RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Por trás da realização da Rio Climate Action Week, a primeira semana do clima do Rio de Janeiro, um assunto prevaleceu: a crise dos preços de hospedagem em Belém para a COP30, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas.

Malini Mehra, uma das fundadoras e organizadoras do evento que terminou nesta sexta-feira (29), afirmou que parte da programação foi planejada para envolver quem não poderá participar da cúpula na capital paraense devido aos custos altos.

“Não vou dourar a pílula sobre o fato de que é um desafio e muitas pessoas ficarão de fora”, disse à Folha após um evento com deputados e senadores brasileiros e estrangeiros na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

“Organizamos o fórum parlamentar pré-COP porque sabemos que muitos parlamentares não poderão ir a Belém. Eles querem se envolver e é por isso que estão se engajando aqui”, afirmou.

Para ela, a questão logística dominou as conversas desde o início, mas elogia a escolha de sediar a conferência na amazônia. “É muito importante que a periferia esteja envolvida de forma proeminente nas discussões. Mas é totalmente compreensível que isso crie desafios logísticos, Belém teve que ir de zero a cem em um curto espaço de tempo.”

O número de países com hospedagem confirmada para o evento chegou a 61, segundo os organizadores da COP30. Isso representa pouco mais de 1/4 das 198 nações que compõem a cúpula, e um aumento de 30% com relação aos 47 divulgados no último dia 22, quando o governo federal anunciou uma força-tarefa para tratar da crise dos preços de hotéis em Belém.

Ana Toni, CEO da COP30, participou da Rio Climate Action Week e afirma não enxergar uma relação entre a programação na capital carioca e a logística da conferência da ONU. “As semanas de clima estão pipocando, o que é muito bom, porque mostra que o tema está sendo debatido a nível local também, dando a oportunidade a todos que estão nas cidades”, disse.

Jens Nielsen, CEO da World Climate Foundation, organização internacional que promoveu eventos durante a semana de clima, participa de COPs há 16 anos e disse esperar que os preços baixem às vésperas da conferência.

“Não consigo legitimar os custos, é algo prático que precisa ser resolvido, e eu tenho certeza de que eles estão trabalhando nisso”, afirmou. “Mas não é a primeira vez que eu vejo problemas de acomodação como este.”

Ele se refere à COP26, que aconteceu em Glasgow em 2021, quando os preços também subiram. Um levantamento da Folha mostrou que a capital escocesa teve uma alta de até 1.676% nas tarifas de hotéis no período do evento. Em Belém, o crescimento chega a 3.471%.

“Se tem uma COP na amazônia e queremos o engajamento dos povos indígenas, não espere que você possa ficar em um hotel de seis ou cinco estrelas, vá lá para trabalhar”, disse.

Nielsen afirmou que a World Climate Foundation facilitará a hospedagem de ao menos 700 pessoas de cem entidades parceiras de diversos locais do mundo durante o período da conferência deste ano. É a primeira vez que a organização financia a estadia de um grupo tão numeroso.

“Antes era um serviço amigável, agora é mais para ter certeza de que nossos parceiros tenham um lugar para ficar”, contou.

*O repórter viajou a convite do Observatório Interdisciplinar das Mudanças Climáticas