SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ao redor, a frieza e a assepsia de azulejos brancos. No centro, a raiva e o descontrole de feridas e arranhões. Os cortes na parede não expõem tijolo ou cimento, mas sim uma carne viva e sanguinolenta.

A pintura “Parede com Incisões a La Fontana (Istambul)”, de Adriana Varejão, evidencia que estruturas ordenadoras podem esconder em seu interior um emaranhado de fúria, desejo e violência. É como se a tela libertasse de repente todas essas forças, revelando a pulsão de vida que se encerra na pureza de superfícies imaculadas.

De certa forma, esse trabalho sintetiza a proposta da mostra “Construção no Vento”, parceria entre as galerias Flexa e Claraboia. Em cartaz na capital paulista, a exposição leva ao público 59 obras de nomes como Tunga, Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Alfredo Volpi e Iole de Freitas, que fez uma escultura inédita para a mostra.

Cada um à sua maneira, esses artistas refletiram sobre o vazio e o silêncio por meio da contenção estética e do comedimento gestual. O minimalismo, aliás, se faz presente na prevalência da cor branca em boa parte dos trabalhos.

Apesar disso, a exposição passa longe da frieza e da neutralidade. “Eu não queria de forma alguma algo asséptico”, diz Luisa Duarte, curadora do projeto. “Por isso, incluí artistas que abordassem a dimensão do corpo e do desejo, como a Adriana Varejão.”

A libido está presente também em obras de Leonilson, conhecido pela produção de forte caráter confessional. Seus trabalhos são tão intimistas que o observador tem o impulso de chegar mais perto para enxergá-los melhor. “É uma relação de um para um, como se ele estivesse sussurrando no nosso ouvido um segredo.”

Essa poética sussurrante pode ser vista, por exemplo, em “Oceano, Aceita-me?” Nesse desenho, Leonilson pontilhou em um pedaço de papel pequenos traços que formam dois rios que deságuam no mar. Em outro trabalho, o artista bordou na parte de cima de um tecido branco a frase “Léo não pode mudar o mundo, porque os deuses não admitem qualquer competição com eles”.

Já na parte debaixo, lê-se frases soltas, como “o deserto”, “o oceano”, “os rapazes” e “as poesias”. É como se o artista fizesse do tecido um diário, registrando seus amores e suas frustrações. Para a curadora, ele subverteu o modo como a cor branca normalmente é usada na arte.

“Esse monocromo em geral está vinculado à ideia de assepsia, de algo que caminha na contramão do mundo da vida. No caso do Leonilson, não. Ele conseguia inserir a dimensão do desejo e do erotismo nessa cor.”

O branco também permeia a produção de Mira Schendel, um dos destaques da exposição. De acordo com a curadora, o conceito da mostra foi inspirado em um ensaio do pintor e escritor Nuno Ramos sobre a artista. No texto, ele classifica as obras dela como construções no vento.

“A Mira tem essa capacidade de ativar os vazios, de produzir uma potência gigantesca com um gesto mínimo. Então, usamos isso como inspiração”, diz Duarte.

Schendel está presente na exposição por meio de quatro trabalhos –todos eles frugais, lacônicos e quase evanescentes. Em “Símbolos”, letras e números flutuam sobre um papel, formando uma constelação de elementos gráficos. Aqui, o que está em evidência não é o preto da tinta, mas sim o branco do papel.

Essa dinâmica se repete em “Objeto Gráfico”, no qual uma folha traz traços tão finos que parecem prestes a desaparecer.

“São trabalhos que servem de contraponto ao que acontece no mundo contemporâneo”, afirma Duarte. “Vivemos em um regime de hipervisibilidade, hiperestimulação sensorial e hiperocupação mental. “A gente encontra na obra da Mira quase o oposto dessas características. São produções em que menos é mais.”

Para a curadora, a mostra é justamente uma oportunidade para refletir sobre a importância da quietude em um momento dominado pela cacofonia das redes sociais. “Fala-se muito, mas fala-se com pouca relevância. Todo mundo está falando, mas ninguém está se entendendo. Atualmente, o silêncio adquiriu uma dimensão política.”

A economia de gestos e formas está presente também em uma obra de Fernanda Gomes. No trabalho, um pequeno bloco de madeira branco flutua preso por um barbante.

“Ela é uma artista que tem uma relação muito fina com a Mira Schendel e com a ideia de construção no vento”, diz a curadora, acrescentando que existe uma dimensão ética nos projetos de Gomes. “Ela trabalha com aquilo que sobra. A ideia é não botar ainda mais coisa no mundo.”

Essa, aliás, é uma das heranças deixadas por Lygia Clark, artista que trabalhava com itens simples, baratos e corriqueiros. Foi isso o que ela fez ao colocar uma pedra sobre uma sacola de plástico cheia de ar. Um dos destaques da exposição, essa obra opõe o peso e a resistência da rocha à natureza leve e efêmera do ar, criando um diálogo com o título da mostra.

“Construção no vento é uma contradição bonita. Quando a gente pensa em construção, vem à nossa mente algo sólido e perene, já o vento é aquilo que nos mobiliza, mas que não enxergamos”, diz Duarte. “Essa exposição é muito sobre aquilo que não se vê, e no entanto produz efeito.”

Construção no vento

Quando: Seg. a sex., das 10h às 19h. Sab., das 11h às 15h. Até 4 de outubro

Onde: Claraboia – Al. Gabriel Monteiro da Silva, 2906, Pinheiros

Preço: Gratuito

Classificação: Livre