SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Era uma vez uma menina muito tímida, que escolhia ficar em casa e ler histórias com sua tia ao invés de brincar com outras crianças. Assim começou a relação da psicanalista e artista visual Katia Canton com os contos de fadas. Hoje, após quase quatro décadas de estudos e pesquisas, ela lança mais um livro sobre o gênero que a encantou na infância.

Em “Contos de Fadas – Modos de Ser e de Usar”, Canton almeja resumir toda a sua pesquisa a partir de perguntas sobre o gênero. No livro, a autora defende a relevância dos contos de fadas, mas também mostra consciência sobre seus problemas.

Aos 14 anos, quando leu “O Complexo de Cinderela” de Colette Dowling, Cantou entendeu que não fazia sentido esperar passivamente por um príncipe. “A gente se esconde no complexo de Cinderela para não precisar provar que a gente sabe que consegue sozinha”, afirma.

Mesmo consciente das limitações e mensagens problemáticas de certos enredos —como a exaltação da beleza e a reprodução de dinâmicas machistas—, a psicanalista ressalta que contos de fadas foram essenciais para sua formação afetiva e simbólica. O mesmo acontece com muitos outros leitores. “Todo mundo lembra os contos que ouviu na infância. Eles são a coisa mais universal que a gente tem.”

Segundo a autora, os contos de fadas são uma herança comum da humanidade e representam a esperança que nos faz humanos. “Essas histórias são contadas desde sempre para pensar em outras coisas além dos sufocos e perigos da vida.”

Os enredos partem da dor para encontrar respostas. É por isso que muitos dos contos, como “João e Maria” e “João e o Pé de Feijão”, falam sobre comida —a fome era a maior inimiga dos camponeses que contavam essas histórias.

Só que esse repertório está em risco, diante da tendência que Canton chama de “desnarrativização das coisas”. Com a internet, veio a ascensão de uma cultura imagética, baseada na abreviação, e a prática de contar histórias vem perdendo espaço.

Quanto mais simplificada for a linguagem, mais simples serão também os pensamentos, segundo ela. E quanto mais raras forem as narrativas compartilhadas, mais difícil se torna o diálogo entre as pessoas.

Em um mundo regido por algoritmos que personalizam o conteúdo e criam bolhas de pensamento, se acentua a perda de repertórios comuns como os contos de fadas. “Se tudo vira experiência individual, a gente se desarticula como espécie”, diz Canton.

Ao longo do tempo, a humanidade seguiu narrando os mesmos dilemas com diferentes sotaques e cenários. Apesar das variações culturais, há uma surpreendente continuidade nas tramas que diferentes povos contam.

Cinderela, por exemplo, aparece em versões da antiga China ao Egito dos faraós. As histórias das “Mil e Uma Noites”, contadas no Oriente desde o século 9º, compartilham temas com os contos atribuídos ao francês Charles Perrault e aos Irmãos Grimm, da Alemanha. O que muda é o jeito de contar, mas o núcleo simbólico —baseado em temas como medo, desejo e superação— está sempre lá.

Essas histórias milenares vêm sendo recontadas também por grandes estúdios de entretenimento. Segundo a autora, as adaptações recentes promovem apenas alterações superficiais e não uma real atualização das histórias. “O que sinto é uma tentativa totalmente capitalista de ser politicamente correto, mas com extrema superficialidade.”

Ela cita como exemplo a nova versão de “Branca de Neve” produzida pela Disney, que apagou o príncipe da história e substituiu os anões por personagens digitalizados. “É uma forma de amputar a história e as partes essenciais dela, como o desejo e a libido.”

Contos são obras abertas e, por isso, devem ser tratados como “matéria viva”, nas palavras de Canton. Isso significa reinterpretar suas tramas à luz dos desafios do presente, sem abrir mão da complexidade de seus símbolos. “Eles precisam se renovar para fazer brotarem as plantas, senão, viram matéria morta.”

CONTOS DE FADAS – MODOS DE SER E DE USAR: EDUCAÇÃO, ARTE, PSICANÁLISE

– Preço R$ 55,90 (136 págs.)

– Autoria Katia Canton

– Editora Panda Educação