SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Com uma carreira sólida em ciência da computação, Virgílio Almeida não imaginou, anos atrás, que iria enveredar em uma discussão política sobre como algoritmos influenciam nossa vida atual. No entanto, é isso que ele e os cientistas políticos Ricardo F. Mendonça e Fernando Filgueiras propõem no livro “Política dos Algoritmos – Instituições e as Transformações da Vida Social”, editado no Brasil pela UBU.

Almeida é professor emérito de ciência da computação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Em 2011, ele foi convidado pelo MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) para ser secretário de Políticas de Informática. Na posição, atuou no desenvolvimento de incentivos para a produção brasileira no setor tecnológico e no estabelecimento de boas práticas na gestão da internet.

Esses anos foram cruciais para Almeida começar a se interessar pelo tema de governança digital. O envolvimento nessa área continuou quando deixou o trabalho no governo brasileiro para ser professor visitante em Harvard, de 2015 a 2017.

De volta ao Brasil, ele já direcionava seu interesse acadêmico para a questão dos algoritmos e os impactos que a tecnologia gera na vida contemporânea. Nesse tema de pesquisa, o envolvimento com a ciência política ocorreu inicialmente com as colaborações de pesquisa entre Almeida e Fernando Filgueiras, professor associado na Faculdade de Ciências Sociais da UFG (Universidade Federal de Goiás).

Um dos trunfos do novo livro é analisar os algoritmos a partir da noção de instituição, conceito já muito difundido na ciência política. “As instituições representam um nível único de organização nas sociedades humanas. Elas codificam regras, normas e estruturas que moldam o comportamento individual e coletivo”, diz Almeida.

A associação da ideia de instituições e algoritmos é evidente já que essas tecnologias também moldam grande parte da vida contemporânea. Algoritmos têm a capacidade de definir desde atividades mais rotineiras, como qual música é recomendada para alguém em aplicativos de músicas, até influenciar resultados de eleições.

A partir dessa percepção de que algoritmos funcionam como instituições, o livro perpassa diferentes debates. Um deles é a ideia que essas tecnologias são sistemas sociotécnicos, ou seja, algoritmos não são só dispositivos tecnológicos. Eles funcionam a partir da interação com humanos. É nesses contatos que influenciam diferentes elementos da vida em sociedade e modificam seus próprios funcionamentos, já que algoritmos são reconhecidos pela sua alta volatilidade de operação e falta de transparência de como atuam.

Outro trunfo importante do livro é partir da ideia de instituição para debater o controle e regras sobre algoritmos. Afinal, se essas tecnologias estão onipresentes e influenciam tanto a vida social contemporânea, como impor limites e regulações a elas?

Almeida cita dois pontos importantes nessa discussão. O primeiro é sobre autorização. “A sociedade autoriza essa tecnologia? Essa autorização pode ser por meio, por exemplo, de regras formais ou até mesmo por meio da legislação”, afirma. Outro aspecto crucial na regulação de algoritmos é responsabilidade. “Como é definida a responsabilização sobre algoritmos?”, questiona Almeida.

Tais debates estão em aberto, e não é a proposta do livro trazer respostas prontas a questões complexas como essas. Mesmo assim, a obra propõe caminhos a partir da discussão sobre o tema, suscitando a necessidade de se olhar com mais atenção a como essas tecnologias um tanto indecifráveis estão ditando inúmeras sociedades humanas atualmente.

Almeida, Figueiras e Mendonça, este último professor associado de ciência política na UFMG, escreveram o livro em 2022 e 2023. Inicialmente, ele foi lançado no Reino Unido. Essa decisão envolveu o desejo de ter um diálogo mais amplo sobre os apontamentos dos autores, além de pensar em críticas e revisões para novas versões, como a lançada no Brasil.

A mais recente edição contém uma peculiaridade: o livro dedica um posfácio para discutir o tema a partir da realidade do maior país da América Latina. Mas, no geral, é importante uma discussão global sobre o tema. “Os algoritmos atuam em escalas baseadas em empresas multinacionais. Então, é importante ajustar essas questões para além de países individuais”, afirma Almeida.

POLÍTICA DOS ALGORITMOS – INSTITUIÇÕES E AS TRANSFORMAÇÕES DA VIDA SOCIAL

– Preço R$ 89,90 (320 págs.)

– Autoria Ricardo F. Mendonça, Fernando Filgueiras e Virgilio Almeida (Tradução André Albert)

– Editora UBU