SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – À frente da maioria dos demais países em termos de produção e utilização de energia limpa, o Brasil precisa de aperfeiçoamentos em legislação e infraestrutura para abarcar as particularidades do setor.
Sem isso, toda essa vantagem não será absorvida e aproveitada, disseram especialistas reunidos no seminário Mudanças Climáticas e Transição Energética, promovido pela Folha, com apoio do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e da CNI (Confederação Nacional da Indústria), na quinta-feira (26).
A mesa “Infraestrutura, legislação e mercado” teve as participações de Roberto Wagner, gerente de Energia da CNI (Confederação Nacional da Indústria); Rodolfo Aiex, gerente executivo e de Inovação e Novos Negócios da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), e Gueitiro Genso, vice-presidente de Inovação e Novos Negócios da Tupy. A mediação foi feita pelo repórter especial Fernando Canzian.
Roberto Wagner destacou que 64% da energia utilizada pela indústria brasileira é de fontes renováveis. Ao mesmo tempo, o país tem hoje uma das maiores tarifas para o uso de energia do mundo, acima até das praticadas por países que dependem de importações.
Além disso, com a produção e a entrada no sistema de mais e mais megawatts de energia limpa, o sistema corre risco de apagões por sobrecarga, pela dificuldade de controlar o que entra no sistema de distribuição.
“A gente precisa repensar um pouquinho o nosso modelo para garantir cada vez mais uma matriz renovável”, afirmou.
Rodolfo Aiex, da CCEE, apontou para a importância da certificação da energia renovável em uma realidade futura com demanda cada vez maior de energia e uma necessidade urgente de redução do uso de combustíveis fósseis.
Como órgão que aglutina e computa todos os dados de geração de energia no Brasil, o CCEE vem criando maneiras de chancelar os produtores de energia e evitar fraudes no momento de comercialização quanto à procedência.
“Isso se torna uma infraestrutura digital, comercial, de certificação, que vai garantir que todo esse mercado ele cresça e que a gente afaste do Brasil o risco de ‘greenwashing’ no setor elétrico e atraia investimentos para cá”, disse.
Gueitiro Genso, da Tupy, defendeu a importância da integração de diferentes tipos de energia. Para o executivo, o que faz sentido, em termos de transição energética, é entender que não será um tipo determinado de geração de energia que vai “resolver” o tema.
“A gente acredita muito na tese de que o mundo vai ser multicombustível, não há uma solução única bala de prata. Vai conviver o elétrico com etanol, com biometano, com as particularidades regionais”, acredita.
Na visão de Genso, a descarbonização traz uma oportunidade de mercado para inovações, que precisam vir acompanhadas de ganhos econômicos e respeito às particularidades regionais e geográficas.
Sobre a questão do modelo de distribuição e desoneração, Rodolfo Aiex citou também que a necessidade do controle de transmissão e geração é fundamental.
Da maneira como a questão é construída hoje, uma placa solar em uma residência ótima para o morador pode acarretar problemas, como o excesso de energia. Isso acontece porque o modelo de distribuição centralizado, pensado para a produção energética proveniente das grandes usinas, convive com a geração distribuída, quando há a produção de energia no próprio local de consumo.
Assim como Gueitiro Genso, Aiex também ressaltou a importância da integração dos diferentes tipos de energia.
“O que a gente precisa começar a fazer agora é olhar para todas as energias de forma integrada. O que eu ainda sinto é que cada um olha para um pedaço com profundidade, mas a gente enquanto país precisa ter uma política de estado que olhe para essa energia de forma integrada”, disse.
Roberto Wagner, da CNI, defendeu a revisão das políticas tarifárias e uma melhor regulação setorial para que o país aproveite as vantagens competitivas na transição energética.
“O Brasil é um país que tem um dos maiores potenciais de geração de energia limpa no mundo. Precisamos aproveitar esse potencial com política tarifária adequada, com regulação setorial bem feita e com planejamento energético mais centralizado, que olhe todas as fontes e que consiga trazer essa sinergia que a gente tanto precisa.”



