PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Quando era criança, o professor Tiago Nhandewa gostava de brincar de subir em árvores e nadar no rio. Ele brincava muito com estilingue, arco e flecha e fazia seus próprios brinquedos com coisas que achava na natureza, como madeiras e pedras. O artista Denilson Baniwa também se lembra de inventar seus próprios brinquedos e de fazer brincadeiras de mergulho no rio e corrida.

Tiago e Denilson nasceram em aldeias indígenas, em diferentes estados, afastados dos grandes centros urbanos. Ambos estiveram na edição deste ano da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) contando histórias das suas infâncias e falando sobre seus livros, inspirados nessas memórias de pequenos.

Nhandewa é autor do livro “Nhandewa Onimangá”, que é um “manual” de brincadeiras indígenas do povo Nhandewa, e Baniwa escreveu “A Jabota Poliglota”, inspirado em conto indígena sobre uma jabota (que é a fêmea do jabuti) que fala várias línguas e consegue se comunicar com vários animais da floresta.

Na época deles, os lugares onde eles cresceram não tinham celular nem televisão -na aldeia do Tiago não tinha nem energia elétrica-, então as crianças brincavam muito durante os dias e, à noite, contavam e ouviam histórias dos adultos. “A gente ia dormir bem tarde, depois das rodas de histórias, então fazíamos brincadeiras de assombração, correndo uns atrás dos outros no escuro, ou brincávamos de catar vagalumes”, conta Tiago, que nasceu em uma aldeia no Paraná.

Algumas brincadeiras como amarelinha, pega-pega e de roda também são comuns entre as crianças das aldeias, mas muitas outras são inspiradas no modo de vida dos indígenas, como a brincadeira da ema e o jogo da mandioca, ou têm origem entre os povos indígenas, como o jogo de peteca -que virou até um esporte.

As brincadeiras de quando eles eram pequenos dependiam muito do entorno de onde eles viviam. Para eles, as crianças indígenas têm muito mais liberdade para brincar ao ar livre e, por isso, as brincadeiras são diferentes das de crianças que vivem nas cidades. “Existem regras e tarefas nas aldeias, mas as crianças estão sempre brincando, antes e depois da escola todos os dias, e elas têm muito espaço”, comenta Tiago.

Como acontece em diferentes sociedades, muitas brincadeiras imitavam a vida dos adultos. Nas cidades, as crianças brincam com carros em miniatura ou com panelinhas, enquanto nas aldeias, elas brincam com arcos e flechas, fazem miniaturas de paneiros (cestos usados na coleta de frutas) e de armadilhas para pegar peixes no rio, simulando atividades como a caça, a pesca e o plantio, comuns nas comunidades indígenas.

“As crianças disputavam quem pegava mais peixe, quem mergulhava mais fundo, quem nadava mais rápido”, relembra Denilson, que nasceu no Amazonas. “Ser adulto é uma responsabilidade muito grande, então as crianças têm a liberdade de aprender, de errar e tempo de experimentar o que elas vão ser quando crescerem”, afirma o escritor.

As brincadeiras nas aldeias também ajudam a manter a cultura de cada povo viva, porque elas são ensinadas e passadas de geração para geração. “Muitas crianças não querem mais aprender as línguas indígenas, mas as escolas têm fortalecido esse aprendizado e brincar no idioma local ajuda no aprendizado”, comenta Tiago.

De maneira geral, as brincadeiras fazem parte do processo de aprendizado sobre a vida em coletivo, e isso é ainda mais presente na vida nas comunidades indígenas. “Nas aldeias, todo mundo é um pouco pai e mãe, todo mundo pode brigar com uma criança que faz alguma coisa errada, os amigos são como irmãos”, conta Denilson. Brincando, as crianças indígenas aprendem que elas estão ligadas à natureza e a todos em volta e, assim, entendem que elas não são indivíduos sozinhos naquela comunidade.

De acordo com os escritores, nas aldeias, até os adultos participam de vários jogos das crianças no cotidiano, o que pode ser um pouco diferente da vida agitada dos centros urbanos. “Nas cidades, brincar é coisa só de criança, mas os indígenas são muito brincalhões, eles brincam muito mais nas comunidades do que nas cidades”, conta Tiago. Denilson concorda: “Brincar torna a vida um pouco mais leve, é bom ser criança às vezes.”

CONHEÇA ALGUMAS BRINCADEIRAS INDÍGENAS

PETECA

Você sabia que esse brinquedo tem origem indígena? Com o tempo, ela virou até um esporte, mas, entre as crianças, faz parte de uma brincadeira muito divertida. Em tupi, a palavra peteca quer dizer “bater com a mão”.

BRINCADEIRA DA EMA

É uma brincadeira de roda que funciona assim: as crianças se dão as mãos e formam um círculo. Uma das crianças fica no centro da roda e é a “ema” que precisa escapar. Quando ela consegue fugir, todo mundo precisa correr atrás dela para pegá-la. Quem conseguir capturar a ema, vira a próxima ema na rodada seguinte.

JOGO DA MANDIOCA (OU DA ABÓBORA)

Essa brincadeira muda de nome de acordo com a planta que é mais importante para cada povo indígena, mas ela acontece em diferentes aldeias e a ideia é a seguinte: são formados dois times, uma criança de cada time abraça um tronco (ou um poste) sentada e as outras crianças se enfileiram atrás dela. Elas são as mandiocas presas ao chão, então o objetivo de cada equipe é “arrancar” as plantas do time oposto. Os jogadores precisam usar a força (ou cócegas) para puxar uns aos outros, o que gera muitas risadas.

VIVO MORTO EM LÍNGUA GUARANI-NHANDEWA

É a clássica brincadeira do vivo-morto, em que, ao ouvir a palavra “vivo”, você tem que ficar de pé e, ao ouvir “morto”, deve se abaixar. As crianças ficam na frente de um “mestre” que vai ditar os comandos. Quando ele disser “manõ”, elas devem se agachar, e quando a ordem for “ikowé”, elas devem ficar de pé.