SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Nos anos 1970, as sessões do Cine São Luiz dependiam de Seu Alexandre, personagem apresentado no documentário “Retratos Fantasmas”. Depois, o projecionista de Recife voltou na pele de Carlos Francisco, que em “O Agente Secreto”, também de Kleber Mendonça Filho, vira uma figura paterna ao proteger o genro, personagem de Wagner Moura, dos militares.
O guardião do cinema de rua morreu em 2002, mas o ator de “Marte Um” e “Estranho Caminho”, em que também vive pais, preserva o dever de transmitir histórias. “Não conheci Seu Alexandre. Sabia que ele era muito querido e simpático. Tentei construí-lo com toda a minha dignidade. Não sei explicar esse processo, mas ter isso em mente costuma dar resultado”, diz Francisco, respondendo com a humildade de quem se rende a grandes mistérios.
Um deles, aliás, se resolveu antes das gravações. Ao lado de Antônio, atual projecionista do Cine São Luiz, o artista fez oficinas de projeção cinematográfica. Foi como aprendeu a usar o projetor, a rebobinar filmes e a emendar rolos de película.
Fora da cabine de projeção, o mineiro de 64 anos se recusa a deixar as telas. Ele emenda projeto atrás de outro e escolhe sets íntimos da produtora Filmes de Plástico ou mesmo adaptações da Netflix, caso da recém-lançada “O Filho de Mil Homens”. Antes dessas maratonas, fez dos palcos seu habitat natural.
Nascido em Belo Horizonte, o ator começou no teatro amador, que não pagava as contas. A solução foi se mudar para São Paulo, onde vendeu caminhões a partir de 1991. Seis anos depois, ele fundou, com outros seis artistas, o grupo Folias, que se especializou em peças irônicas e cheias de críticas sociais.
“O Folias trouxe uma bagagem muito grande para meus personagens. Quando se lê um roteiro, você acessa o seu arquivo pessoal. Levo muitas pessoas em meu inconsciente”, ele diz.
Foi com o retorno à Belo Horizonte, no entanto, que veio o compromisso com o cinema. Apesar das pontas que antecederam esse período, a última década preencheu sua agenda com obras de variados tipos.
Sua primeira colaboração com a Filmes de Plástico, que se consagrou ao filmar entre amigos e com pouco dinheiro, aconteceu em 2015, mesmo sem protagonismo. “Rapsódia para um Homem Negro” foi sucedido por “Nada”, curta do mesmo diretor, Gabriel Martins. Dividido entre a compreensão e a firmeza, Francisco vive o pai de uma jovem que se recusa a prestar vestibular.
Foi essa interpretação que lhe rendeu, de última hora, um papel em “Bacurau”. A cena em que Francisco mata um estrangeiro que ameaça a cidade-título reforçou sua carreira. Ele diz que o sucesso de “O Agente Secreto”, depois do Oscar de “Ainda Estou Aqui”, beneficia todos os circuitos do cinema brasileiro.
“Eu ia muito ao cinema quando era garoto. A gente não tinha celular, computador, e aquilo fazia parte do nosso imaginário. Com o tempo, essa importância se perdeu e surgiram campanhas para dizer que os filmes brasileiros eram ruins. Penso que os sucessos de hoje revertem essa ideia do imaginário coletivo. As pessoas voltam a torcer pelos filmes. É como se todos tivessem participado da produção.”
Quando foi convidado para “Bacurau”, Francisco gravava “Curtas Jornadas Noite Adentro”, longa de Thiago B. Mendonça que reúne contos de sambistas tomados pelo cotidiano, mas que se libertam com a música ao cair da noite. Thiago, aliás, é um dos cineastas com quem o artista se habituou a trabalhar.
As parcerias estão na gênese de sua filmografia. Em 2022, a proximidade com Gabriel Martins o levou a Wellington, pai de classe baixa que tenta convencer o filho a ser jogador de futebol. “Marte Um” rendeu ao ator o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e foi escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2023.
Um ano mais tarde, quem se apaixonou pelo mineiro foi o diretor Guto Parente, consagrado pelo coletivo cearense Alumbramento, que se destacou fora do eixo Rio-São Paulo. No fantasmagórico “Estranho Caminho”, o ator é o pai de David, cineasta que volta para casa e tenta reaver contato com o progenitor. Francisco foi premiado no Festival de Tribeca e ganhou uma ponta noutro filme de Parente, “Morte e Vida Madalena”.
Pai também fora das telas, ele não entende por que tantos o veem como figura paterna, mas relata a relação com o avô, que o criou, ao falar de dilemas geracionais. “Ele era duro comigo. Certo dia, uma briga levou a uma conversa muito franca. Eu tinha percebido que, como jovem, precisava fazer algo. Aquela iniciativa nunca viria dele. Então meu avô ouviu um monte, falou um monte e tudo ficou incrível. Só depois desse dia eu vi que ele acompanhava todas as minhas conquistas, embora não me deixasse perceber.”
Além da paternidade, a fantasia também é comum a Francisco. Seja em curtas como “A Máquina Infernal”, terror que denuncia a sociedade trabalhista, seja na adaptação do livro de Valter Hugo Mãe, a mistura entre o real e o impossível perpassa várias de suas credenciais. Ele diz que o fantástico revê a sensibilidade num dia a dia tomado por tragédias. É também uma forma de libertar figuras negras da luta contra estigmas de raça.
“Paradoxalmente, sinto que me torno mais negro quando meu personagem não está ligado a essas questões. Ao interpretar papéis que fogem a um desenho de serventia ou de herança escravocrata, você não deixa de debater a figura negra e dar espaço a minorias. Pessoas são pessoas, não recortes de raça.”
Entre debates sociais e produções de diversos nichos, a agenda de Carlos Francisco é agitada. Ainda em 2025, ele aparece em “Enterre Seus Mortos”, em cartaz agora, está na primeira minissérie da Filmes de Plástico, “O Natal dos Silva”, e integra a cinebiografia do cantor Asa Branca, que estreia em dezembro. Para os próximos anos, já tem contrato para vários projetos.
Na correria, ainda sobra tempo para suas lições paternas. “Quando surge um raio numa tempestade, você não olha para o céu. Você olha para a terra, para o caminho. Olhar para os clarões te deixará ainda mais perdido. Certas coisas não devem roubar a nossa atenção, mas nos iluminar.”



