BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Os Correios querem uma compensação do governo pela prestação do serviço postal universal, uma garantia constitucional que hoje responde por uma parcela significativa dos custos da companhia. A empresa também estuda oportunidades de negócio e parcerias, mantendo o controle da União.

A estatal ainda não tem uma proposta fechada, mas avalia a possibilidade de reivindicar a criação de uma taxa para financiar a universalização, cobrada sobre uma base de cálculo a ser definida. Outras opções não estão descartadas.

Segundo pessoas a par das discussões, o tema deve ser mencionado no plano de reestruturação dos Correios, mas de forma genérica. O documento é crucial para viabilizar o empréstimo de R$ 20 bilhões para socorrer a companhia, revelado pela Folha.

O plano terá um capítulo dedicado a outras medidas de ajuste, em que deve constar a menção a estudos de medidas relacionadas à universalização.

Eventuais receitas advindas dessa compensação, porém, não constarão nas projeções de fluxo de caixa da empresa para os próximos anos. Isso significa que o plano precisará demonstrar que os Correios conseguem alcançar a sustentabilidade financeira sem depender de uma decisão sobre esse tópico.

Técnicos reconhecem que alguma compensação pela universalização deve ser necessária e que a criação da taxa está na mesa de discussão. No entanto, a ideia enfrenta resistências de uma ala do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teme um desgaste em pleno ano eleitoral, numa reedição do ocorrido quando o Executivo decidiu tributar as remessas internacionais de até US$ 50, o que ficou conhecido como “taxa das blusinhas”.

Procurados, os Correios se limitaram a dizer que “mais detalhamentos do plano serão divulgados em breve”. A estatal está em fase de negociação com bancos para fechar o empréstimo de R$ 20 bilhões, que pode ser feito em operações pulverizadas, como mostrou a Folha de S.Paulo.

O Ministério da Fazenda não respondeu sobre a possibilidade de criação de uma taxa de universalização e direcionou os questionamentos ao Ministério das Comunicações, ao qual os Correios são formalmente ligados. A pasta não respondeu. O Ministério da Gestão, a Casa Civil e a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) também não se manifestaram.

A universalização é o que garante a presença dos Correios em todo o território nacional, inclusive em locais remotos, onde a prestação do serviço não é rentável —o que afasta a atuação de empresas privadas.

Hoje, a empresa mantém cerca de 10 mil unidades de atendimento, das quais 7.000 são agências próprias ou franqueadas. Em seu balanço contábil, a empresa informou que 71% das localidades atendidas, incluindo as terceirizadas, “operam exclusivamente para cumprir os critérios de universalização, isto é, não apresentam lucro em suas operações”.

“Esse índice eleva-se para 74% ao se incluir o custeio da estrutura administrativa operacional, e atinge 89% quando se considera o total dos gastos, contemplando toda a estrutura de suporte e demais despesas da empresa”, diz o documento.

Ainda segundo o balanço, a universalização respondeu por um prejuízo de R$ 4,82 bilhões no primeiro semestre de 2025. Como o resultado negativo total da empresa foi de R$ 4,37 bilhões no período, significa que outros segmentos dão lucro.

Ao anunciar a aprovação do plano de reestruturação, na semana passada, os Correios já deram pistas de que pretendem abordar o assunto. Em comunicado divulgado na sexta-feira (21), a companhia citou que “em diversos países, mecanismos formais de compensação asseguram a universalização, reconhecida como serviço público indispensável”.

“No Brasil, apesar da queda das receitas tradicionais, cenário que ocorre em todo o mundo, os Correios permanecem como o único operador capaz de atender todos os municípios, inclusive regiões remotas onde a presença do Estado é vital”, acrescentou.

A reestruturação da estatal também deve passar pela busca de novas oportunidades de negócios, para diversificar e ampliar suas receitas no futuro. O comunicado cita a possibilidade de “operações de fusões, aquisições e outras reorganizações societárias para fortalecer a competitividade da estatal no médio e longo prazo”.

Segundo interlocutores que participam dessas discussões, há um esforço da nova gestão dos Correios de estudar novos modelos, como uma joint-venture com parceiros privados para tocar negócios específicos, ou até reformulações mais amplas no futuro, como a abertura de capital, transformando a empresa em uma sociedade de economia mista, mantido o controle da União —como já ocorre com Petrobras e Banco do Brasil, por exemplo.

De acordo com as pessoas envolvidas, a análise sobre essas possibilidades será técnica, não ideológica, e deverá observar duas premissas: a manutenção do papel da empresa na prestação do serviço postal universal e a garantia da soberania logística. Dentro da estatal, técnicos ressaltam que os Correios têm papel relevante, por exemplo, na logística de urnas eletrônicas e de provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em todo o território nacional, o que precisa ser preservado.

As possibilidades de negócio serão analisadas e construídas com o auxílio de uma consultoria externa e um aconselhamento especializado.

Em situação financeira bastante delicada, os Correios registraram um prejuízo de R$ 2,64 bilhões no segundo trimestre de 2025. O rombo é quase cinco vezes o resultado negativo verificado em igual período de 2024, quando ficou em R$ 553,2 milhões.

No primeiro semestre, o rombo alcançou R$ 4,37 bilhões, o triplo do prejuízo de R$ 1,35 bilhão observado em igual período de 2024. O valor foi antecipado pela coluna Painel, da Folha.

Para além da “taxa das blusinhas”, que, de fato, desfalcou suas receitas, a empresa já vinha penando com a deterioração de suas operações e com o descontrole sobre ações judiciais que impactam o caixa da companhia. Enquanto isso, continuou aumentando despesas, sobretudo com pessoal.