BARRETOS, SP (FOLHAPRESS) – A trajetória dos rodeios no Brasil é marcada por ícones dentro e fora das arenas, e renovar touros de sucesso e locutores considerados lendas do segmento não é uma tarefa fácil. Mas há candidatos.

Quando o pecuarista Orestes de Ávila narrou com um megafone montarias na primeira Festa do Peão de Barretos (a 423 km de São Paulo), em 1956, provavelmente não imaginaria que iniciaria ali uma profissão que viria a gerar ídolos nas décadas seguintes.

O bordão “O chão é o limite” foi criado por ele, que depois foi sucedido nas arenas por Zé do Prato, Barra Mansa e Asa Branca, entre outros de sucesso nas últimas décadas. Eles foram responsáveis por narrar montarias de peões como Tião Procópio, campeão de touros na Festa do Peão de Barretos em 1980, ou do tricampeão mundial Adriano Moraes, e também por contarem ao público como touros como Bandido derrubaram os competidores.

“Eu ouvia vozes como Barra Mansa, mas a grande virada de chave mesmo foi quando eu vi o Asa Branca, em 1991, em Barretos. Ali eu decidi que eu ia ser locutor de rodeio. Ali vi o estilo de música, o rock, a criatividade dele. Eu ficava imitando os locutores antigos”, disse Adriano do Valle, barretense e locutor da Festa do Peão desde 1993.

A sensação de narrar com a arena de Barretos lotada -comporta 35 mil pessoas nas arquibancadas- é, para ele, semelhante à vivida por jogadores de futebol quando chegam à seleção brasileira. “É um sonho realizado. Ano passado, quando entrei na arena, foi um momento muito especial, passou um filme na minha cabeça dos 30 anos de narração que eu vim construindo.”

Ele disse que a primeira oportunidade foi dada a ele pelo diretor de rodeios da Festa do Peão, Marcos Abud, para narrar o qualifying, seletiva do Barretos International Rodeo.

Ex-presidente de Os Independentes, Abud afirmou que Orestes de Ávila também foi responsável pela criação do que talvez seja o principal bordão das arenas, o “Seguuura, peão”. “Inventaram que era de outros, mas não era, era dele. Isso foi uma coisa que ele que colocou lá nos anos 60”, disse. O bordão também é atribuído a José Ribeiro (1937-2014) e a Zé do Prato (1948-1992).

Zé do Prato conquistou as arenas com seu jeito descontraído e narração acelerada. Já Barra Mansa (1953-2021) tinha um jeito calmo de narrar e era um locutor à moda antiga, que ficava em cima do palco, e não descia à arena como Adriano faz, seguindo o que Asa Branca (1962 – 2020) iniciou nos anos 1990.

Era comum encontrar Barra Mansa já no início da tarde pelas ruas do Parque do Peão de Barretos, horas antes do início das montarias. Ele gostava de se ambientar, conversar com peões ao lado do estádio de rodeios e contar histórias dos eventos dos quais participou a partir de 1977.

Estreou em Barretos cinco anos depois e, certa vez, disse à Folha que era “tradicional e tinha juízo”, ao explicar o motivo de não descer à arena para narrar. Foi o último locutor a seguir essa linha.

Asa Branca, por sua vez, se notabilizou por entrar nas arenas em helicópteros e a narrar de dentro de camionetes em movimento.

Ele dizia que tudo isso foi possível por ter descoberto na década de 1980 a existência do microfone sem fio, quando morava nos Estados Unidos e limpava cocheiras no Texas.

Foi o locutor que levou a profissão a outro patamar. Virou capa de revista, namorou celebridades e, com a fama e o dinheiro, vieram também o que contribuiu, segundo ele próprio, para sua destruição: abusos de bebidas alcoólicas, drogas e sexo nas noitadas.

Seu auge coincidiu com a internacionalização do rodeio de Barretos (1993), o real valorizado (1994), com peão brasileiro sendo campeão mundial (Adriano Moraes, em 1994) e da entrada de country, rock e disco como trilha sonora nas festas de peão. Saía de cena o caipira, entrava em ação o caubói, e ele soube valorizar isso nas arenas.

Abud disse que Adriano é um dos melhores locutores do país, pelo estilo de narração, mais alegre e expansivo. Na atual temporada, o locutor fez 39 rodeios.

Questionado pela reportagem se nunca pensou em ser competidor, a resposta do locutor é rápida: “Não, boi só no espeto”.

Bandido foi o principal nome das arenas, mas há outros que também marcaram época, na avaliação de locutores, organizadores de rodeios, tropeiros e peões, como Bipolar, também de Paulo Emílio, que foi o dono de Bandido. Pesadelo, Fascinante, Britânico e Delegado foram outros animais citados.

Atualmente, Acesso Negado, Cobiçado, Ancião e Relíquia do Tempo são alguns dos animais que buscam repetir a fama dos touros de outrora.