SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A cada ano, milhões de estudantes de todos os cantos do país aguardam os dois dias em que colocarão à prova seus conhecimentos na tentativa de alcançar uma boa nota para acessar o ensino superior. É assim no Brasil, com o Enem. É assim, também, na China.

A forma como países diferentes elaboram e aplicam seus exames de ingresso às universidades ajuda a entender as possibilidades para o exame brasileiro, que desde 2009 se consolidou como um vestibular nacional.

Nas últimas semanas, a notícia de que um universitário conseguiu antecipar questões da prova, aplicada a 3,4 milhões de candidatos neste mês, voltou a colocar em discussão alternativas para manter a segurança e a credibilidade da avaliação.

Entre os principais exames usados para entrada nas universidades no mundo está o SAT (Scholastic Assessment Test, ou teste de avaliação acadêmica), aplicado nos Estados Unidos.

Com 98 questões e cerca de duas horas de duração, o “Enem americano” hoje é totalmente digital e aplicado várias vezes ao longo do ano. A prova aborda apenas os conteúdos de matemática e inglês.

A professora Maria Helena Castro, que presidiu o Inep na época em que o Enem foi criado, explica que a migração do SAT para o formato digital foi um processo longo e cuidadosamente planejado. Segundo ela, esse caminho pode servir de referência para o futuro do exame brasileiro.

“[O processo de digitalização] é gradual, é demorado, exige um investimento elevado, mas é importante ter um plano de aperfeiçoamento de médio e longo prazo”, afirma.

O papel do SAT no processo de entrada na universidade é diferente em comparação com o do Enem.

Segundo Keyla Cavalcante, coordenadora do Prep Program da Fundação Estudar, que dá suporte a jovens brasileiros em cursos no exterior, o SAT é um entre outros componentes no processo de entrada na universidade —como participação em atividades extracurriculares, histórico escolar, redações e cartas de recomendação.

“O aluno pode tirar uma nota excelente no SAT e ser rejeitado. E pode também tirar uma nota mediana na prova, mas os outros componentes da sua aplicação compensarem”, explica.

Essa lógica contrasta com a do Enem, que exerce impacto mais direto na entrada do ensino superior. O professor Luiz Cláudio Costa, ex-reitor da UFV (Universidade Federal de Viçosa) e ex-presidente do Inep entre 2012 e 2014, explica que o exame brasileiro foi construído para dialogar com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e ter práticas pedagógicas alinhadas às competências específicas, algo que é diferente da proposta do SAT.

Já a China segue o caminho mais próximo do brasileiro. O exame chinês Gaokao, aplicado anualmente a mais de 10 milhões de candidatos, é tratado como um evento de Estado.

Ele tem de 100 a 150 questões e é realizado ao longo de dois dias. A prova avalia disciplinas como língua e literatura chinesa, língua estrangeira e matemática. Além disso, os candidatos escolhem uma área de conhecimento, que pode ser ciências da natureza e humanas, de acordo com o curso pretendido.

Apesar da semelhança no formato de aplicação, o exame chinês adota modelos de protocolos de segurança mais rigorosos do que o brasileiro, reflexo do sistema político autoritário do país.

Na China, as medidas incluem o isolamento das equipes que elaboram os itens, sistemas de inteligência artificial que detectam comportamentos suspeitos dos participantes durante a prova e penas graves em casos de fraude.

Em muitas províncias da China, o exame representa a única chance do estudante de ascensão social. “As medidas de sigilo são fortíssimas porque é algo que define a vida de uma geração inteira de estudantes”, explica José Francisco Soares, professor emérito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e ex-presidente do Inep de 2014 a 2016.

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A CRIAÇÃO DAS QUESTÕES E AS ALTERNATIVAS DE SEGURANÇA

O Enem é elaborado com base na TRI (Teoria de Resposta ao Item), metodologia que avalia a dificuldade das perguntas e permite comparar diferentes provas, além de identificar acertos por acaso, no “chute”. Dessa forma, a nota não depende apenas do número de respostas corretas, mas se o candidato acertar as mais difíceis e errar as mais fáceis.

Após a criação das questões, os itens passaram em um pré-teste, onde são aplicadas a uma amostra com perfil semelhante ao do público do Enem. Nessa etapa são avaliadas a dificuldade, a discriminação e a chance de acerto ao acaso de cada questão. E foi nessa fase que o estudante de medicina Edcley Teixeira conseguiu ter acesso a questões que diz ter memorizado antes de divulgá-las em suas mentorias e redes sociais.

Para o professor Costa, é essencial calibrar previamente o nível de dificuldade das questões dentro do modelo da TRI, mesmo diante dos desafios operacionais e de segurança. “A pré-testagem tem que ser feita para que a avaliação funcione da forma mais justa possível.”

O ex-reitor da UFV aponta que uma alternativa para enfrentar os desafios da elaboração das questões seria o uso de inteligência artificial, sempre sob supervisão humana. Segundo Costa, a tecnologia poderia trabalhar a partir de perguntas já aplicadas e pré-testadas, auxiliando na criação de novos itens.

“A inteligência artificial tem essa capacidade criativa, não vão ser questões iguais a nenhuma delas, mas vão ser itens que medem naquelas competências que se quer”, explica.

Já para Soares, a realização do pré-teste representa um risco elevado. Segundo ele, aplicar previamente as questões amplia as chances de vazamento e, consequentemente, ameaça a equidade de todo o processo seletivo.

“Minha proposta não é acabar com o pré-teste, mas retirar dele a etapa de testagem de campo com estudantes, que é justamente onde nasce a vulnerabilidade”, explica. Ele sugere que a testagem deve permanecer como etapa de qualificação técnica, “baseada em um processo rigoroso de revisão crítica conduzido por uma banca examinadora especializada”.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o atual presidente do Inep, Manuel Palacios, declarou que os pré-testes seguem protocolos de segurança rigorosos, como uso de detectores de metal, proibição de celulares e restrição de anotações, e descarta mudanças.

CONHEÇA OS EXAMES

Característica- SAT (EUA)- Enem (Brasil)- Gaokao (China)

Duração Média – Curta (2h a 2h30) – Longa: 2 dias (10h30, no total somado) – Longa: 2 dias

Conteúdo – Restrito Apenas: matemática e inglês – Amplo Linguagens, ciências da natureza, ciências humanas e matemática – Amplo Obrigatório: língua e literatura chinesa, língua estrangeira e matemática De acordo com a escolha do curso: ciências da natureza e humanas

Foco – Velocidade, raciocínio lógico, aptidão acadêmica – Conteúdo e repertório cultural – Conteúdo e repertório cultural

Frequência – Múltiplas vezes ao ano – Anual – Anual

Peso na Admissão – Um componente no processo holístico (que envolve além do resultado do teste) – Fator principal – a nota é usada para entrada em instituições públicas via Sisu (Sistema de Seleção Unificada) – Fator principal – o resultado é utilizado para entrada no ensino superior

Digitalização – Sim (100% digital) – Não (impresso) – Não (impresso)

Fontes: College Board, MEC e publicação “Enem e Gaokao: repercussões no ensino médio e na educação” (Inep, 2021)