SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Corria uma piada de gosto discutível quando Filinto Müller, senador e ex-chefe da polícia de Getúlio Vargas, morreu no acidente do voo Varig 820 em Paris, em 11 de julho de 1973. Na memória do historiador Francisco Carlos Teixeira, ela dizia que “Filinto era tão ruim que para morrer levou 200 pessoas junto” na verdade, foram 122.
Em homenagem recente na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, foram enaltecidos investimentos do militar, natural de Cuiabá, em estradas e na educação do estado. Sua biografia nacional, entretanto, é marcada pela tortura de sua polícia a personalidades como Pagu, Graciliano Ramos, Carlos Marighella e Harry Berger. Também foi peça fundamental na extradição de Olga Benário à Alemanha nazista e na repressão de estudantes e indígenas.
Há, no Brasil, no mínimo 44 ruas e avenidas em homenagem ao militar, a maior parte no Centro-Oeste. Sem contar Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra, mais lembrados por terem ocupado a Presidência, ele está entre os líderes do Estado Novo mais venerados em espaços públicos. Fica atrás de Agamenon Magalhães e de Benedito Valadares, que, após o regime varguista, foram eleitos governadores de seus respectivos estados, Pernambuco e Minas Gerais.
Levantamento da Folha de S.Paulo com base em endereços do IBGE colhidos no Censo de 2022 indica que há 2.593 ruas, alamedas e outros espaços públicos batizados Getúlio Vargas. Já o ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra tem ao menos 500 homenagens em ruas espalhadas pelo país.
Sem Getúlio, militares do núcleo duro do Estado Novo somam ao menos 1.030 endereços.
Diversas ações judiciais reivindicam a mudança de nome de espaços públicos que celebram homens da ditadura militar iniciada em 1964. Em relação ao Estado Novo (de 1937 a 1945), os pedidos são direcionados a apenas alguns nomes. Para historiadores, essa diferença se explica porque parte do legado getulista é ligado às conquistas trabalhistas o que motiva boa parte das homenagens a ele, mas também pela ausência uma condenação mais explícita do Estado Novo enquanto ditadura.
Filinto Müller é um dos nomes que correm o risco de ser apagados das placas. Apesar de seu apelo político regional, sua história no âmbito nacional é intimamente ligada à repressão sanguinária. Há mais de dez anos tenta-se alterar o nome da Ala Filinto Müller no Senado Federal. Um projeto do senador Randolfe Rodrigues está parado desde 2023.
Em 2015, seu nome integrou uma lista de ruas a serem rebatizadas pela Prefeitura de São Paulo, então sob comando de Fernando Haddad (PT), mas até hoje ele nomeia uma via no Parque São Rafael, na zona leste da capital paulista.
Em Mato Grosso, sua terra natal, são 26 endereços. Mais 14 em Mato Grosso do Sul, estado vizinho. Na Assembleia Legislativa de MT, a mais alta honraria da Casa chama-se Comenda Filinto Müller.
Mariana Joffily, historiadora e professora da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), diz que as homenagens vêm de setores conservadores, em uma região notória por representar os interesses do agronegócio, mas pontua a importância da herança local do sobrenome. “Além de uma longeva atuação parlamentar [foi senador por quatro mandatos], sua família atuava politicamente no estado, seu pai foi prefeito de Cuiabá na Nova República e seus irmãos interventores federais no estado durante o período Vargas.”
Já no olhar nacional, a historiadora Cláudia Viscardi, da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), diz que o aspecto mais marcante de sua trajetória é a resistência na defesa dos estados autoritários de exceção. “É um membro destacado da polícia política durante o Estado Novo inteiro, não só contra comunistas, mas contra estudantes e qualquer opositor de Vargas. Depois, monta a estrutura belicosa do pós-1964. Isto que mais me impressiona nele, a tortura como agenda política.”
Müller serviu ativamente a duas ditaduras. Militar, participou do movimento tenenista e integrou a Coluna Prestes, da qual foi expulso por desvio de recursos. A autorização da extradição de Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, grávida para a Alemanha, anos depois, teria sido uma vingança, segundo Daniel Aarão Reis, biógrafo de Prestes. “Era também uma vingança mesquinha de Filinto Müller, por ter sido denunciado em 24, e aí com fundadas razões, como trânsfuga e ladrão pelos comandantes da Coluna, dela sendo então expulso”, escreveu.
O militar foi recrutado por Getúlio para integrar o Governo Provisório, em 1930. Virou inspetor da Guarda Civil do Distrito Federal e, ao apresentar resultados na repressão da oposição, tornou-se chefe de polícia política do Distrito Federal, o que na prática lhe dava poder sobre o país todo.
“A Polícia Especial, da qual foi chefe, era caracterizada pela extrema brutalidade. Torturava até não poder mais. Inclusive abre os dois campos de concentração que são construídos no Brasil, um em Ilha Grande e o outro em Fernando de Noronha, para onde são mandadas as pessoas em situações as mais terríveis possíveis. Ele comanda essa polícia por uns dez anos”, afirma Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ, estudioso do período.
“Um caso notório foi o de Harry Berger, que foi brutalmente torturado e defendido pelo jurista e advogado Sobral Pinto com base na Lei de Proteção aos Animais, tamanha era a sanha contra os comunistas”, lembra Joffily.
O cuiabano permaneceu no governo até 1943, quando foi demitido por Vargas após mostrar uma arma ao então ministro interino de Justiça, Vasco Leitão Cunha. Ele é substituído por Alcides Etchegoyen, avô de Sérgio Etchegoyen, ex-ministro do GSI no governo Michel Temer. Depois do episódio, é convidado por Vargas para assumir o Conselho Nacional da Justiça.
Em 1945, ajuda a fundar o Partido Social Democrático (PSD) em Mato Grosso, legenda que abrigou interventores ligados a Vargas. É eleito senador em 1947 e reeleito em 1954. Em 1960, com o bipartidarismo imposto pela ditadura militar, migra para a Arena, que sustenta o regime, e é eleito senador por mais duas vezes. Quando morreu, cumpria o quarto mandato, presidia a Casa e a liderança nacional da legenda.
METODOLOGIA
A reportagem utilizou a Base de Faces de Logradouros do IBGE, atualizada para o Censo 2022, para chegar a todos os nomes de endereços únicos no Brasil por meio da linguagem de programação Python. A partir do resultado, foi feito o cruzamento com uma lista de nomes citados no livro “O Golpe Silencioso”, de Aspásia Camargo. A relevância dos selecionados também foi validada por historiadores que pesquisam o Estado Novo. Foram considerados os nomes Eurico Gaspar Dutra, Benedito Valadares, Agamenon Magalhães, Filinto Müller, Pedro Aurélio de Góis Monteiro, Francisco Campos, Olímpio Mourão Filho, Almeiro de Moura, José Meira de Vasconcelos, Newton Cavalcanti e Aristides Guilhem.
Além das correspondências exatas com cada nome completo, também foram filtradas variações de grafia e composições com sobrenomes e cargo. Foram excluídos casos de nomes mais comuns em que a checagem manual de contexto não foi possível, para descartar possíveis homônimos.
Como os dados do IBGE estão atualizados até 2022, alguns nomes de logradouros podem ter sofrido alterações.