VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Consta que já foram produzidos mais de 400 filmes adaptando o livro “Frankenstein” —ou, ao menos, utilizando elementos da obra de Mary Shelley para compor histórias nela inspiradas. Dos longas com Boris Karloff nos anos 1930 à reelaboração maluca de Yorgos Lanthimos, “Pobre Criaturas”, de 2023, a história do pesquisador que criou um monstro ao tentar conferir vida eterna aos humanos já é mais que conhecida.

Por que motivo, então, levar ao cinema novamente uma história já tantas vezes contada e adaptada? Pois o mexicano Guillermo Del Toro sentiu necessidade de fazer sua versão pessoal da trama e agora a apresenta ao mundo em “Frankenstein”, recebido com aplausos na competição do Festival de Veneza.

O texto de Shelley é mantido em seus temas essenciais —a questão do preconceito diante do diferente, ou mesmo do sujeito apartado que decide se assumir como pária e passa a agir contra a sociedade que o rejeitou. Mas o grande tema da versão de Del Toro desvia um pouco do priorizado pela escritora, que falava sobretudo da relação entre criador e criatura. O mexicano preferiu se concentrar em outro tipo de ligação, mais específica, a entre pai e filho.

Logo no começo, o espectador percebe as alterações estruturais: o pai do cientista Victor Frankenstein, que no romance é bondoso e afável, no longa é um homem hostil e violento. Tal mudança não há de ter sido em vão —e se o próprio Victor, na idade adulta, também se torna uma pessoa de caráter duvidoso, frio e ainda mais obcecado pelo sucesso que o do livro, certamente tem ligação com a opressão paterna que sofreu na infância. E que estenderá ao filho criado em laboratório.

Usando partes de corpos de diversos homens mortos, o doutor Frankenstein dá vida a um sujeito grandalhão, atrapalhado, meio tolo. O cientista logo se culpabiliza, menos por perceber que gerou uma criatura que terá dificuldades para sempre de se socializar do que por achar aquele indivíduo um grande idiota, incapaz —ao menos nos primeiros instantes— de demonstrar raciocínios sofisticados.

Depois que a criatura se revolta e deseja acertar as contas com o pai, mostra seu lado mais violento. Nas cenas em que o monstro ainda é um bobalhão, Jacob Elordi está até aceitável, com seu físico desproporcional e um ar meio “gauche” que combina com o personagem. Mas quando ele se enfurece e parte para a porradaria, é um bocado ridículo ver sua figura esguia destruindo tudo pela frente —as cenas funcionam melhor quando ele finalmente veste um casaco e o foco não fica tanto sobre seu corpo delgado.

Na primeira metade, é o doutor Frankenstein, interpretado em chave expansiva por Oscar Isaac, quem mais aparece, e embora a performance dele não seja exatamente boa, ao menos ele empresta vitalidade ao personagem —e ao filme como um todo. O trecho funciona bem.

Mas, na segunda parte, quando o foco é em Elordi, o filme afunda, nem tanto pelas limitações do ator, mas porque sua criatura é lamurienta em excesso. Além de ser mais do mesmo na carreira de Del Toro, é mais um para a galeria de seres esquisitões de coração mole, de quem todo mundo tem medo, mas que, no fundo, são puros e inocentes.

Mas o cineasta ao menos corrige o maior problema do livro: Elizabeth, em Shelley, era irmã de criação de Victor, e, quando eles iniciavam um romance, um desnecessário traço incestuoso desviava o foco da trama. Desta vez, a personagem é cunhada de Victor, e Mia Goth tem ótimas cenas na primeira parte, como uma mulher imperiosa e algo petulante.

É uma pena que, na segunda metade, sua Elizabeth se reaproxime da de Shelley e se banalize. Mas ao menos Del Toro dá à atriz uma boa chance para performar cenas fora do registro do filme de horror, filão que, até o momento, tem sido o único a aproveitar o talento de Goth —que, aliás, em alguns ângulos lembra muito a avó brasileira, Maria Gladys.

Ainda mais bem recebido em Veneza foi o longa “No Other Choice”, do sul-coreano Park Chan-wook. A comédia social se inspira no livro “O Corte”, de Donald Westlake, sobre um homem que perde o emprego e se desespera. Para voltar a trabalhar, não vê outra opção que não seja simplesmente assassinar os seus concorrentes à vaga, um por um.

É óbvio que se trata de uma observação sobre o absurdo do mundo moderno, e é triste pensar que o livro foi escrito em 1997, já rendeu uma boa adaptação por Costa-Gavras, em 2005, “O Corte”, mas que a situação da precariedade do mercado de trabalho só tenha piorado, sobretudo em tempos de inteligência artificial.

Mas Park consegue fazer um filme divertido e que instiga à reflexão, de maneira até similar a outro longa sul-coreano: “Parasita”, de 2019, de Bong Joon-ho. Se vai ter fôlego e sair premiado como o filme do compatriota, que ganhou a Palma de Ouro e o Oscar, aí é outra história.