BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – A divulgação dos áudios que revelam um suposto esquema de corrupção na compra de medicamentos e que implicam a irmã do presidente Javier Milei, Karina, já é a maior crise para o ultraliberal até aqui e pode complicar para o governo o que pareciam ser eleições legislativas tranquilas.
Nos últimos dias, as gravações atribuídas ao ex-diretor da Andis (Agência Nacional para Pessoas com Deficiência), Diego Spagniolo, se tornaram o grande tema na Argentina. Tanto ele quanto empresários da Drogaria Suizo Argentina -empresa responsável pela distribuição dos medicamentos- tiveram celulares e documentos apreendidos por pedido do Ministério Público e novos áudios surgem todos os dias.
Uma auditoria preliminar feita pelo próprio governo identificou sobrepreço de quase 30% em uma compra feita pela Andis à Suizo Argentina. Nesta sexta-feira (29), uma operação da Polícia de Buenos Aires fez buscas em três sedes da Andis.
Como se já não fosse grave para o governo, o escândalo ocorre às vésperas das eleições legislativas na província de Buenos Aires, a mais populosa do país e que vai eleger 23 senadores e 46 deputados em 7 de setembro. A disputa, que em outros momentos ganharia menos atenção da Casa Rosada, virou uma disputa de forças entre Milei e o governador, o peronista Axel Kicillof.
O pleito local também será uma prévia das eleições de 26 de outubro, quando todos os argentinos vão renovar 24 cadeiras no Senado e 127 da Câmara de Deputados Nacional.
Na avaliação de analistas ouvidos pela reportagem, o desgaste de Milei é nítido. “As eleições nacionais ainda serão em dois meses, o que é uma eternidade na Argentina, mas a reta final das eleições provinciais está se complicando para o governo”, avalia Miguel De Luca, cientista político e professor da Universidade de Buenos Aires.
As eleições seriam uma oportunidade de Milei renovar o contrato social estabelecido com os argentinos em 2023 e ganhar cadeiras no Legislativo. Mas além do escândalo, a redução da atividade econômica levou o Executivo a chegar mais fragilizado do que antecipava às urnas.
“A regra geral na Argentina é esta: se a economia vai bem, os escândalos de corrupção não afetam o desempenho eleitoral do governo. E o caso Andis é pior para o governo porque a situação econômica agora é mais complicada do que na época do escândalo do criptoativo $Libra [promocionado por Milei nas redes sociais e que é investigado nos Estados Unidos].”
De Luca lembra que o governo, que não tem maioria nas Casas, vem acumulando derrotas sucessivas no Parlamento -de 17 votações no Congresso desde abril, Milei perdeu 16.
O especialista também aponta que o ataque com pedradas a Milei e sua comitiva em um ato de campanha na Grande Buenos Aires na quarta-feira (27) deve ter pouco impacto eleitoral. “O incidente é lamentável e repreensível. No entanto, hoje há apenas duas questões na agenda pública: a situação econômica e o escândalo das gravações.”
Diferentes levantamentos divulgados nos últimos dias também mostram uma queda de confiança na gestão Milei. A M&F (Management & Fit) foi uma das primeiras consultorias a fazer um levantamento do impacto do escândalo dos áudios, nos dias 25 e 26 de agosto, por telefone e pela internet.
Segundo a cientista política Lara Goyburu, diretora executiva da consultoria, o nível de conhecimento sobre o caso é muito alto (94,5%) e a maioria o considera grave (73,2%). “O partido governista já passava por um momento difícil, e este episódio agrava ainda mais a situação: mais de 60% atribuem responsabilidade a Javier e Karina Milei.”
Goyburu pondera que as pesquisas ainda apontam um voto consolidado para as eleições legislativas, o que pode dar esperanças para Milei. “Em contextos de alta polarização, apoio e rejeição tendem a se consolidar. O que esse tipo de episódio ainda pode gerar é uma deterioração na percepção do governo e do clima político geral, o que afeta a campanha eleitoral.”
O desgaste do governo perto das eleições fez os argentinos lembrarem de um outro caso emblemático: a divulgação da foto de uma festa da família do ex-presidente Alberto Fernández na residência de Olivos durante a pandemia de Covid-19, quando as regras de afastamento social ainda eram rígidas, perto do pleito de 2021.
“Uma base de eleitores de A Liberdade Avança, que agora vê seus salários caírem e cujas condições de vida estão piorando, precisa engolir a investigação de propinas”, diz o deputado opositor Christian Castillo, da Frente de Esquerda Unidade-PTS, que também fez oposição ao governo de Fernández.
“Ainda é prematuro determinar o impacto eleitoral que o escândalo pode ter, mas a verdade é que ele é um golpe na credibilidade e na legitimidade de um governo que disse ter vindo para confrontar e combater as castas”, diz o parlamentar.
Na quinta-feira (28), Spagnuolo se apresentou à Justiça para designar um advogado para defendê-lo no caso. O gesto do ex-diretor marca uma ruptura com o governo, que havia oferecido a ele um advogado de defesa antes que o caso ganhasse proporções maiores.
Agora, além do surgimento de novos áudios, a possibilidade de o ex-advogado pessoal de Milei se tornar um colaborador nas investigações também preocupa a Casa Rosada.
Embora a voz atribuída a Spagnuolo nas gravações dê a entender que ele não era beneficiado diretamente, mas que havia tentado denunciar a corrupção a Milei, a resposta do governo tem sido responsabilizar o ex-diretor.