Reynaldo Roels. O instituto passou por pressões pelo terreno. Em 1988, houve ameaça de despejo pelo IDBF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal). No ano seguinte, uma ação de despejo foi motivada pelo Ibama.

Somente em 1994 houve a solução de repassar o parque Lage à União e manter o palacete sob responsabilidade do governo estadual.

Segundo a gestão Castro, o parque Lage recebe cerca de 1,3 milhão de visitantes por ano e está entre os dez pontos turísticos mais visitados do Rio. Ele tem entrada gratuita e segue aberto, à exceção do palacete.