SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Luis Fernando Verissimo ganhará uma nova antologia este ano, pela editora Objetiva. “Comédias da Vida Privada: Antologia” tem previsão de lançamento para o final de setembro ou início de outubro. Quem assina o prefácio da edição é o cineasta gaúcho Jorge Furtado.
O primeiro “Comédias da Vida Privada” foi publicado em 1994. Com o sucesso, o título foi adaptado para a televisão e exibido entre 995 e 1997, numa série criada por Furtado junto com o cineasta Guel Arraes.
Baseado nas crônicas de Verissimo, o seriado reuniu em seu elenco nomes como Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Marcos Nanini, Andréa Beltrão, Marieta Severo, Déborah Bloch, Luiz Fernando Guimarães e tantos outros.
Em 1996, ampliando o repertório de histórias, foi lançado “As Novas Comédias da Vida Privada”. Anos mais tarde, a mesma editora publicou “O Melhor das Comédias da Vida Privada”, antologia que incluiu novas crônicas, até então inéditas.
A inédita “Comédias da Vida Privada: Antologia”, que sai este ano, reúne o melhor desses três best-sellers.
No prefácio do livro, Furtado escreve que nenhum autor brasileiro –incluindo Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Drummond– lhe proporcionou tanto prazer na leitura como Luis Fernando Verissimo.
“Um texto pode nos ensinar sobre nós, sobre o mundo e sobre a linguagem. Verissimo faz tudo isso como muito poucos”, escreve o cineasta gaúcho.
Leia a seguir, na íntegra, o prefácio escrito por Jorge Furtado para o livro.
É reconfortante saber que ainda há quem leia prefácios. Por que me convidaram para escrever este? Um palpite: Verissimo é o meu escritor brasileiro favorito. W. H. Auden diz que “o prazer não é infalível como senso crítico, mas é o menos falível”. O fato é que nenhum autor brasileiro –incluindo Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Drummond– me proporcionou tanto prazer na leitura como Luis Fernando Verissimo. Falo daquele tipo de prazer que só a leitura oferece: um mergulho no mundo das palavras, da língua e da linguagem, das ideias e das histórias, de onde se emerge transformado. Um texto pode nos ensinar sobre nós, sobre o mundo e sobre a linguagem. Verissimo faz tudo isso como muito poucos.
Virei seu fã aos nove anos, em 1968, quando li “O Especialista e Outros Contos”, da editora Globo, que reunia oito textos de humoristas americanos. O livro foi reeditado mais tarde com o título “As Calcinhas Cor-de-rosa do Capitão” e distribuído em postos de gasolina como brinde. É possível encontrar em sebos por dez reais: garanto que não há presente melhor por este preço. É um dos meus livros preferidos até hoje. Reli muitas vezes antes de descobrir, em letras miúdas, o nome do tradutor que dava unidade e leveza às histórias, todas com humor e diálogos incomparáveis: Luis Fernando Verissimo. Que eu saiba, foi seu primeiro trabalho no mundo da escrita.
Passei a segui-lo na Folha da Manhã e na Zero Hora, todos os dias. Quando tinha pouco tempo para ler o jornal, ia direto no Verissimo. Ele saltava da crônica para o conto, do melhor jornalismo para a melhor piada, do desenho para o poema, numa capacidade espantosa e aparentemente infindável de análise e de criação. Como alguém podia ser, ao mesmo tempo, tão profundo e tão engraçado? Como alguém podia escrever tão bem todos os dias?
Em 1974 comprei seu primeiro livro, “O Popular”, que reunia algumas crônicas de jornal. Em 1982 comecei a trabalhar na televisão, e ele foi um dos meus primeiros entrevistados. Nervoso, preparei uma gigantesca e complexa pergunta de abertura sobre o humor, citando o texto do Bergson sobre o riso e trechos de Aristóteles. A resposta: “É verdade”. E só. Malabarizei minhas fichas –o terror da televisão é o silêncio–, gaguejei um tanto e perguntei como tinha conhecido a Lúcia. Pronto, a conversa foi muito boa.
Em 1984 fiz meu primeiro curta, baseado num conto dele. O texto é ótimo, o filme nem tanto, peca por excesso de fidelidade. Dez anos mais tarde, adaptei muitos de seus contos na série “A Comédia da Vida Privada”, vários dos quais estão neste livro. Foi um grande sucesso, virou livro e, para surpresa da equipe, o programa preferido de crianças até doze anos. Ouvido por um jornal, um pirralho de onze anos explicou por que gostava tanto das histórias: “Eu gosto de saber o que os meus pais conversam no banheiro”. Não me pergunte como o Verissimo sabe o que os pais brasileiros de classe média conversam no banheiro. Uma rede de escutas clandestinas? Informantes? Disfarces de zelador? Quem sabe?
Verissimo é o autor mais falsificado do país, e não conheço glória mais irrefutável. Só os grandes mestres são falsificados. Não são poucos os mequetrefes que escrevem textos supostamente inteligentes e bem-humorados e, para conquistar a boa vontade do leitor, inventam que é do Verissimo. Afirmo, com orgulho, que nenhum deles nunca me enganou. Verissimo é inconfundível. Li todos os seus livros. Os textos não carregam ofensas, preconceitos, não se levam a sério demais, mas também não sorriem à toa. E não têm clichês. Se aparece um, pode ter certeza de que, depois da próxima vírgula, será destruído, pulverizado, exposto ao ridículo. Verissimo é sempre inteligente, elegante, preciso e bem-humorado.
E os personagens? Ele é capaz de criar personagens arquetípicos –o Analista de Bagé, a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, Dora Avante, As Cobras, Dudu, o alarmista– prontos para viver mil histórias, mas também captura seres singulares, únicos, em pleno voo, todos ridículos e adoráveis, o que é uma ótima definição da espécie humana.
E os diálogos? Diálogos são uma arte própria, um ramo específico da dramaturgia; na indústria cinematográfica, dialoguista é uma profissão. Michel Chion ensina que “o equilíbrio do diálogo deve ser encontrado entre a concentração excessiva do texto escrito e o caráter demasiado diluído da verdadeira conversa realista”. Verissimo domina, como poucos, esse delicado equilíbrio. É um dos maiores dialoguistas que eu conheço, ao lado de Harold Pinter, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Millôr, Billy Wilder, Domingos Oliveira, Tennessee Williams.
No caso de Verissimo, o talento para os diálogos está ligado à sua vocação para o diálogo na vida. Atenção: ao diálogo, não à conversa, que ele é de pouca, mas como presta atenção! Escuta como poucos –e talvez a qualidade venha justamente daí. Na política, já se definiu como um “radical da tolerância”, o que faz sentido. Autor da melhor ficção, defende sempre seus personagens: todos têm suas razões. Essa defesa intransigente da tolerância –“Eu prefiro ter amigos do que ter razão”– vem de sua genuína empatia pelo ser humano comum e único, o Popular, a pessoa que “é tão classe média que tem 1,8 filhos”, brasileiras e brasileiros que conversam no banheiro, a quem conhece e retrata como ninguém.