SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – O mais antigo membro do grupo dos anquilossauros (dinossauros famosos por sua couraça quase inexpugnável) tinha um lombo que mais parecia a muralha de uma prisão de segurança máxima. Seu corpo compacto exibia “estacas” ósseas que podiam chegar a mais de metro de comprimento e desciam do pescoço até a cauda, conforme revela um novo estudo.
A surpresa em torno da descoberta dos fósseis, revelados na última quarta-feira (27) na revista científica Nature, vem do fato de que estruturas tão elaboradas, ao que tudo indica, surgiram logo no início do grupo. Trata-se “de uma armadura dérmica de complexidade única, diferente da de qualquer outro vertebrado, extinto ou atual”, escrevem os autores do estudo, liderados por Susannah Maidment, do Museu de História Natural de Londres.
O bicho, batizado de Spicomellus afer (algo como “colar de espinhos africano” em latim), foi encontrado no Marrocos e viveu durante o chamado Jurássico Médio, em torno de 170 milhões de anos atrás. A espécie já tinha sido descrita antes do novo estudo, com base num fragmento de costela ao qual estava associado um espinho, mas a associação com o grupo dos Ankylosauria ainda não tinha sido confirmada de vez.
Com a descoberta de novos fósseis, porém, não parece haver mais margem para dúvidas, afirmam Maidment e seus colegas. O material recém-analisado é um esqueleto parcial que faz parte da coleção da Universidade Sidi Mohamed Ben Abdellah, instituição que fica em Fez, no Marrocos.
Os ossos fossilizados incluem vértebras que vão do pescoço à cauda, seis costelas às quais estão fundidas espinhos da região dorsal e ossos dos quadris e das patas, bem como placas ósseas que compunham a armadura do S. afer.
A conexão direta dos longos espinhos com as costelas é algo que ainda não tinha sido visto em nenhuma outra espécie, e a ponta da cauda também era coberta de estruturas pontudas, como a maça usada por certos guerreiros medievais. Estima-se que o animal alcançasse cerca de quatro metros de comprimento, o que é um porte modesto no contexto dos dinossauros herbívoros de sua época.
Embora a parte óssea dos espinhos alcance um comprimento máximo de 87 cm, os pesquisadores consideram muito provável que as estruturas, em vida, fossem ainda mais longas, estando cobertas com uma bainha de queratina (a molécula das unhas e cabelos), assim como acontece com os chifres dos bois modernos.
Embora os anquilossauros tenham continuado a existir até o fim da Era dos Dinossauros, na fase terminal do período Cretáceo, há 66 milhões de anos, o curioso é que as formas mais recentes não chegam nem perto da complexidade e da exuberância da armadura da espécie marroquina.
Além disso, a grande maioria dos anquilossauros vem do supercontinente da Laurásia, que incluía áreas como as atuais Europa, Ásia (menos a Índia) e América do Norte. No entanto, o S. afer, por ser africano, vivia no supercontinente Gondwana, a área que englobava ainda a América do Sul, a Antártida e a Austrália (nestes dois últimos também há registros da presença do grupo Ankylosauria, mas já no Cretáceo). O grau exato de parentesco da espécie espinhuda com os demais membros do grupo não está 100% claro ele não é muito próximo das demais espécies do supercontinente Gondwana, por exemplo.
O que parece indiscutível, de qualquer modo, é a antiguidade do fóssil e sua esquisitice. Uma explicação possível para a profusão de espinhos do bicho, propõe a equipe, é que ela não tivesse propriamente função defensiva, mas estivesse ligada à chamada seleção sexual. Ou seja, aos ornamentos bizarros e exagerados que os animais desenvolvem com frequência, ao longo da sua evolução, para atrair parceiros.
Se essa ideia estiver correta, a aparência do S. afer seria o equivalente a uma cauda de pavão com ar mais “roqueiro”. Com o passar do tempo, os anquilossauros foram desenvolvendo ornamentos que eram mais funcionais como proteção também, o que explicaria o desaparecimento de formas mais exageradas como a espécie africana.