SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um novo estudo apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia (ESC 2025) mostrou que a vacinação contra herpes-zóster pode reduzir o risco de sofrer ataque cardíaco e acidente vascular cerebral (AVC).

A descoberta faz parte da primeira revisão sistemática global e meta-análise, que revelou a associação entre a vacina que previne a herpes-zóster e um risco menor de eventos cardiovasculares. Segundo o estudo, houve uma redução de 18% e 16% em adultos com 50 anos ou mais e com 18 anos ou mais, respectivamente.

O levantamento analisou 19 estudos nos quais foram avaliadas de forma abrangente as evidências relativas à associação entre a vacinação contra o herpes-zóster e a saúde cardiovascular. Os dados apontam que, em média, a cada mil pessoas vacinadas, de 1 a 2 deixam de sofrer um infarto ou AVC por ano, o que significa que a diferença na taxa absoluta variou de 1,2 a 2,2 eventos anuais a menos por 1.000 pessoas vacinadas.

Já se sabe que infecções virais, como Covid-19 e influenza, podem causar inflamação nos vasos sanguíneos e servir como gatilho para eventos cardiovasculares, especialmente em pessoas com predisposição.

Pesquisas anteriores mostraram que há um risco temporário maior de AVC e infarto após o herpes-zóster. Acredita-se que o vírus varicela-zóster (VZV) possa atingir vasos sanguíneos de diferentes calibres na região da cabeça, provocando inflamação e alterações vasculares, o que aumentaria a probabilidade de complicações como o AVC. Nesse contexto, a vacinação surge como uma forma indireta de prevenir também doenças como trombose e infarto.

Entretanto, há alguns fatores limitantes na meta-análise. Os estudos incluídos visavam principalmente investigar o uso da vacina contra o herpes-zóster para prevenir a infecção na população geral, o que pode limitar a capacidade de generalizar a pesquisa para pessoas com maiores riscos cardiovasculares. Quase todas as evidências vieram de estudos observacionais, os quais são suscetíveis a vieses e não devem ser usados para inferir causalidade.

Além disso, o autor do estudo e diretor médico associado global da GSK -que encomendou o estudo- afirma que outros levantamentos precisam ser feitos para verificar se essa associação pode ser de fato atribuída ao efeito da vacina contra herpes-zóster.

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, ressalta que os estudos disponíveis são populacionais, não controlados, mas ainda assim trazem evidências consistentes e estatisticamente significativas de benefício. Para ele, esse é mais um motivo para reforçar a importância da vacinação.

“Esses estudos populacionais conseguem demonstrar claramente a vantagem da vacinação”, afirma. “É mais um dado e mais um motivo para as pessoas se vacinarem contra todas as doenças, e com o herpes-zóster também.”

Por fim, o consenso clínico da Sociedade Europeia de Cardiologia é o de que as vacinas devem ser vistas como um quarto pilar de prevenção de doenças cardiovasculares, além de anti-hipertensivos, medicamentos para baixar o colesterol e medicamentos para tratar diabetes. As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte em todo o mundo e essa seria uma ampliação da estratégia de prevenção.