(FOLHAPRESS) – O clichê da estrela adolescente que se torna uma cantora pop que vende a própria sexualidade é um dos mais comuns da indústria fonográfica nos anos 2000. Temos Britney Spears, Christina Aguilera, Miley Cirus e outras inúmeras paródias na ficção –como a problemática Sarah Lynn, da animação “BoJack Horseman”.
Era de se esperar, então, que o público não se escandalizasse mais com a sensualidade de ex-atrizes mirins. Mas a figura de Sabrina Carpenter tem provado o contrário desde sua explosão na música -que, apesar de uma carreira que já data de uma década, só aconteceu no ano passado, com seu sexto álbum, “Short n’ Sweet”.
Nesta sexta, a cantora, que foi recentemente anunciada como uma das principais atrações do festival Lollapalooza do ano que vem, dá continuidade ao seu bom momento com o lançamento de “Man’s Best Friend”.
Carpenter tem 26 anos, mas está sob os olhos do público desde os dez, quando começou a aparecer em pequenos papéis em séries como “Law & Order” e “The Goodwin Games”. Em 2013, ela estrelou a sitcom “Girl Meets World”, da Disney.
Ter um passado na Disney pode ser meio caminho andado para uma carreira musical de sucesso, mas Carpenter demorou um pouco para chegar lá. Ela lançou seu primeiro single, pela afiliada da Disney Hollywood Records, em 2014. Mas o reconhecimento só começou a chegar quando a americana assinou com a Universal Music, em 2021 e, na esteira do lançamento de seu quinto álbum “Emails I Can’t Send”, foi escalada para abrir os shows da The Eras Tour, de Taylor Swift, na América Latina e Austrália.
A associação com uma das maiores estrelas pop de sua geração garantiu que seus próximos passos estivessem na mira -e Carpenter soube aproveitar a relevância recém-adquirida, lançando, no começo de 2024, o single “Espresso”. A faixa charmosa e bem-humorada se tornaria seu maior hit até então e um dos maiores sucessos do ano, tendo sido a segunda música mais ouvida no Spotify mundialmente no ano passado.
No seu disco anterior, Carpenter demonstrou domínio pleno do que torna um álbum de pop contemporâneo apelativo -fazer novela de sua própria vida pública, como fez com o namoro com o ator Barry Keoghan em “Please Please Please”; pular de galho em galho esteticamente e não passar dos 40 minutos de duração.
Mas, mais do que isso, a cantora também mostrou uma personalidade atrevida e debochada, um contraste perfeito para a sua imagem delicada -uma loira baixinha, com o cabelo sempre escovado de um jeito vintage, trajando um vestido romântico.
A impressão de inocência provou ser prevalecente no imaginário popular quando Carpenter anunciou “Man’s Best Friend”, em junho deste ano. A capa do álbum, que mostra a cantora de joelhos, tendo o cabelo puxado por um homem em pé à sua frente, foi alvo de polêmica por, nas palavras dos críticos, normalizar a submissão feminina. Outros argumentaram que a capa seria irônica e que o álbum, na verdade, subverteria esta ideia.
Mas, ouvindo “Man’s Best Friend”, não parece que Carpenter está muito interessada em convencer nenhum dos dois lados. Na verdade, ela sabe que seu lugar enquanto estrela do pop não é ensinar ou servir de exemplo para ninguém, mas se conectar com os ouvintes pela música -e, sempre que possível, desafiar o puritanismo do público.
Nas doze faixas do álbum, Carpenter passa por todos os estágios do desejo: a primeira impressão, em “When Did You Get Hot?”, o primeiro encontro, em “House Tour”, a paixão, em “Tears”, a monotonia, em “My Man on Willpower”, o término, em “Goodbye”, o desprezo, em “Manchild”.
Ela não tem medo de ser explícita -em “Tears”, diz que “lágrimas escorrem pelas minhas coxas”; em “House Tour”, usa o convite para “conhecer minha casa” como uma metáfora nada delicada para sexo. Longe de depender de chocar, tudo é cantado com sinceridade e bom humor, um elemento que parecia raro no pop das últimas décadas, mas que aparece cada vez mais pelas cantoras da geração Z, como Carpenter, Olivia Rodrigo e Billie Eilish.
Assim como em “Short n’ Sweet”, em “Man’s Best Friend” Carpenter trabalhou com o queridinho das estrelas pop Jack Antonoff, que ganhou notoriedade por seus trabalhos em alguns dos álbuns mais celebrados de Taylor Swift e Lana Del Rey. Se, em alguns momentos, ele é um produtor insípido -a exemplo do último álbum de Swift, “The Tortured Poets Department”, especialmente tedioso-, neste trabalho ele está um pouco mais inspirado.
“Manchild”, o primeiro single, tem leve tom country, assim como “Go Go Juice”. Há também baladas lentas e acústicas, mas os melhores momentos de Carpenter são quando suas letras são colocadas sobre um pano de fundo irreverente, como em “House Tour” e “Tears”. Estas parecem puxar da mesma produção dos anos 1980 que inspirou “Emotion”, da Carly Rae Jepsen, um dos melhores álbuns pop da última década.
“Man’s Best Friend”, assim como “Short n’ Sweet”, também é breve e doce, mas conta com um toque de acidez que coloca Carpenter como uma das compositoras e performers pop mais divertidas de sua geração.
MAN’S BEST FRIEND
Avalição Bom
Onde Disponível nas plataformas digitais
Autoria Sabrina Carpenter
Gravadora Island Records