LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – Com o governo de Donald Trump levando a cabo políticas anti-imigrantes nos Estados Unidos, aumentando exigências para visto e retirando financiamento de universidades, jovens brasileiros de classe alta em idade de começar faculdade, que antes sonhavam em entrar para instituições americanas, passaram a ponderar sobre alternativas. Muitos se voltam à Europa, mas universidades de elite do Brasil também começam a sentir um aumento de procura em seus processos seletivos.

Giselle Castro, 17, aluna do 3º ano do ensino médio na escola bilíngue Carolina Patrício, no Rio de Janeiro, diz que seu grande sonho era estudar negócios nos Estados Unidos, mas atualmente sua primeira opção é uma faculdade europeia. “A situação nos EUA me deixa um pouco insegura, sim, mas na verdade meus pais estão preferindo que eu vá para a Europa por causa dos custos”, conta ela. Os preços das mensalidades na Europa estão, em geral, mais baixos.

Como já tem uma irmã morando na Califórnia e um irmão na Holanda, vai tentar vagas em ambos os destinos. Porém, não descarta a possibilidade de cursar uma universidade brasileira. “Quero muito fazer faculdade fora, estou me dedicando para isso, mas vou prestar Enem e vestibular na PUC-Rio. Fazer faculdade no Brasil e ir para o exterior numa pós-graduação fica como um plano B”, diz Giselle.

O contexto político tem provocado um aumento de concorrência para as instituições dos EUA. “Faculdades de outras regiões estão vendo uma oportunidade de se fazerem conhecer, de atrair nossos talentos”, diz Rafael Pereira, conselheiro da escola, citando a feira de faculdades organizada pelo Carolina Patrício, que vai dobrar o número de instituições representadas este ano em comparação a 2024, de 45 para 90. Além das americanas e europeias, há faculdades do Canadá, Nova Zelândia, América Latina e 22 brasileiras que acertaram participação.

Mas ainda que tenham obstáculos extras na atualidade, os EUA continuam sendo um destino de grande interesse dos jovens no final da escolaridade obrigatória, garante Pereira. “Até porque eles começaram a planejar fazer faculdade fora quando estavam no 9º ano do fundamental, bem antes da eleição de Trump. E as instituições americanas têm uma reputação tão boa que os estudantes querem ir de qualquer forma”, diz.

Para Claudia Tricate, diretora do colégio Magno, de São Paulo, é natural que os objetivos dos jovens se ajustem “incontáveis vezes” –e ter dúvidas em relação a ir aos EUA pode acabar levando à descoberta de novas possibilidades, cursos e profissões. “Independentemente do destino, eles seguem se dedicando para construir um currículo robusto, potencialmente bem avaliado nas universidades estrangeiras, e que também é considerado por muitas universidades brasileiras”, diz.

A imprevisibilidade das políticas migratórias para os EUA faz com que os jovens repensem ainda sua exposição pública e tenham receio de “criticar” abertamente as políticas educacionais e migratórias americanas. Um estudante de 17 anos do Magno, que pediu para não ser identificado, disse que o pai lhe mostrou uma notícia do New York Times sobre como as medidas de Trump são uma forma de impedir a entrada de estudantes internacionais.

Embora ele esteja dando preferência para instituições na Europa, deve tentar ao menos uma universidade nos EUA e teme que declarações públicas possam ser usadas para negar seu visto. O jovem afirma que sua prioridade até o ano passado eram os EUA, mas atualmente sonha ir para a Itália, após ter gostado de fazer uma “summer camp” em Milão. Em todo caso, também vai prestar o Enem e fazer o processo seletivo da ESPM para manter abertas mais possibilidades.

O diretor-executivo de marketing da ESPM, Fernando Cesário, destaca que a instituição já é bastante procurada por estudantes de escolas bilíngues ou internacionais e, no cenário atual, a demanda deve aumentar. “Acredito que esse interesse deve crescer ainda mais no próximo ano, uma vez que muitos jovens que planejavam estudar no exterior –sobretudo nos Estados Unidos– podem repensar seus planos diante das recentes restrições impostas pelo governo Trump para a concessão de vistos a estrangeiros”, afirma.

A FGV (Fundação Getulio Vargas) é outra instituição brasileira que já sente o impacto, com um aumento “expressivo” de demanda em seu vestibular integrado, segundo o pró-reitor Antonio Freitas. “Universidades brasileiras de excelência oferecem cursos comparáveis aos americanos, considerando a qualificação de seus docentes e o acesso ao conhecimento. Para o Brasil, essas mudanças representaram um aspecto positivo, pois contribuíram para evitar a chamada fuga de cérebros”, diz.

Para além da política, o aspecto financeiro contribui para que mais jovens desistam de tentar o ensino superior americano. “As universidades dos EUA passaram a oferecer menos bolsas de estudo, tanto para americanos quanto, especialmente, para estrangeiros. O custo de manutenção de um estudante em universidades americanas aumentou significativamente”, ressalta Freitas.

Na hora da escolha, os jovens estudantes levam em conta ainda seus projetos de vida de longo prazo. Carolina La Motta, 17, aluna da escola bilíngue Pueri Domus, em São Paulo, planeja cursar uma faculdade de psicologia na Europa e seguir fazendo pesquisa na área. Ela vai tentar uma instituição americana “como uma segunda opção”. O Brasil entra na lista de desejos apenas na terceira posição: “Apesar de estar muito focada em sair do país, decidi prestar a faculdade do Einstein. Não tenho dúvidas que é uma faculdade ótima, mas é que meu desejo é morar no exterior”, conta, sobre a faculdade israelita de ciências da saúde.

Como parte de uma geração que cresceu em meio a mudanças repentinas, a jovem prefere deixar várias portas abertas, seguindo uma recomendação que Fernanda Cardoso, conselheira para admissões no exterior do Pueri Domus nas unidades Perdizes e Aclimação, costuma dar a quem pretende estudar fora.

“Digo sempre que é preciso se precaver, sugiro que tenham sempre vários caminhos abertos, porque a gente não tem controle de tudo. Dou o exemplo da pandemia, quando muitos alunos foram aprovados e não puderam viajar”, recorda.

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