SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Clientes e cotistas da Reag Investimentos e da Genial não precisam se preocupar com a Operação Carbono Oculto, dizem especialistas, pelo menos, inicialmente. Isso porque os alvos da investigação deflagrada nesta quinta-feira (28) são alguns fundos administrados e geridos pelas instituições, o que não engloba todas as atividades das empresas.
Luciano de Almeida Prado Neto, sócio do MBC Advogados, explica que essas instituições atuam como o síndico ou como o administrador de um condomínio, que neste caso seriam os fundos de investimento. Dessa forma, os condôminos, neste caso os cotistas, podem se reunir em assembleia e mudar a gestora e a administradora do fundo.
“Nesta fase preliminar, não há risco aos clientes que não tiverem cotas dos fundos investigados. O fundo é uma caixinha à parte. O dinheiro investigado não está na Reag, por exemplo, está no fundo”, diz o advogado.
Fundos administrados ou geridos pelas instituições podem, inclusive, trocar de gestora e de administradora.
“Até agora não se fala em associação criminosa das gestoras, mas sim em avaliar se seus controles de verificação de clientes foram suficientes”, diz Raphael Soré, sócio do Machado Meyer.
Segundo o advogado, a instituição é responsável por realizar uma boa diligência, o que não impede que criminosos se disfarcem de clientes legítimos e ocultem a origem do dinheiro.
“É natural que surja preocupação de imagem para clientes especialmente institucionais, fundos de pensão e investidores estrangeiros. Estar vinculado a uma gestora citada em operação contra crime organizado pode gerar questionamentos internos ou de stakeholders. Mas, do ponto de vista prático, clientes com atividades lícitas não têm motivos para preocupação neste momento”, afirma Soré.
Segundo a Receita Federal, foram bloqueados apenas os fundos em que todos os cotistas são investigados.
“Fomos cautelosos com isso, por isso, pedimos cuidado para as pessoas na hora do investimento, especialmente com investimentos que rendem muito”, diz Maria Cecília Meng, superintendente da Receita.
Segundo a Operação, serão bloqueados R$ 1,4 bilhão vindos do crime organizado.
Na investigação, são citados 11 fundos ligados à Reag: Mabruk II (também conhecido como Rhodonite), Celebration, Reag High Yield, Los Angeles 01 (atual Lucerna Fundos de Investimentos Imobiliários), Derby 44 (também conhecido como Wels), Gold Style, Hans 95 (também conhecido como Terra IV), Olaf 95, Novo (também conhecido como Reag Leeds), Anna e Reag Growth 95.
De acordo com a Justiça de São Paulo, esses fundos seriam utilizados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) para adquirir e ocultar de bens, incluindo imóveis, veículos e até usinas sucroalcooleiras.
A Reag diz que os fundos mencionados nunca estiveram sob sua administração ou gestão. “Quanto aos fundos de investimento apurados em que a empresa atuou como prestadora de serviço, informa que agiu de forma regular e diligente. Cumpre registrar que tais fundos foram, há meses, objeto de renúncia ou liquidação. Reforça, ainda, que não possui nem nunca possuiu qualquer envolvimento com as atividades econômicas ou empresariais conduzidas por esses clientes.”
A instituição se descreve como a maior gestora independente do Brasil, com R$ 299 bilhões sob gestão, de acordo com dados de fevereiro. Criada em 2013, ela tem mais de 130 funcionários. Também está listada na Bolsa de Valores, desde que adquiriu a GetNinjas, em um IPO (sigla em inglês para oferta inicial da ações) reverso.
Em nota, a Reag diz que “colabora integralmente com as autoridades responsáveis pela Operação Carbono Oculto e permanece confiante no regular funcionamento das instituições e da Justiça, com a certeza de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos.”
“O cotista de um fundo bloqueado tem o direito de reaver seu dinheiro, mas terá que entrar nos autos do processo e provar que este investimento é lícito. A pessoa vai ter que contratar um advogado criminal e esperar o desenrolar do processo”, diz Jair Jaloreto advogado especializado em crimes financeiros, sócio de Jaloreto e Associados.
O especialista também aponta que as instituições financeiras citadas na investigação devem seguir operando, dada a presunção de inocência.
Já a Genial é citada por ser administradora do fundo Radford. Segundo a investigação, ele teria sido usado para a retirada de valores da Usina Itajobi, que seria operada pelo PCC.
A Genial Investimentos tem R$ 250 bilhões em ativos, com mais de 2 milhões de clientes e 200 escritórios
associados.
Em nota, a instituição se disse surpresa e indignada ao ver seu nome citado na operação.
“A instituição esclarece que tomou conhecimento do assunto unicamente pela imprensa e, até o presente momento, não recebeu qualquer notificação oficial sobre a existência de procedimentos investigativos que a envolvam, seja direta ou indiretamente”, afirma a Genial.
Segundo a empresa, o fundo Radford foi originalmente estruturado por outros prestadores de serviços
essenciais e transferido ao Banco Genial em agosto de 2024.
“Na ocasião, a instituição promoveu as devidas diligências, abrangendo o investidor exclusivo e os
ativos que integravam a carteira. Desde então, o fundo opera nos termos do seu regulamento.”
Após a deflagração da operação, a Genial renunciou à prestação de todos os serviços ao Radford e se colocou à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
“O Banco Genial sempre conduziu suas atividades com base nos mais elevados padrões de governança corporativa, ética e compliance regulatório, em estrita observância à legislação e regulamentação aplicáveis”, diz em nota.