BOCAIÚVA DO SUL E ADRIANÓPOLIS, PR (FOLHAPRESS) – Ao longo do rio Pardo, na divisa de São Paulo com o Paraná, quatro comunidades quilombolas há duas décadas produzem alimento sustentável, sem o uso de agrotóxicos, fogo ou desmatamento.
Ao todo, são cerca de 640 pessoas, que colhem a cada temporada toneladas de banana, pupunha, abóbora, laranja e feijão. Muitos desses alimentos, no entanto, apodrecem por dificuldade de escoamento.
Os quilombos Areia Branca, Estreitinho, Córrego do Franco e Três Canais, em ficam nos municípios de Bocaiúva do Sul e Adrianópolis, ambos no Paraná. Mas a principal cidade da região é Barra do Turvo, do lado paulista. É nela que as famílias conseguem vender a produção, comprar alimentos e acessar os serviços básicos. Para cruzar de uma margem a outra, contam apenas com uma ponte feita de tábuas, cordas, cabos de aço e telas metálicas. Ela é antiga, de balanço intenso –o que cria uma série de dificuldades para as comunidades.
A passarela de tábuas foi construída, em 1994, pelo então prefeito de Barra do Turvo, Fausto Conter (1993-97), conhecido como Bingo. Desde então, os próprios moradores realizam a manutenção.
“Eu vi a dificuldade do povo e construí. Ela tem 75 metros e é bastante resistente, tanto é que está aí há mais de 30 anos”, disse.
É uma situação absurda que essas pessoas se encontrem isoladas dessa maneira”, diz o promotor Olympio de Sá, do Paraná. Segundo ele, em reunião com representantes das prefeituras e do governo paranaense, no dia 5, o estado se comprometeu a construir duas estradas.
Procurado, o Secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná, Sandro Alex Cruz, disse que as obras pleiteadas pertencem ao município, e não ao estado, e que são as prefeituras que precisam elaborar o projeto.
“Se os municípios não têm arrecadação suficiente para realizar a obra, cabe fixar um convênio, com repasses de recursos do estado, mas, já que são estradas e pontes municipais, o município precisa fazer o projeto”, afirmou. Esse tipo de obra, diz ainda, precisa de licenciamento ambiental e de estudo de impacto.
Em Areia Branca, de 28 hectares, vivem cerca de 25 famílias, que cultivam banana, pupunha, laranja, limão e abacate. O agricultor Valdecir Batista calcula que, “entre dezembro e maio, a gente colheu 2.000 caixas de bananas, e perdeu umas 500.”
Os produtos são comercializados para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e para um atravessador, que compra por encomenda. “A gente faz entrega para o PAA nas segundas e quintas. Entregamos 300 caixas, mas só podemos levar duas por vez, porque a ponte não suporta peso. A gente dá 150 viagens”.
A comunidade produz balas e chips de banana e mandioca, com agroindústria do Projeto Raízes Risotolândia, em parceria com o Sebrae Paraná.
Suellen Batista, 39, mora em Colombo, na Grande Curitiba e, há seis anos, está paraplégica, após cair da cabeceira da passarela. “Estava escuro, e aquela ponte, desde sempre, é só a decadência, escorreguei e caí. Só depois de muita fisioterapia, consegui usar andador”, relata.
No Estreitinho, boa parte dos produtores substituiu as frutas por gado, porque a colheita estraga rápido sem ter como ser transportada. “A comunidade mais sofrida é Estreitinho, porque só tem um bote e quando [o rio] enche, não tem como passar”, diz o presidente da Associação Quilombola, Oraci Bandeira.
A renda das cerca de 22 famílias, que cultivam banana, pupunha, gengibre, cebolinha, repolho e inhame vem da agricultura ou da aposentadoria. Elas usam o bote inflável para levar as crianças à escola, ao posto médico, para tudo. Para auxiliar no transporte dos alimentos, usam uma tirolesa.
No Córrego do Franco, a limitação é a mesma. “Quando chega a temporada de frutas, aqui, dá um monte de alimento, mas a gente perde tudo”, diz a agricultora Arlete Morato, 59. As 70 famílias plantam pupunha, gengibre, banana, laranja, abacate, jaca.
O prefeito de Adrianópolis, Vandir Veterinário (PSD), afirmou que “até para realizar o projeto, o município precisa de apoio e de recursos do governo do estado. “Tirar R$ 5.000 do município, hoje, faz falta”, afirmou.
Como medida emergencial, ele disse que “a Defesa Civil protocolou um ofício solicitando uma travessia emergencial, uma ponte pré- moldada, através do Exército, para resolver temporariamente o problema.”
Procurado, o secretário de Obras e Viação de Bocaiúva do Sul, Claudinei Rodrigues, não respondeu sobre a estrada. Anteriormente, disse que o município não teria condições financeiras de arcar com a obra de uma ponte definitiva.
O prefeito de Barra do Turvo, Victor Maruyama (Podemos), disse que está nos planos da prefeitura construir a ponte de alvenaria. “Até por empatia, já que eles usam o nosso sistema de saúde, educação, pretendemos construir essa ponte nos próximos meses”, afirmou. Ele não informou o prazo para que a obra seja concluida.
Como alternativa à ponte, alguns quilombolas só possuem um bote para fazer a travessia dos moradores e uma tirolesa para transportar os produtos a serem comercializados.
A reportagem viajou a convite do Projeto Raízes Risotolândia, mantido pelo Grupo Risotolândia e Sebrae-Paraná