SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O empresário italiano Ernesto Iannoni, 89, fundador da Flexform —fabricante brasileira de cadeiras—, acusa seus dois filhos, Pascoal e Marco Iannoni, de fraude após ter se aposentado e transferido o controle da empresa a eles.

O conflito familiar teve início em 2010, quando Ernesto decidiu deixar a gestão da companhia. Em 2013, ele levou os filhos à Justiça em um processo que ainda está em andamento. A disputa começou após a transferência da empresa, que foi feita mediante um acordo que previa que ele receberia 25% do valor do negócio.

Segundo Ernesto, à época, a Flexform valia cerca de R$ 200 milhões, valor que refletia não apenas o patrimônio físico e a estrutura da empresa mas também a força da marca e seu potencial de mercado.

O impasse começou após a avaliação da Flexform e o pagamento do valor de R$ 16 milhões a Ernesto, número inferior aos R$ 50 milhões que ele esperava receber. “Quando tive acesso à contabilidade, ficou claro que havia diversas manobras fraudulentas feitas com o objetivo de reduzir artificialmente o valor e, assim, me pagar muito menos do que eu tinha direito”, diz o empresário.

Além da Flexform, os filhos receberam uma empresa patrimonial que leva o nome da família. Por meio de seus advogados, Pascoal e Marco dizem que “lamentam profundamente a continuidade de uma disputa familiar que apenas gera sofrimento a todos os envolvidos”. Eles afirmam que, ao longo dos últimos 14 anos, Ernesto ajuizou 22 processos relacionados, sendo que 20 deles já foram julgados improcedentes.

Segundo os filhos, Ernesto chegou na Justiça a realização de exames de DNA para questionar a paternidade deles, já na vida adulta. Eles consideram esses episódios “um duro golpe para a família”.

O processo movido por Ernesto contra os filhos tem como objetivo anular a venda de sua participação na Flexform. Além disso, ele busca o pagamento da diferença entre a avaliação da empresa e o valor que recebeu, o ressarcimento dos lucros que deixou de obter enquanto estava fora da gestão da companhia, e a condenação dos filhos e de gestores da empresa por dano moral.

O empresário italiano diz que, ao longo do processo, surgiram indícios de manipulação documental e de notas fiscais incompatíveis. “Perícias independentes já apontaram movimentações financeiras suspeitas e escrituração que não condizia com a operação da empresa. Essas provas constam nos autos e reforçam o que eu venho dizendo há anos: houve fraude”, afirma Ernesto.

Um laudo da Polícia Civil apresentado recentemente pela defesa de Ernesto apontou irregularidades na contabilidade da Flexform e da Iannoni Empreendimentos. Segundo o documento, houve registro de “escrituração irregular” como se fossem despesas, provocando redução artificial do valor da empresa.

De acordo com a defesa do empresário, o laudo também atesta ocultação e dissimulação de valores multimilionários.

“O perito criminal também constatou o desvio de recursos das empresas, a simulação de negócios jurídicos para ocultar patrimônio, a emissão de notas fiscais fraudulentas para limpar o capital (lavagem de dinheiro), e a dissimulação de valores de contratos, exatamente como apresentado pelo sr. Ernesto anos atrás”, diz o advogado de Ernesto, Rafael Carneiro.

Carneiro diz que hoje a ação está suspensa em primeira instância, aguardando que o STJ (Superior Tribunal de Justiça) decida sobre os vícios da perícia. “O processo central, que originou todo o imbróglio, ainda não foi decidido. E o fato mais recente é absolutamente desfavorável aos filhos, pois confirma a prática de vários ilícitos graves, inclusive de natureza criminal”, diz o advogado de Ernesto.

Após a definição sobre a validade da perícia, o processo principal deve seguir na primeira instância, com julgamento e possibilidade de diversos recursos previstos em lei.

Em nota, a defesa dos irmãos Pascoal e Marco diz que “o inquérito em que foi apresentado um novo laudo representa mais uma tentativa de reabrir uma discussão já rejeitada inúmeras vezes pelo Poder Judiciário”.

Eles destacam ainda que a divisão do patrimônio das empresas foi concluída a pedido do Ernesto, que, de forma voluntária, optou por se retirar da sociedade. “O acordo firmado entre as partes garantiu a ele o valor que pediu”, diz a defesa.

Os filhos afirmam que reconhecem o legado do pai nas empresas que fundou e que têm se dedicado, nos últimos anos, a preservar e expandir esse legado, assegurando o crescimento contínuo e a liderança no setor em que atuam.

Ernesto diz que o último momento em que esteve com os filhos foi em 2017, na missa de sétimo dia de sua ex-mulher, mãe de Pascoal e Marco. O empresário também afirma que, em 2019, os filhos tentaram interditá-lo. “Foi uma ferida muito profunda, porque não se tratava apenas de patrimônio, mas de ver meus próprios filhos tentando me tirar a dignidade e a autonomia”, diz.