SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um emaranhado de cordas de couro pende do teto, sustentado por uma fina corda de cânhamo que se estende por toda a sala. Entrelaçado em si mesmo, o conjunto ora se revela, ora se esconde por entre as frestas de estruturas brancas que se confundem com as paredes e conduzem o espectador pelo ambiente.

Em “A Linha que Fica Entre”, em cartaz na galeria Luisa Strina, em São Paulo, a artista portuguesa Leonor Antunes, 53, retoma um diálogo entre artistas a um só tempo europeias e brasileiras, como Lina Bo Bardi e Mira Schendel, para atualizar uma pesquisa que desenvolve há mais de uma década sobre a tradição modernista.

Nesta nova exposição, o ponto de partida foi a primeira Bienal de São Paulo, em 1951, especialmente o pavilhão suíço, que apresentou obras de Max Bill e Sophie Taeuber-Arp. Antunes conta que se interessava em pensar como o trabalho de Taeuber-Arp havia impactado artistas brasileiras como Lygia Clark e de que forma essa contaminação estética cruzava gerações e geografias.

Essa ideia de “contaminação” –ou de trânsito e migração entre artistas– guia a exposição. O chão da sala, feito em linóleo, reproduz em escala ampliada o padrão de uma pintura de Taeuber-Arp exibida naquela bienal. A superfície funciona como uma espécie de depositório, diz a artista, unificando as demais peças do espaço.

Entre as obras estão esculturas suspensas por cordas, placas metálicas que obrigam o público a desviar o percurso, e trabalhos feitos com couro, referência direta às “Droguinhas” de Schendel. “As peças da Mira são frágeis, do tamanho da mão. As minhas são quase o oposto: pesadas, físicas, exigem o corpo inteiro para serem manipuladas”, afirma. Antunes chama suas versões de “drogonas” –estruturas que atualizam as questões espaciais e materiais da artista suíça-brasileira em outra escala e materialidade.

Antunes afirma que a corda funciona tanto do ponto de vista material quanto conceitual. Inspirando-se no mito grego do Minotauro, em que a saída do labirinto é marcada por um fio de linha, suas cordas ajudam a construir o espaço, guiando o olhar e o corpo pelo ambiente e criando trajetórias e conexões entre as obras.

Junto a isso, Antunes recusa uma leitura linear da história da arte, preferindo revisitar figuras marginalizadas ou menos centrais. Ela lembra o trabalho de Clark, em que algumas peças, chamadas por ela de “trepantes”, se agregam a outros elementos e se adaptam a diferentes materiais, ocupando o espaço de maneira fluida e orgânica.

Para a artista, essas esculturas exemplificam a ideia de arte parasitária –elas se ajustam à materialidade do ambiente e transformam a escultura em algo híbrido, capaz de interagir e reorganizar o espaço.

Essa noção de parasitismo, que ela já havia defendido em outros momentos, ganha nova forma na mostra atual por meio de suas próprias esculturas híbridas, que combinam elementos rígidos e orgânicos. Elas desorganizam e, ao mesmo tempo, dialogam com o espaço, mantendo viva a ideia de que a arte se alimenta daquilo que veio antes para gerar novas formas.

“Assim como Sophie Taeuber-Arp, em que o trabalho passava por miçangas, bordados, pintura, escultura, arquitetura, não me interessa hierarquizar. Um colar de miçangas podia estar ao lado de uma pintura, de uma escultura ou de um móvel. Essa mistura é que dava sentido”, diz Antunes, destacando como essa postura também se encontra em Bo Bardi e em outras mulheres artistas da época que ela revisita na exposição.

É a segunda vez que Antunes expõe na galeria. Sua primeira individual no Brasil ocorreu em 2007, no Rio de Janeiro, durante uma residência artística que a aproximou da paisagem, da arquitetura e do legado da modernista ítalo-brasileira Bo Bardi. Desde então, a artista tem retornado ao país em diferentes momentos, como na sua mostra no Museu de Arte de São Paulo, em 2019.

Leonor Antunes – Uma Linha que Fica Entre

Quando: Até 25 de outubro. De segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h.

Onde: Galeria Luisa Strina – r. Padre João Manuel, 755, São Paulo

Preço: Grátis

Link: https://www.luisastrina.com.br/exhibitions/283-leonor-antunes-uma-linha-que-fica-entre/