RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) – Roberta Avery tinha 28 anos, era atleta de golfe e trabalhava com comércio exterior quando conheceu o criquete, se apaixonou pela modalidade e começou a praticar. No ano seguinte, descobriu um câncer. Após o tratamento, decidiu traçar novos caminhos.
Ela se tornou jogadora e capitã da seleção brasileira de criquete. Aos 30, realizou um desejo da juventude e entrou para a faculdade de Educação Física, se especializou em marketing e gestão do esporte e, hoje, aos 40, é presidente da confederação em um ciclo histórico para a modalidade: novidade nos Jogos Pan-Americanos de Lima-2027 e retorno ao programa olímpico após mais de 120 anos.
“Eu tinha 18 anos quando me formei no colégio e queria muito fazer Educação Física. Àquela época, escutava muito dos meus pais que Educação Física não dava dinheiro, tinha todo aquele terrorismo. Fui fazer comércio exterior e trabalhei na área durante toda a minha vida. Com 28 anos, comecei a jogar críquete, mas no ano seguinte tive um câncer de tireoide. Passei uns dois anos nos perrengues até conseguir, realmente, voltar. E esses dois anos foram uma mudança na minha vida.”
“Eu falei: ‘não quero mais trabalhar com uma coisa que não é o que eu realmente desejo’. Queria levar o esporte para mais pessoas, dar mais oportunidades. Foi aí que eu decidi fazer Educação Física. Não sabia exatamente em que área, mas gostaria de trabalhar com esporte. Acabei a Educação Física com 30 e poucos anos e comecei a descobrir que eu queria estar na parte de gestão”, completou.
Natural de Poços de Caldas, Minas Gerais, Roberta foi goleira de handebol na adolescência e chegou ao golfe por influência dos pais. Ela conta que conheceu o críquete através do marido, Richard, e, rapidamente, começou a se dedicar à modalidade.
“Eu era atleta de golfe e me casei com um inglês. Ele foi chamado para ser professor de críquete em projetos de desenvolvimento em Poços. Depois de certa insistência, ele conseguiu me levar para um jogo e achei muito divertido. Me lembrou muito o ‘bet’, que jogamos na infância. No ano em que comecei a jogar, estavam fazendo o primeiro time de Poços de Caldas para disputar o nacional, e eu fui chamada. Ganhei o apelido de mãezona porque todas as meninas tinham uns 13, 14 anos.”
O convite para fazer parte da gestão aconteceu por meio de Matt Featherstone, ex-presidente da confederação, em 2018. Em junho, foi eleita e se tornou a primeira mulher a presidir uma confederação de críquete nas Américas.
“Temos um grupo de trabalho muito bom, ativo. Muita gente que quer levar o esporte para frente. Estar à frente dessa diretoria representa muito para mim. Fui atleta, virei capitã, virei gestora e, agora, a primeira presidente mulher da confederação. É algo que me orgulho bastante porque sempre joguei para poder inspirar novas meninas a jogarem. Levo muito a sério esse novo cargo para mostrar que mulheres também podem liderar e serem o ponto de referência de onde elas querem estar. Esse legado é algo que eu levo com muita força dentro dos meus planos.”
O QUE MAIS ELA FALOU?
Críquete no programa de Lima 2027 e Los Angeles 2028: “Sabíamos da possibilidade do críquete, que é o segundo esporte mais praticado do mundo, entrar para os Jogos Olímpicos. Ficamos muito felizes, mas também temos conhecimento que não necessariamente significava que o Brasil vai conseguir ter essa vaga. Nas Olimpíadas, vão ser só seis equipes, tanto no feminino quanto no masculino.”
“Mas o críquete se tornar olímpico abre um papel muito forte para o desenvolvimento. Agora, somos filiados ao COB [Comitê Olímpico do Brasil] e queremos desenvolver a alta performance. Isso tem moldado os nossos passos. Desde julho, a nossa seleção masculina também é uma seleção profissional contratada. Desde 2020 só tínhamos a feminina contratada, trabalhando, treinando e tendo um acompanhamento mais de perto. E isso vem da questão de pensar nas Olimpíadas, em como desenvolver a nossa alta performance por completo. E os pan-americanos vêm complementando isso. Ficamos muito felizes que já em 2027 o críquete entra e sabemos que temos chance de participação e chance de medalha.”
Você citou o bet dos tempos de infância. “O que estamos fazendo? Mostrando o que o brasileiro conhece o críquete. O brasileiro joga bet, joga taco, joga o jogo da lata. O críquete está, de certa forma, na nossa cultura de criança. É mostrar que isso é um esporte, isso é um esporte olímpico. Conseguir apresentar mais nas escolas, ter mais alianças com clubes e trazer essa geração de crianças que estão aprendendo para esse caminho. Vejo muito potencial, até 2030, no número de praticantes que vamos ter, justamente por essa curva de crescimento nosso estar sendo bastante estável.”