SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Luis Fernando Verissimo, mestre do humor refinado e das ironias do cotidiano, morreu neste sábado (30). O que muitos não lembram é que o escritor dedicou parte de suas crônicas a uma fonte inusitada de inspiração: a apresentadora Patrícia Poeta.
Muito antes dela se tornar uma das principais jornalistas da Globo, ainda como garota do tempo do Jornal Nacional, Verissimo já registrava com graça e timidez seu encantamento por cada detalhe.
Em textos publicados a partir de 2001, o cronista transformava o noticiário em poesia e Patrícia em personagem. “Hoje ela está de cabelo preso. Acho que prefiro solto. Máxima de 55 no Rio. Máxima é ela. Ou será mínima? Se for baixinha, é uma grande baixinha”, escreveu em uma das passagens mais lembradas.
A admiração, no entanto, ia além da aparência. Verissimo descrevia a jornalista comparando-a ao pôr do sol, às estações do ano, ao arco-íris e até ao calor de um dia de verão. A graça estava justamente em misturar lirismo com humor autodepreciativo. “E se ela responder? Meu Deus, se ela pedir uma fotografia? Mando aquela minha de cadete, na praça. Como vai saber que é de 1954?”, ironizou em uma de suas crônicas.
O escritor chegou a mencionar, com seu estilo brincalhão, a AAPP Associação dos Adoradores da Patrícia Poeta. Em tom de chiste, dizia que seus membros sofriam ao suspeitar que a apresentadora usava uma aliança. “Como meu interesse no assunto é puramente estético e, digamos, avuncular, não compartilho da agonia, mas assino o requerimento”, registrou.
Ao longo dos anos, Verissimo celebrava cada conquista de Patrícia: quando passou a aparecer de corpo inteiro nas previsões do tempo, quando assumiu novos formatos no Jornal Hoje e, mais tarde, quando retornou ao Jornal Nacional. “Que bom! Agora teremos poesia todos os dias”, escreveu em 2011, transformando a notícia em nova declaração literária.
A relação entre os dois, marcada pela admiração à distância, acabou rendendo encontros reais. Patrícia recorda com carinho da primeira vez em que viu o escritor pessoalmente, no Programa do Jô. “Antes de conhecer o Verissimo, nos tempos de escola, era uma grande admiradora de seus livros e suas crônicas. Conheci o Verissimo no Programa do Jô, quando o Jô Soares fez uma surpresa pra ele. Eu estava escondida no meio da plateia, quando ele me chamou. E o coração?! Rsrs. Era muito tímida, na época. Ele também”, contou em entrevista à revista Gente que faz.
A jornalista também revelou à Quem que até hoje guarda com afeto os textos que recebeu de presente. “Ele fez um texto lindo para mim, recebi no dia do meu aniversário. Esse artigo está emoldurado perto do meu closet. Tem uma foto minha ao lado do texto. É sobre minha época como moça do tempo”, disse Patrícia, que na época era casada com o diretor Amauri Soares. Com bom humor, ela acrescentou: “Ele diz que Verissimo é o único homem que pode escrever sobre a mulher dele.”