SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, entregou a familiares nesta quinta-feira (28) 21 certidões de óbitos retificadas de pessoas mortas e desaparecidas durante a ditadura militar (1964-1985).

Entre as certidões está a da estilista mineira Zuzu Angel, que fez sucesso ao vestir estrelas de Hollywood com suas criações e causou ira na ditadura ao enfrentar as autoridades após a morte sob tortura de seu filho, Stuart Angel.

A retificação é uma determinação da Resolução nº 601, de 2024, do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

A resolução determina que as mortes sejam especificadas como não naturais, violentas e causadas pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição à população identificada como dissidente política do regime ditatorial.

O novo documento tem também informações sobre a idade e o estado civil das vítimas, além da data e do local da morte.

Zuzu morreu em 1976 em um suposto acidente de carro na saída do antigo túnel Dois Irmãos, que hoje tem o nome da estilista, em São Conrado, no Rio de Janeiro. Em 1988, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu o regime militar como responsável pela morte. Ela teria sido jogada para fora da pista por um veículo ocupado por agentes da ditadura.

Além de Zuzu, foram entregues as certidões de Adriano Fonseca Filho, Antônio Carlos Bicalho Lana, Antônio Joaquim de Souza Machado, Arnaldo Cardoso Rocha, Carlos Alberto Soares de Freitas, Ciro Flávio Salazar de Oliveira, Gildo Macedo Lacerda, Eduardo Antônio da Fonseca, Pedro Alexandrino Oliveira Filho, Raimundo Gonçalves de Figueiredo, Walkíria Afonso Costa, Hélcio Pereira Fortes, Idalísio Soares Aranha Filho, Ivan Mota Dias, João Batista Franco Drumond, José Carlos Novaes da Mata Machado, José Júlio de Araújo, Oswaldo Orlando da Costa, Paulo Costa Ribeiro Bastos e Paulo Roberto Pereira Marques.

O Ministério dos Direitos Humanos informa que espera entregar 400 documentos até o final deste ano.

A cerimônia desta quinta foi realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais a familiares de mineiros mortos pela ditadura ou cujas mortes ocorreram no estado.

“Eu tinha dois anos e meio de idade quando ele, aos 33 anos, foi assassinado”, recordou Iara de Figueiredo, filha de Raimundo Gonçalves de Figueiredo, sobre a morte do pai. Ele era bancário e militante da organização VAR-Palmares.

“Trata-se do reconhecimento da verdade histórica sobre a causa da morte dessas pessoas”, disse a secretária-executiva do ministério, Janine Mello.

A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, participou remotamente da cerimônia.

“O Brasil tem profundas sequelas de períodos históricos nefastos, que vêm desde a escravização até a ditadura, e segue em muitas periferias, favelas e no campo. É importante nomear o óbvio e o vivido para que não se repita”, afirmou.