BARRETOS, SP (FOLHAPRESS) – Tudo nasceu do mais puro improviso. Peões boiadeiros que desde os anos 1940 montavam em animais nas horas vagas enquanto descansavam de longas jornadas foram o embrião da primeira Festa do Peão de Barretos, que surgiu em 1956 como uma espécie de gincana, cenário completamente diferente do atual, em que atletas —não mais apenas peões— montam em busca de prêmios milionários, no Brasil e no exterior.

A 70ª edição da Festa do Peão distribuirá até domingo (31), dia de seu encerramento, cerca de R$ 1,5 milhão em premiação, dos quais R$ 382 mil na disputa do Barretos International Rodeo, sua principal atração.

Um exemplo claro de como os rodeios atraem jovens brasileiros é o peão Gustavo Luiz da Silva, 19, campeão da temporada da PBR (Professional Bull Riders) Brasil, um dos circuitos em atividade no país.

Além de ganhar uma picape e R$ 100 mil por ter sido o campeão da temporada, ele —que também venceu a etapa de Barretos e foi o estreante do ano na PBR— ainda amealhou R$ 311.345,18 nas provas nas quais participou. Esteve em 19 rodeios e parou em 61 das 81 montarias, aproveitamento de 75,31%.

A temporada acabou no último domingo (24) e, dois dias depois, ele embarcou para os Estados Unidos, para disputar provas da PBR americana e que, para os peões, se assemelha ao sonho de jogadores de futebol de defender clubes europeus.

O competidor brasileiro sul-matogrossense José Vitor Leme, 29, por exemplo, campeão mundial em 2020 e 2021, já somou mais de US$ 8,3 milhões na carreira (cerca de R$ 45 milhões, em valores atuais), segundo ranking da PBR.

Dez dos 20 peões que mais receberam premiações nos Estados Unidos são brasileiros, e todos com mais de US$ 2,2 milhões (cerca de R$ 12 milhões).

Quando os primeiros campeões de Barretos surgiram, naquela segunda metade da década de 1950, porém, os prêmios eram apenas troféus pela doma dos animais.

Realizada em dois dias, a festa teve gincanas, pau-de-sebo, jogo de futebol e as montarias, narradas em megafones. Embora feito de forma improvisada e amadora, já começou a atrair pessoas de fora de Barretos, tanto que os campeões de 1957 e 1959 não eram nativos —Anésio Teixeira da Silva, de Aparecida d’Oeste, e José Ribeiro, de Tanabi, respectivamente.

A década seguinte marcou o rompimento das divisas estaduais, e Barretos passou a abrigar peões de Uruguai, Paraguai e Argentina, além de ampliar sua duração, já com cinco dias.

“Ela já tinha crescido, Minas Gerais vinha muito aqui, Goiás, já não era algo regional, tinha ganhado espaço”, disse Jerônimo Luiz Muzetti, presidente de Os Independentes, associação que organiza a festa.

Apesar disso, a atividade seguia de forma amadora, até chegar o primeiro patrocinador, em 1973, o que permitiu que o campeão levasse um Fusca como prêmio, algo inédito na história dos rodeios.

Era tão inédito que, seis anos depois, o primeiro campeão de montarias em touros levou como prêmio uma TV de 14 polegadas.

Mas as montarias, então importadas dos Estados Unidos e que teve como precursor o ex-peão Tião Procópio —que inspirou o personagem Tião Higino (Murilo Benício) da novela “América” (2005)—, caíram no gosto do público e proporcionaram uma revolução nos anos seguintes, até que Barretos ficou saturada na primeira metade dos anos 80.

“Estava ficando uma festa perigosa, porque o recinto [antigo] era limitado no espaço físico, com linha de trem, clube, avenida e uma praça no entorno. Os dois alqueires ficaram muito limitados e isso fazia com que fosse necessário cobrar mais para poder pagar as despesas. As arquibancadas só poderiam crescer para o alto, não tinha mais como ampliar nas laterais, e o público estava ficando elitizado. E a Festa do Peão é popular, foi o que originou o parque”, disse o ex-presidente Mussa Calil Neto, que comandou o evento nas edições de 1984 e 1985, última no antigo recinto e a primeira no que viria a ser o Parque do Peão, ainda com arquibancadas provisórias.

Também ex-presidente, Hussein Gemha Júnior disse que a mudança para o novo local permitiu a entrada no ciclo mais importante da história da festa. “Em 1985 aqui não tinha nada, fizemos uma festa no mato. Não tinha estrada, não tinha energia, não tinha água, não tinha nada. Passamos de 2 para 20 alqueires de terra [hoje são 98]”, afirmou.

Atual vice-prefeito da cidade, Mussa disse que a década marcou o avanço da profissionalização dos rodeios, o que se consolidou nos anos 1990, quando surgiu a internacionalização de Barretos e a fase das multidões.

Naquela década, quando não havia cobrança de ingresso para acesso ao parque —ou quando o público pagava R$ 2 (R$ 10, atualizados pela inflação) para acesso ao recinto (e um novo ingresso, caso quisesse entrar no estádio)—, a festa chegou a receber 1,8 milhão de visitantes, em 1998.

O ex-peão Adriano Moraes conquistou o campeonato mundial da PBR em 1994 e isso contribuiu para motivar outros competidores a migrarem para os Estados Unidos e a elevarem o profissionalismo no rodeio brasileiro, que passou a ser visto como esporte após o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) sancionar lei nesse sentido no início dos anos 2000.

“Hoje, há competidor que está a 24 segundos de US$ 2 milhões”, disse o ex-presidente e diretor de rodeios da Festa do Peão, Marcos Abud, em relação aos peões brasileiros que se classificarão para o The American, que será disputado nos Estados Unidos no primeiro semestre do ano que vem. Se eles conseguirem parar os oito segundos necessários para a montaria ser válida nos três animais, poderão levar o título.

Além da internacionalização do rodeio, Barretos também buscou shows de artistas estrangeiros, e pelo palco do estádio já passaram nomes como Shania Twain, Mariah Carey, A-Ha e Garth Brooks.