SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No segundo capítulo do seu livro, o economista britânico Neil Shearing, 41, cita frase do ganês Kofi Annan (1938-2018), secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas) de 1997 a 2006:
“Argumentar contra a globalização é como argumentar contra a lei da gravidade”.
Na página seguinte, o economista-chefe da Capital Economics, empresa de consultoria especializada em análise de dados, rebate:
“Ao contrário do que muitos acreditavam, a globalização nunca foi uma força que não poderia ser detida”.
A constatação de Shearing é que o cenário econômico mudou. Ele faz questão de ressaltar não haver uma “desglobalização”, mas que o mundo vive processo de “fratura”, em que dois países vão liderar e os demais terão de tomar partido. Estarão ao lado dos Estados Unidos ou da China.
Em sua obra “The Fractured Age: How the Return of Geopolitics Will Splinter the Global Economy” (“A era fraturada: como a volta da geopolítica vai dividir a economia global”, ainda sem edição em português), o autor argumenta que as principais economias do mundo estão cada vez mais distantes, e a culpa não é do suposto isolacionismo de Donald Trump.
Em entrevista à Folha de S.Paulo , Shearing afirma acreditar que, a não ser que os EUA cometam uma série de erros, seu bloco econômico será maior e mais diversificado.
PERGUNTA – O foco principal do seu livro é que o mundo passa por processo de “fratura”, em que Estados Unidos e China estão se afastando e outros países eventualmente terão de escolher um lado. Isso não remete à Guerra Fria, mas sem ameaça nuclear?
NEIL SHEARIN – Sim, é uma guerra fria econômica. Se você olhar as tarifas implementadas pelos EUA após a eleição de Trump, está claro que elas são mais altas para a China e seus aliados. Isso poderia ser descrito também como uma guerra fiscal.
P. – Trump não é uma ameaça a essa divisão em dois grandes blocos, com sua política de taxar todo o mundo? Isso não poderia fazer com que algumas nações tenham de buscar novos mercados, como a China?
NS – É uma lógica razoável, mas precisamos ter noção da escala. Quando países assinaram acordos comerciais com Trump, foram incluídas cláusulas que também pressionam a China. O Reino Unido, por exemplo, concordou com várias restrições que limitam insumos chineses. O Vietnã aceitou tarifa de exportação para os EUA de 20%, mas que será de 40% se redirecionar produtos da China.
P. – Não há países que podem trocar de lado?
NS – Quem tem potencial para mudar são aqueles de grande potencial energético.
P. – O Brasil, por exemplo?
NS – O Brasil sempre teve fortes laços políticos, sociais e culturais com os EUA e com a Europa, mas agora tem uma aproximação crescente com a China.
Mais significativa é a Índia. Ela tem uma disputa fronteiriça de longa data com a China que periodicamente ameaça se transformar em guerra. O Paquistão usou caças chineses para atingir bases indianas. A Índia está cada vez mais desconfortável com a proximidade entre China e Paquistão. E, mesmo assim, houve tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos à Índia por causa da compra de petróleo russo.
P. – Mas, pensando de maneira pragmática, esse cenário não representa uma oportunidade para o Brasil?
NS – Depende. No livro, eu descrevo um mundo em que a produção de qualquer coisa que comprometa a segurança da cadeia de suprimentos, a segurança nacional e a liderança tecnológica é movida para países mais alinhados claramente com os Estados Unidos. Nesse sentido, há uma oportunidade. O Brasil é mais difícil, para ser honesto, porque não tem a base da manufatura. Qual é a alavancagem do Brasil?
P. – O Brasil pode oferecer outras vantagens, como na questão de terras raras, por exemplo.
NS – Sim, pode ser. O que quero dizer é ser possível que o Brasil se torne um país enraizado ainda mais no modelo de crescimento baseado em recursos naturais. Não acho que seja isso que todos queremos. Queremos mais empresas genuinamente globais no espaço de manufatura.
P. – No seu livro, o senhor argumenta que o surgimento da China como potência condenará a recente era de hiperglobalização ao passado. Como seria esse novo cenário mundial?
NS – Não é um mundo em que haverá menos comércio internacional. Também não necessariamente haverá fluxo de capitais mais baixos. Mas o comércio se tornará restritivo em algumas áreas. E será em todas que afetam, como citei, a cadeia de suprimentos, a segurança nacional e a liderança tecnológica. Acredito que essas são as áreas onde haverá enorme pressão sobre empresas americanas e ocidentais para transferir a produção para fora da China.
Brinquedos, móveis, roupas, eletrodomésticos, TVs, todas essas coisas, continuaremos a comprar da China em grandes quantidades. Então, não é necessariamente o fim da globalização, mas uma mudança no padrão dos fluxos comerciais, particularmente nessas áreas geoestratégicas importantes. A questão é: podemos manter essa fragmentação apenas a essas áreas estratégicas importantes? Se não pudermos, e ela se tornar muito mais ampla, então os custos econômicos se tornam muito maiores.
P. – O fim dessa era dourada da globalização não traz pressão inflacionária?
NS – O primeiro ponto é que a globalização foi responsável por apenas um pequeno declínio na taxa de inflação nos anos 1980, 1990 e 2000. Talvez tenha reduzido cerca de 0,5% ao ano da inflação global. Nos Estados Unidos, pode ter chegado a 1%. Não mais do que isso. A maior parte [da queda dos índices] foi devido à reforma do mercado de trabalho, ao mercado de produtos, às políticas fiscais e monetárias mais responsáveis, bancos centrais independentes, entre outras coisas. Então, um retrocesso da globalização não necessariamente traria um surto de inflação.
P. – O senhor escreveu sobre processos anteriores em que a globalização perdeu força, um deles seria o período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Quais as lições que permanecem relevantes para os governantes atuais? Eles correm o risco de não entender a história?
NS – É tentador olhar para esse período entre guerras porque foi a última vez que tivemos um grande aumento de tarifas. Mas é importante reconhecer que naquela época não houve iniciativa apenas dos EUA, mas de outros países também. Houve uma guerra tarifária global. A lição é que um recuo no livre-comércio pode criar efeitos políticos e econômicos devastadores. Vale lembrar essa lição, mas na verdade não há muitos paralelos que se apliquem exatamente ao que vivemos agora.
P. – Há choques geopolíticos, financeiros e tecnológicos que poderiam levar essa fratura a qual o senhor se refere a uma crise sistêmica?
NS – Sim, há vários. Uma fratura muito ampla, que vá além de áreas estratégicas importantes, pode levar a aumento de custos econômicos.
Veja bem: uma fratura “gerenciada” custa cerca de 1% do PIB global. Uma fragmentação mais ampla e de forma rápida, pode ser de 5% a 6% desse PIB. Há o cenário de os Estados Unidos dando um tiro no próprio pé com esse “América Primeiro”. Outra possibilidade é esses dois países entrarem em guerra.
P. – O senhor cita fratura econômica como a formação de dois grandes blocos liderados por dois países. São alianças, certo? Às vezes por afinidade cultural, por interesse econômico ou mesmo por simpatia do líder político de plantão. Mas sempre foi assim na história do mundo. Por que agora é diferente?
NS – Há situações em que os países são claramente aliados dos EUA. Não há como pensar que o Reino Unido vá ficar no lado da China, por exemplo. O mesmo para grande parte da Europa e o Canadá.
A questão é que, desde o fim da Guerra Fria, basicamente os EUA eram, de longe, a força hegemônica da economia mundial. Os valores ocidentais prevaleciam nas salas de reuniões entre governos. Tratava-se da ideia de que, se você abrisse sua economia, o comércio e o fluxo de capitais, isso traria paz e prosperidade. Isso mudou. Não se trata apenas de um desafio aos EUA vindo da China, mas também um conjunto diferente de valores. Não são apenas duas economias muito maiores que as outras, mas também dois países com crenças diferentes.
Raio-X | Neil Shearing, 41
Economista-chefe da Capital Economics, já chefiou o escritório da empresa em Nova York, onde era responsável pelas previsões macroeconômicas para a América Latina. Antes disso, foi conselheiro econômico do Tesouro britânico, especialmente na área fiscal. É formado em economia pela Universidade de York, na Inglaterra, fez especialização na Universidade de Londres e foi bolsista na Royal Society of Arts.



