VENEZA, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Quem vê “Depois da Caçada”, do italiano Luca Guadagnino, exibido fora de competição no Festival de Veneza, percebe logo nos créditos iniciais algo de familiar. As letras usadas, sob fundo negro, são as mesmas dos filmes de Woody Allen, cuja carreira hoje se encontra atravancada, depois que o cineasta foi submetido a um processo de cancelamento público, acusado -sem provas- de molestar sexualmente a enteada.
Haveria, nesse gesto, uma homenagem e um posicionamento político em sua defesa? Ao que parece, foi essa a intenção de Guadagnino, que faz um filme sobre justamente os paradoxos da sensibilidade moderna diante de escândalos sexuais, discutindo até que ponto nossa sociedade está avançando, com punições a infratores que antigamente sairiam ilesos, ou está criando um mundo sufocante, em que ninguém se sente mais à vontade de fazer nada sem medo de ser criticado.
A trama se passa na Universidade Yale, nos Estados Unidos. Alma, interpretada por Julia Roberts, é uma professora de filosofia cinquentona de opiniões firmes, muito admirada, que vive um casamento estável porém sem paixão. Sua orientanda preferida é Maggie, vivida por Ayo Edebiri, jovem negra de origem abastada que tem dificuldades em concluir sua tese.
Hank, interpretado por Andrew Garfield, é um professor da mesma universidade que suspeita que a dissertação da moça seja um grande plágio e decide testá-la. Certa noite, embriagado, ele se aproxima mais do que devia da jovem e acaba forçando uma intimidade física que ela não desejava.
Maggie decide acioná-lo judicialmente por estupro e pede ajuda a Alma para que a apoie. Mas Hank é amigo de longa data de Alma e também suplica que ela o defenda. Embora ao mesmo tempo entenda e condene atos tanto de Maggie quanto de Hank, a professora tenta se equilibrar em uma posição ao mesmo tempo fiel a suas crenças e antenada aos novos tempos. Mas as pressões são muitas, e as próprias ambivalências de Alma, cedo ou tarde, também virão à tona.
“Depois da Caçada” talvez seja o filme que até o momento enfrente com mais fôlego e dedicação uma das grandes guerras do mundo contemporâneo -aquela travada entre as demandas da chamada geração “woke” e a visão de uma elite cultural de esquerda resistente ao que crê serem excessos dessa juventude, que põe sua militância identitária acima de tudo.
Guadagnino sabe que está pisando em ovos ao lidar com esse tema, então procura mostrar que ninguém nessa história é santo. Mas ele tem sua preferência e, embora exista no filme um certo gesto no rumo da conciliação entre as duas vertentes, ele expõe sobretudo o quanto a geração “woke” pode agir com uma virulência relativamente comparável à perpetrada pelos grupos agressores.
Já após a primeira sessão, o filme encontrou fãs e detratores. “O que amo nesse filme é que estamos olhando a verdade de cada um. Não tem ali uma verdade maior do que a outra, e elas entram em confronto”, disse o cineasta, em conversa com a imprensa.
Indagada sobre uma pretensa visão antiquada do filme, ao mostrar duas mulheres em posições antagônicas diante de uma questão envolvendo abuso masculino, Julia Roberts comentou: “Há muitos argumentos antigos que são revitalizados no filme. E o melhor é que as pessoas saem da sala falando sobre o que viram, que é exatamente o que queríamos”.
A atriz tem uma performance tensa, contida, em um momento muito especial de sua carreira. Mas em alguns instantes parece estar imitando Cate Blanchett em “Tár”, longa de 2022 com uma protagonista poderosa que se via diante de um conflito parecido.
Aliás, “Depois da Caçada” parece uma espécie de descendente de “Tár”, sem a mesma fluência e poder de síntese do filme de Todd Field, mas que ataca de frente a mesma questão que é a mola propulsora daquele longa.
Há uma cena importante, quando Maggie é confrontada por Alma e diz que não vai mais conversar, porque a interlocução não a faz se sentir confortável. Ao que Alma retruca. “Nem tudo nesta vida acontece para te deixar confortável, Maggie!” A fala diz muito sobre o convívio social, sim, mas também sobre a opção estética de Guadagnino, que realiza um filme propositalmente desagradável, por vezes difícil de acompanhar.
Fala-se muito, com argumentos contraditórios, e como se isso sozinho já não fosse uma dificuldade em si para a seguir o longa, há ainda sempre algum elemento intrusivo -um personagem que interrompe do nada o assunto, ou uma música dissonante que o diretor escolhe para o fundo sonoro.
São quase que procedimentos brechtianos em seu poder de distanciamento, mas que também nos força a redobrar a atenção ao que está em cena -é um filme exaustivo, tão incômodo quanto a vida em sociedade atualmente, e a escolha formal do cineasta vem a calhar. Poucas vezes no cinema recente a afetação estilística foi tão coerente com o clima de desconforto que se vive na tela como em “Depois da Caçada”.