SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um sofá abandonado em um gramado qualquer, amplo e solitário, uma mesa posta para sete pessoas, em que não é possível ver o rosto de nenhuma delas. Ou, ainda, um rapaz vestindo uma camiseta rosa do Messi, sozinho no balcão de um bar. Essas são as fotos que compõem “Exteriores”, nova exposição de Bob Wolfenson que abre no Unibes Cultural, em São Paulo.

Há um quê de vazio e solitário em todos os cliques, distantes dos retratos chamativos de celebridades como Fernanda Montenegro e Rita Lee, que fizeram de Wolfenson um dos fotógrafos brasileiros de maior prestígio. “É uma exposição que só posso fazer porque estou velho”, diz ele, em entrevista, repetindo o que ouviu de um amigo. A palavra não o incomoda, ele afirma.

Agora, com 55 anos de carreira, ele se sente seguro. “Posso me libertar de todos esses grilhões de fotógrafo de moda, disso e daquilo. É um trabalho livre. Nesse sentido, ele é transgressor, porque não preciso prestar contas a ele”, afirma.

“Exteriores” é, talvez, o trabalho de Wolfenson mais subjetivo. Ele já havia experimentado além dos retratos em 2004, quando fez “Antifachadas”, uma série que dava cara ao caos urbano de São Paulo ao mostrar seus prédios e edifícios.

Nos anos seguintes, fez ainda “Apreensões”, em que capturou em imagens objetos apreendidos pela polícia em todo o país, de metralhadoras a caça-níqueis, “Belvedere” e “A Caminho do Mar”, em que ele percorreu paisagens de Minas Gerais e Cubatão, por onde viajava com os pais quando criança. Em 2015, com “Nós Outros”, flagrou pedestres em diferentes cidades do mundo enquanto esperavam o farol abrir para atravessar a rua.

O fio condutor de “Exteriores”, porém, é mais uma sensação. “São lugares ordinários e estranhos, meio fora do eixo, fora do que seria sancionado como belo. Algo inesperado”, diz Wolfenson. As fotos passaram anos, algumas décadas, guardadas nos arquivos de seu estúdio.

A ideia de reuni-las em uma série surgiu no ano passado, depois que uma forte chuva inundou o local. Quando foi arrumar o estrago, Wolfenson se deparou com vários cliques que tinha esquecido de ter tirado, entre viagens, trabalhos e outras andanças.

Com a ajuda Ana Tonezzer, assistente que também assina a curadoria da exposição, ele reuniu algumas imagens que se complementavam pela estranheza.

Em outro clique, por exemplo, um homem sai de uma das cabines de um banheiro público estranhamente fotogênico em Xangai, na China. Com roupas formais, ele parece ter parado para se aliviar antes de seguir para o escritório. Sozinho, no brancor de um dia de inverno, ele evoca até ternura.

O desastre também deu vida a outra exposição, “Sub/Emerso”, no final de 2023, que mostrou fotos modificadas pelo efeito da água e da umidade. Uma delas, por exemplo, é o famoso retrato de Fernanda Torres aos 29 anos, que posava nua, segurando o rosto, com os braços na frente dos seios. Dessa vez, porém, uma espécie de névoa branca irradiava pelas extremidades da foto, em direção ao corpo da atriz.

Enquanto as imagens de “Sub/Emerso” surgiram com a interferência externa sobre o trabalho do fotógrafo, permitindo novas interpretações, Wolfenson classifica “Exteriores” como fotos de observação. Elas provam a sua teoria de que “qualquer coisa é digna de ser fotografada”.

“A fotografia é sempre uma ficção. Alguém que está olhando para aquilo, escolhendo aquele ângulo e contando aquela história daquele ponto de vista subjetivo. Nesse sentido, esse trabalho afirma esse não alinhamento com a representação explícita da realidade”, diz.

EXTERIORES

– Quando De 26/08 a 26/10. De quarta a domingo, das 12h às 19h.

– Onde Unibes Cultural -rua Rua Oscar Freire, 2.500

– Preço Grátis

– Classificação 16 anos