PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – Parentes, amigos, intelectuais, artistas, políticos e anônimos lotaram o Salão Julio de Castilhos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul na tarde deste sábado (30) para se despedir do escritor Luis Fernando Verissimo. Ele morreu minutos antes da 1h no hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, onde estava internado desde o dia 11 de agosto em razão de múltiplas enfermidades.

No mesmo local, em novembro de 1975, há quase 50 anos, foi velado o pai de Luis Fernando, Erico Verissimo (1905-1975), também escritor e maior nome da literatura do Rio Grande do Sul.

Para a filha mais velha, Fernanda Verissimo, jornalista, a coincidência simboliza a relação do pai com o estado e o Brasil. “É uma demonstração da comoção e do respeito que ele merece”, afirmou ela. “É como se Erico estivesse morrendo outra vez”, acrescentou Luis Augusto Fischer, professor do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Verissimo, que havia sofrido um acidente vascular cerebral em 2021 e enfrentava dificuldades motoras e de fala, teve um fim tranquilo. “Ele simplesmente fechou os olhos e se foi”, contou o filho caçula, o músico Pedro Verissimo.

O ex-governador Olívio Dutra disse que Verissimo era um intérprete não apenas das diversas facetas do Rio Grande do Sul, mas de todo o país. “Com seu humor fino e articulado, ele compunha um retrato de nossa sociedade e se posicionava pela justiça e a solidariedade”, afirmou.

Já o escritor Eduardo Bueno afirmou que a morte de Verissimo deixa um vazio na cultura gaúcha e também impacta a literatura brasileira. “Ele (Verissimo) ocupou um lugar ímpar no Rio Grande do Sul, e é incrível que o tenha ocupado depois de o pai não deixar lugar para mais ninguém ao produzir uma obra que enfrentou o tempo e o vento”, analisou.

O caminho trilhado por Verissimo, que o projetou nacionalmente, foi o da crônica, “um dos nichos mais preciosos da literatura brasileira”, destacou Bueno. “A crônica inicia-se com José de Alencar e atinge com Machado de Assis onde você acha: daqui não tem como evoluir”, enumerou. “E aí vêm Fernando Sabino, Rubem Braga, Millôr Fernandes. Luis Fernando é contemporâneo deles, embora tenha estreado mais tarde por passar anos como publicitário.”

Para o autor, a projeção do cronista pode ser definida como “majestosa”. “Ele provou que a crônica consegue ser leve sem ser leviana”, disse.

Clarissa Jaffe, irmã de Verissimo que vive nos Estados Unidos, chegou a Porto Alegre quando o escritor já estava hospitalizado e não se comunicava mais. “Quando o vi na cama do hospital, eu disse: Luis Fernando não está mais aqui. Foi o meu jeito de reagir à emoção de vê-lo assim”, contou.

Durante a internação e mesmo após a transferência para a UTI, há duas semanas, familiares e amigos cercaram Verissimo de atenção. “Falávamos com ele, pegávamos a mão dele, o filho, Pedro, cantava para ele”, disse Clarissa. “Foi assim que nós fomos lidando com isso.”

Para a irmã, o carinho do público durante o velório é reconfortante. “É uma maravilha o que está acontecendo aqui, as pessoas que falam sobre ele, isso me toca muito.”

Apesar da distância —Clarissa mora nos Estados Unidos há mais de 60 anos—, os irmãos eram próximos. “Nós sempre fomos muito amigos”, afirmou.

Companheira de Verissimo havia 61 anos, Lucia Verissimo disse que o mais importante foi ter construído “uma verdadeira parceria, acompanhando toda a trajetória dele”. “Tenho orgulho dessa história, de ter tido três filhos maravilhosos com ele e acompanhar todo o trabalho dele por esses anos todos”, ressaltou.

No segundo tomo de seu livro de memórias, “Solo de Clarineta II”, o sogro de Lucia, Erico Verissimo, descreveu um episódio que atesta o temperamento do filho: o dia em que, diante de uma vitirine, apontou um par de alianças à namorada, Lucia, pediu-a em casamento e deu-lhe cinco minutos para se decidir. A versão de Erico corresponde à realidade, atestou Lucia.

“A história está bem contada. Foram cinco minutos para decidir se casava ou não”, diverte-se. E complementou, rindo: “Casamos. Loucos por loucos, os dois. E deu certo, não me arrependo. Acho que ele também não. Mas também não era louco de se arrepender, né?”

O ex-governador Pedro Simon lembrou o gesto histórico do pai de Verissimo ao apoiar, em 1974, a candidatura de Paulo Brossard (MDB) ao Senado em oposição à ditadura militar. “Verissimo pai e esse guri (Luis Fernando), que seguiu o mesmo caminho, são uma honra para o Rio Grande”, afirmou.

O cineasta e diretor de TV Giba Assis Brasil destacou que a influência do escritor ultrapassou o campo literário. “A trajetória da Casa de Cinema (núcleo de produção audiovisual formado nos anos 1980 que reuniu Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo e o próprio Assis Brasil, entre outros) não seria a mesma coisa se não tivéssemos lido Verissimo”, declarou.

O velório encerrou-se às 16h50min na Assembleia Legislativa. Um cortejo de carros acompanhou o féretro por cerca de cinco quilômetros até o cemitério. Um dos mais famosos torcedores do Sport Club Internacional, Verissimo teve despedida discreta do clube do coração.

O caixão foi ornado por uma pequena flâmula velha e desbotada, na qual se lia o nome do clube e a inscrição “Campeão brasileiro”. Uma vez que o time conquistou o título por três vezes (em 1975, 1978 e 1979), a ausência de data parece indicar que se tratava do primeiro campeonato.

Um post do clube em uma rede social saudou o “colorado que, com sua escrita, marcou o imaginário do povo brasileiro”. O ex-jogador Paulo Roberto Falcão reverenciou na mesma rede o cronista como “um camisa 10 da literatura”.

Luis Fernando Verissimo será sepultado às 18h deste sábado no Cemitério São Miguel e Almas, no bairro Azenha, no mesmo jazigo da mãe, Mafalda Verissimo, que morreu em 2003. O pai, Erico, foi sepultado em outro local no mesmo cemitério.