SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O francês é considerado a língua do amor não só por motivos históricos e culturais mas também pela suavidade dos seus sons, que parecem deslizar de uma palavra a outra, numa cadência musical que lhe rendeu a reputação de idioma chique e cheio de charme.

Essa aura romântica da língua de Serge Gainsbourg, Charles Aznavour e Edith Piaf tem feito sucesso nas versões de clássicos da música popular brasileira criadas pelo pianista e cantor francês Aymeric Frerejean, 48.

Apaixonado pelo Brasil e sua música, depois de apaixonar-se por uma brasileira que conheceu na sua Paris natal e com quem lá se casou, Aymeric viralizou nas redes sociais com versões francesas de canções como “Evidências”, interpretada por Chitãozinho e Xororó e eternizada em todos os karaokês do país, e “Anunciação”, de Alceu Valença.

“Minha versão de ‘Evidências’ foi repostada por Chitãozinho e Xororó e ficou cada vez mais conhecida. ‘Anunciação’ viralizou. Começaram a me parar na rua, no shopping”, conta o pianista. “Agora, comecei a ficar conhecido. Não famoso, mas conhecido. E as versões viraram minha especialidade.”

Aymeric ampliou seu repertório de homenagens francesas à música brasileira em que une jazz e bossa nova, samba e música romântica. Já são mais de 30 versões de sucessos como “Detalhes” (Roberto Carlos), “Asa Branca” (Luiz Gonzaga), “Caça e Caçador” (Fábio Júnior), “Carinhoso” (Pixinguinha), “Se” (Djavan) e “Conselho” (Almir Guineto), que ele pretende reunir em um disco gravado ao vivo.

“Esse projeto de versões francesas, que começou ainda antes da pandemia, foi um como um PhD [doutorado] em música brasileira. É um jeito sincero de homenagear a música que amo de paixão e fazer um trabalho ativo de pesquisa em vez de apenas admirá-la passivamente”, conta o pianista, que criou um método próprio.

“São várias fases. Algumas músicas eu descubro sozinho, outras são sugestões de fãs, mas, em qualquer um dos casos, eu tenho de gostar da melodia antes da letra”, acrescenta.

“Fazer uma versão é como abrir o capô de um carro, avaliar tudo, desmontar cada peça e compreender uma a uma”, afirma ele, que diz pesquisar o artista, a harmonia, o arranjo, as expressões usadas nas letras e seus significados.

“Quando eu ainda não falava português, por exemplo, ouvia ‘Água de Beber’ [Astrud Gilberto e Tom Jobim] achava que era uma música extremamente sensual. Quando entendi o que o refrão dizia –beber água– fiquei decepcionado”, brinca.

Depois de destrinchar a letra, palavra por palavra, Aymeric entra numa fase mais artística do trabalho de versionista. “Tenho de fazer escolhas, tirar uma frase e trocar por uma outra por questão de rima. Mas o sentido da letra é sempre respeitado, assim como o seu ritmo”, diz ele, que agora se apresenta como o francês que veio cantar o Brasil. “Todas as minhas versões tem essa característica de não mudar o sentido da letra porque o meu público é formado por brasileiros que gostam da sonoridade da língua francesa.”

Segundo o músico, quanto mais imagens a letra traz, mais difícil de fazer sua versão francesa. “Expressões idiomáticas não são iguais nas duas línguas e ficam sem sentido”, afirma o pianista, para quem há um compositor brasileiro especialmente desafiante. “Djavan é extremamente difícil de fazer versões porque ele usa imagens que ele vai juntando de maneira um pouco surrealista, numa justaposição de imagens. É genial, mas é muito difícil”, admite.

Todo domingo, às 21h, Aymeric faz uma live que funciona como um laboratório. “Virou tradição: eu mostro as versões que faço e destrincho toda a adaptação da letra, palavra por palavra. Faço toda uma análise e também atendo a pedidos”, afirma ele, que identifica boa parte de seu público composto por estudantes de francês e por mulheres. “Elas costumam gostar mais de músicas românticas, como eu.”

Nascido em Paris numa família típica da burguesia francesa, Aymeric começou a tocar piano e a compor muito cedo. Morou com a família em Hong Kong e no Japão e pegou gosto pelo estudo de línguas, mas formou-se em direito e começou a trabalhar numa grande indústria farmacêutica quando percebeu que o que queria mesmo era tocar e cantar.

“Eu escolhi a música contra tudo e contra todos”, conta ele, que abandonou o emprego promissor para ser contratado como pianista no tradicional restaurante e cabaré Le Boeuf Sur le Toi, ou o boi no telhado, no lugar do antigo músico titular que havia saído para tratar de uma cirrose. “Ganhei o trabalho com o compromisso de que eu não beberia.”

Ali, tocou durante anos para artistas que frequentavam a casa, como Julio Iglesias, Scarlett Johansson e David Guetta, até que conheceu a brasileira, Paula, que o fez querer se mudar para o Brasil e que o convenceu a se arriscar numa versão francesa de “Evidências”.

“Eu fiquei relutante porque não canto sertanejo, mas minha esposa me convenceu que não era sertanejo, mas uma espécie de segundo hino nacional”, diz. “Tecnicamente, é uma canção muito sofisticada, de harmonia bem construída e requintada, composta pelo Paulo Sérgio Valle, irmão do Marcos Valle.”

A boa onda atual já levou Aymeric para tocar em Curitiba, Rio de Janeiro, Florianópolis, Recife, Salvador e Macapá. Também promoveu um encontro do francês com a dupla sertaneja intérprete do hit para a gravação de um programa de TV. “O diretor musical do Chitãozinho e Xororó falou que era a melhor versão de ‘Evidências’ depois da deles. Chitãozinho elogiou minha voz. Fiquei muito feliz.”