SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No mercado de alto padrão, onde cada metro quadrado conta e a concorrência é acirrada, a Setin aposta em se diferenciar pelo valor agregado de seus empreendimentos. Para Bianca Setin, que divide a liderança da incorporadora com o pai, Antônio Setin, e se prepara para assumir a sucessão, o cliente de alta renda escolhe além de localização e metragem, quer “o que oferece propósito, experiência e identidade”.
As certificações de sustentabilidade são parte do diferencial estratégico. Empreendimentos com selos ambientais e de bem-estar, afirma Bianca, não só atendem a uma demanda crescente do cliente de luxo, como também agregam valor tangível ao produto.
“Hoje o cliente ainda não paga mais, mas ele vê valor. Eu acredito que se eu tiver lado a lado o meu produto com o produto de um concorrente que não tem esse valor agregado, o cliente vai escolher pelo meu”, afirma Bianc Setin.
O posicionamento se traduz para a linha Alma Brasileira, que se tornou o DNA da empresa, presente desde a escolha dos terrenos até os detalhes de arquitetura e design dos empreendimentos, com um forte pilar de sustentabilidade e valorização da cultura nacional.
Programas de formação profissional, em especial o da inclusão de mulheres no canteiro de obras de empreendimentos Minha Casa, Minha Vida da Setin, também estão nas mãos de Bianca. Ela enxerga o investimento como uma das saídas para enfrentar a escassez de mão de obra na construção civil.
“Eu não quero formar essas mulheres para pôr no mercado, eu quero formar essas mulheres para formar times nossos da nossa construtora”, afirma. Confira os principais trechos da entrevista.
PERGUNTA – A Setin se posicionou como referência no mercado de alto padrão em São Paulo. Como a empresa chegou a essa decisão de foco?
BIANCA SETIN – A Setin sempre teve um viés muito grande para o médio alto, que era nosso carro-chefe, além dos estúdios no centro. No momento, porém, nosso foco é alto padrão e luxo.
Obviamente que a gente tem que ficar bastante atenta ao mercado, porque é um setor de de ciclo longo. E vai ter uma demanda reprimida no segmento de médio alto quando as taxas de juros de financiamento bancário diminuírem.
Estamos focados nas zonas sul e oeste de São Paulo, em bairros como Itaim, Paraíso e Pinheiros. Buscamos terrenos que ofereçam mobilidade, cultura, gastronomia e saídas estratégicas, como a região do Ibirapuera e Jardim Paulista.
P. – Quais são os principais desafios que a Setin identifica no mercado imobiliário brasileiro?
BS – Um dos maiores desafios é a taxa de juros, principalmente para a classe média e média alta, nas quais a parcela do financiamento pode chegar a dobrar de valor. Há também a dificuldade em conseguir o crédito e comprovar renda, já que o normal é dar 20% de sinal e financiar o restante. Então eles não conseguem comprovar a renda.
Outro desafio é a questão da mão de obra. Programas como o Bolsa Família e a ascensão de trabalhos informais -como motoristas de Uber e entregadores de iFood- acabam tirando trabalhadores do setor formal, que exigem mais esforço físico e exposição. Acho que é um desafio do Brasil trazer essa mão de obra ativa novamente.
Não estou falando que sou contra [programas sociais], eu só acho que deveria ser transitório. A gente de um jeito ou outro vai ter que achar métodos construtivos que supram essa falta de mão de obra. Mas tem uma questão estrutural no Brasil que precisa ser vista também.
P. – A escassez de mão de obra é uma preocupação antiga. Além da industrialização, que outras frentes a Setin está explorando para mitigar esse problema?
BS – A industrialização é um caminho mais fácil para o Minha Casa, Minha Vida devido à padronização, mas complexa para o alto padrão onde cada terreno tem características únicas. No entanto, temos outras frentes.
Já possuímos o programa Mestres da Obra, que oferece subsídio educacional e transforma resíduos em arte. Agora, somos pioneiros no lançamento de um programa de formação de mulheres em canteiro de obra na Mundo do Apto, empresa do grupo focada no Minha Casa, Minha Vida. Eu mesma acompanho de perto.
Começaremos com formação para assentamento de piso e instalações. O objetivo não é apenas formar para o mercado, mas criar times internos para a nossa construtora. Essa iniciativa conta com parceria da ONG Mulheres em Construção, que nos auxilia no monitoramento por um ano e na designação de padrinhos ou madrinhas nas obras, considerando questões como assédio e necessidades específicas das mulheres.
Minha intenção é expandir o treinamento para funções menos braçais, como operadoras de cremalheira e maquinário, para que o ambiente de obra se habitue à presença feminina em outras áreas além da limpeza e operação de elevadores.
P. – O Alma Brasileira se tornou o DNA institucional da Setin. Como surgiu esse conceito?
BS – Surgiu organicamente e de forma natural. Percebemos isso após a entrega do nosso oitavo empreendimento de estúdios no centro de São Paulo, que tinha uma cara brasileira nas cores e na integração do verde, e no sucesso do Hi Pinheiros, que valorizou a produção local. Meu pai, Antônio Setin, e eu nos demos conta de que fazíamos empreendimentos com tanta raiz, paixão pelo design, arte e natureza brasileiros, que decidimos elevá-los a um pedestal.
A ideia é que o Alma Brasileira remeta a memórias afetivas, seja por um detalhe, um cheiro ou uma comida, valorizando o que o Brasil tem de melhor. Isso se traduz nos empreendimentos de diversas formas: nos estandes de vendas, temos arquitetas que acolhem os clientes e contam a história do empreendimento, dos designs e artistas.
Na arquitetura e design, por exemplo, o Ibiatã, no Paraíso, evoca a terra, com ladrilhos e palha, remetendo às nossas raízes e com peças de Hugo França. Já o Tessá, no Itaim, se adapta ao perfil mais cosmopolita do bairro, com fachada em concreto aparente, vidro e linhas retas. Incluímos móveis garimpados de Sérgio Rodrigues, obras de arte de Jader Almeida e uma escultura exclusiva de Artur Lescher para o lobby, com espelho d’água. O designer baiano Nildo José desenhou painéis de madeira exclusivos.
Somos pioneiros em sustentabilidade. Em 2004, recebemos a ISO 14.001 e lançamos a linha Mundo Apto com reuso de águas cinzas, fachadas pré-moldadas e placas solares. Todos os produtos Alma Brasileira são certificados, como o Ibiatã com selos EDGE (eficiência energética, hídrica e materiais) e Fitwell (bem-estar dos moradores), e o Tessá com pré-certificação Aqua.
A vegetação é toda nativa. A irrigação normalmente vem das águas pluviais, que a gente reaproveita.
O lançamento institucional do Alma Brasileira foi no Museu da Casa Brasileira e um evento carbono zero. O conceito de luxo discreto também é fundamental, valorizando quem entende o valor de um Sérgio Rodrigues ou de uma escultura de Artur Lescher.
P. – Qual a importância de ter empreendimentos certificados em sustentabilidade e como o cliente percebe esse valor agregado?
BS – A importância é, primeiramente, o alinhamento com nossas práticas e crenças de ESG. A Setin já está no segundo ano de emissão de relatório de sustentabilidade no padrão GRI e neutralizamos todas as emissões de carbono em nossos eventos de lançamento e estandes de vendas.
No canteiro, nossas premissas sustentáveis e sociais são levadas em consideração. Além disso, temos o Projeto Acolher para nossos colaboradores, com três pilares: saúde mental, com rodas de conversa e tratamento psicológico individual subsidiado por seis meses; planejamento financeiro, com palestras de educação e orientação profissional; e saúde física, com incentivo à prática de exercícios e convênios com academias.
Acreditamos que, embora o cliente ainda não pague mais por um produto certificado, ele percebe o valor agregado. Diante de opções similares, ele escolherá o empreendimento com esse diferencial. Nossa equipe de vendas é extensivamente treinada para comunicar esses valores.
P. – No segmento de altíssimo padrão, as áreas comuns são um grande diferencial. Quais são as novidades e tendências que a Setin tem incorporado?
BS – Hoje, não olhamos terrenos abaixo de 2.000 m², e os apartamentos estão maiores, com áreas comuns mais completas. As principais tendências e novidades incluem duas academias: uma para musculação e outra para cardio, com equipamentos de última geração, como os da Technogym; piscinas: com raia de 25 metros, cobertas e descobertas; salões de festas maiores e versáteis, que se comunicam com áreas externas jardinadas e abraçadas por verde, trazendo aconchego e qualidade de vida; churrasqueiras integradas; área de delivery super completa: com lockers [armários] inteligentes que se comunicam com os sistemas de entrega e Correios, geladeira, cabideiro e prateleiras, oferecendo segurança e comodidade para os moradores.
O pet place se tornou muito procurado e valorizado devido à importância dos animais de estimação. E a parte de sauna está cada vez mais sendo procurada, a parte de wellness. Você tem os clubes de São Paulo, mas empreendimentos mais afastados, onde a pessoa não é sócia de um clube, por exemplo, ela usa tudo que está dentro do condomínio. Personal que vai na tua casa, aula de natação para o teu filho é dada dentro de casa. A vida que a gente tem em São Paulo, que é essa vida dinâmica demais. Qualquer deslocamento em quilômetros, poucos quilômetros, você demora uma hora. A prioridade é a prática de esporte mesmo, saúde.
P. – A Setin também atua no segmento de Minha Casa Minha Vida com a Mundo do Apto. Como a empresa se diferencia nele?
BS – A Mundo do Apto atua em um mercado mais pulverizado. Estamos presentes na Freguesia do Ó, Piqueri, Barra Funda, Lapa, Campo Belo, Vergueiro, Francisco Morato, e estamos entrando na faixa quatro [do programa].
O público é de primeiro imóvel, com foco no sonho da casa própria e no que o bolso permite. É um mercado com dinâmica mais rápida, que gira mais do que o alto padrão. Nossos empreendimentos, apesar de atenderem esse público, possuem áreas comuns completíssimas e são muito bem localizados, próximos a estações de metrô.
P. – Como é estar numa empresa familiar no Brasil e se preparar para assumi-la em alguns anos?
BS – É um privilégio que exige equilíbrio entre respeito à tradição e visão de futuro. É fundamental investir em capacitação técnica e comportamental, além de promover a profissionalização da gestão e a implementação de governança corporativa sólida.
Acredito que a chave para uma transição bem-sucedida está na combinação de respeito às raízes familiares com a capacidade de adaptação às mudanças do mercado e às novas demandas da sociedade. Com planejamento, capacitação e governança, é possível garantir que a empresa familiar continue a prosperar por gerações.
RAIO-X
Bianca Setin, 45
Formada em arquitetura e urbanismo, está há 26 anos mercado imobiliário. Atuou em diversas áreas dentro da incorporadora. foi CFO e COO e, hoje, é vice-presidente da Setin, empresa fundada por seu pai, Antônio Setin. Formada pela Harvard Business School – OPM (Owner, President Management Program), completou recentemente o curso para Conselheiros de Administração no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) e participa de iniciativas de liderança feminina, como o programa EY Entrepreneurial Winning Women(TM) Brazil, no qual atua como mentora. Está em processo para assumir a liderança da incorporadora, tornando-se uma das poucas CEOs mulheres no setor