SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em maio de 2020, no auge da pandemia de Covid, o Metrô de São Paulo e os trens da CPTM, que opera as linhas de trens estatais, encerraram as operações à meia-noite aos sábados devido à baixa demanda para sustentar a circulação até a 1h. Mais de cinco anos depois, o horário reduzido permanece em vigor e alterou a dinâmica da noite paulistana, afetando bares, trabalhadores e frequentadores que dependem do transporte público para voltar para casa.
Gerentes de bares relatam que a saída antecipada de trens e metrôs faz com que clientes se programem para deixar os estabelecimentos antes da meia-noite. No Coffee Corner, no centro, o gerente Joaquim Correia, 54, diz que a mudança altera o comportamento do público, que passa a sair mais cedo para não perder o transporte.
No Charme da Augusta, o gerente Leônidas Marques, 38, diz que por volta das 23h30 o movimento já começa a cair e que funcionários precisam encerrar o expediente mais cedo para conseguir voltar para casa.
Ciro Biderman, professor e diretor da FGV Cidades, pondera que, a não ser que haja demanda, manter o metrô até mais tarde pode ser financeiramente ineficiente, já que se trata de uma estrutura cara para transportar poucos passageiros.
Ele cita o exemplo de Paris, onde o metrô opera até as 2h15 às sextas e sábados, mas linhas de ônibus percorrem os mesmos trajetos, oferecendo uma alternativa eficiente, na avaliação dele. Segundo Biderman, o essencial é garantir transporte público seguro e acessível, sem obrigar a população a depender de aplicativos.
Em nota, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirma que não há demanda de passageiros que justifique a retomada da operação até 1h da manhã aos sábados. A pasta estadual diz que a ampliação do horário ocorre apenas em eventos específicos, como Réveillon, Virada Cultural e grandes jogos de futebol.
Segundo dados do Portal da Transparência do Metrô de São Paulo, a média de uso anual aos sábados era de 1,498 milhão de passageiros em 2019, caindo para 1,312 milhão em 2024. Aos domingos, a média passou de 932 mil em 2019 para 766 mil em 2024.
O impacto financeiro também se reflete na rotina de trabalhadores da noite. No Bar do Urso, no centro, o funcionário Felipe Violin, 25, que mora em São Mateus, na zona leste, afirma gastar parte relevante da renda em transporte por aplicativo devido à impossibilidade de utilizar o metrô após a meia-noite. “Um Uber até onde eu moro é muito caro. A gente precisa fechar o bar mais cedo para conseguir voltar para casa. Não faz sentido ter parado na pandemia e não ter voltado ainda, porque as ruas já estão cheias de novo”, disse.
Frequentadores relatam mudanças na forma de aproveitar a cidade. O publicitário Henrique Santos, 26, lembrou que antes da pandemia os sábados tinham uma dinâmica própria, já que era possível prolongar a noite com segurança. Hoje, segundo ele, quem sai precisa decidir entre voltar por volta das 23h ou permanecer na rua até às 4h40, quando o metrô reabre. “Pode parecer pouco, mas uma hora faz muita diferença”, afirmou, destacando que as ruas à meia-noite estão mais vazias do que em 2019.
Especialistas em economia urbana apontam que a redução tem efeitos além do lazer. Claudio Felisoni de Angelo, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, afirma que o fechamento mais cedo pode reduzir o movimento de bares e restaurantes, diminuir faturamento e eliminar empregos, além de afastar parte significativa do público que depende do transporte público. “O impacto é especialmente relevante porque 78% dos usuários noturnos do transporte usam o sistema para ir e voltar do trabalho.”