BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Mais da metade dos fundos do Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro e que está em processo de venda para o BRB (Banco de Brasília), são administrados por Trustee DTVM e Reag Investimentos, empresas que foram alvos de operações nesta quinta-feira (28) contra a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e de outras facções na cadeia produtiva de combustíveis e no setor financeiro.
Na avaliação de profissionais do mercado ouvidos pela reportagem, a operação mostra um possível ponto de fragilidade do Master no momento em que o Banco Central analisa a negociação com o BRB.
Levantamento da Folha identificou que 18 dos 34 fundos declarados pelo Master em seu balanço são administrados por Trustee e Reag. Juntas, elas são as duas principais parceiras do banco.
Em nota, a assessoria de imprensa da instituição financeira de Vorcaro afirmou que “a Reag é uma prestadora de serviços do Banco Master, e tem como atividades a gestão e a administração de fundos. É uma entre outras entidades financeiras que prestam serviços nesta atividade. O Master é apenas um entre centenas de clientes da Reag.”
Vorcaro tem relação próxima com as duas empresas. A casa em que ele mora e na qual faz reuniões de relacionamento político, em Brasília, tem ligações com a Reag, que administra cinco fundos ligados ao Master.
Reportagem da Folha mostrou que o imóvel de R$ 36 milhões foi adquirido por uma empresa que tem ligações com Vorcaro, a Super Empreendimentos, em 3 de junho de 2024. À época, seu cunhado, o advogado Fabiano Zettel, era um dos diretores da firma. A Super pertence a um fundo que é administrado pela Reag.
O Will Bank, que tem forte atuação no Nordeste e é parte central da operação de venda do Master para o BRB, foi comprado pelo Master em operação conjunta com a Reag, em 2024. O Will Bank é visto pelo BRB como aposta para entrar no mercado de serviços digitais e para ampliar a base de clientes nas classes C e D.
Listada na B3, a Reag confirmou ter sido alvo da operação e disse que está colaborando com a investigação. As ações da empresa caíam mais de 12% no Ibovespa nesta quinta em virtude da operação.
A Trustee DTVM, por sua vez, pertence a Maurício Quadrado, que foi sócio do Master, anunciou a venda de sua fatia no ano passado e hoje comanda o BlueBank. A Trustee administra 13 fundos ligados ao banco.
A gestora apareceu em polêmica recente envolvendo o Master, o empresário Nelson Tanure (próximo de Vorcaro) e Tércio Borlenghi Júnior, controlador da empresa de gestão ambiental Ambipar.
Segundo a área técnica da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), a compra de ações da Ambipar por parte de fundos da Trustee no ano passado, que levou à valorização dos papéis em mais de 800%, teria sido uma “troca de favores” que fez com que a empresa aumentasse seu valor de mercado e o Master elevasse seu patrimônio. Além disso, Tanure teria conseguido garantias necessárias para arrematar a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia) em leilão.
O colegiado da CVM, no entanto, acolheu recurso dos envolvidos e decidiu contra o parecer da equipe técnica.
Em nota ao jornal Valor Econômico, a Trustee disse ter renunciado à administração de fundos antes mesmo da ação desta quinta-feira por decisão da área de compliance “por desconformidade da atualização cadastral identificada há alguns meses”.
A operação de venda do Master para o BRB tem sido marcada por desconfiança de agentes financeiros em relação ao banco de Vorcaro, acusado de ter criado uma estratégia insustentável de venda de CDBs com alta remuneração, usando a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) como atrativo.
Com os recursos captados, o banco comprava ativos de risco não bancários, como precatórios, os chamados pré-precatórios e ações de empresas –que, na avaliação de críticos, seriam papéis cujo valor é incerto.
Desde que a operação de venda para o BRB foi anunciada, as restrições ao modo de atuação do Master fizeram com que as propostas de negócio fossem alteradas (com aportes de capital por parte de Vorcaro), que os ativos fossem fatiados de diferentes formas e que o governo mudasse as regras de contribuição dos bancos ao FGC.
A operação Carbono Oculto, maior ação desse tipo na história segundo a Receita Federal, mobilizou 1.400 agentes em oito estados numa megaoperação nesta quinta-feira (28) e busca desarticular a infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e em instituições financeiras utilizadas como suporte dessa cadeia.