SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Parte do esquema investigado durante megaoperação envolvendo o PCC (Primeiro Comando da Capital) deflagrada nesta quinta-feira (28) envolvia desvio de metanol e adulteração de combustíveis. A prática, além de ilegal, pode prejudicar seriamente alguns veículos, segundo especialistas.

De acordo com o promotor Yuri Fisberg, do MP-SP (Ministério Público de São Paulo), alguns postos fiscalizados como parte da investigação no estado de São Paulo tinham até 90% de metanol no combustível. O máximo definido pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) é 0,5%.

O metanol é um solvente industrial e matéria-prima da produção de formol, inflamável e tóxico, mas tem características de combustível. Segundo Emerson Kapaz, presidente do ICL (Instituto Combustível Legal), o motorista com combustível adulterado com o produto pode ter seu motor corroído e fundido, e geralmente só consegue perceber os danos quando o carro para de funcionar.

“É muito preocupante a entrada do metanol especificamente, porque em algumas outras adulterações, o motor pode sofrer muito, mas não chega a ter o problema do tamanho do metanol. Se o frentista colocar a mão nesse metanol e depois passar nos olhos, ele fica cego”, acrescenta Kapaz.

Em geral, para baratear o preço, a gasolina é misturada ao etanol anidro (sem água) com um limite de até 30% definido pelo governo. Se a porcentagem aumentar irregularmente, para 50% ou 60% -o que pode ocorrer com a adição do etanol hidratado vendido nos postos-, já é possível causar problemas em carros que não são “flex”, por exemplo.

Segundo dados do ICL, só em 2024 mais de 600 mil veículos apresentaram problemas ligados a combustíveis adulterados.

É POSSÍVEL IDENTIFICAR ADULTERAÇÃO NO COMBUSTÍVEL?

Para Kapaz, se o metanol já está no tanque, é muito difícil perceber apenas com sinais do veículo, como aumento no consumo, cheiros ou barulhos estranhos. Isso porque o produto pode funcionar como combustível sem ocorrer falhas ou perda de potência, diferentemente de outros tipos de adulteração.

“O metanol tem poder calorífico para dar combustão. Misturado na gasolina, acaba de uma certa forma funcionando”, diz.

No passado, o metanol foi utilizado em competições automobilísticas, como a Fórmula Indy. Entretanto, o uso foi proibido no início dos anos 2000, devido à alta toxicidade e aos riscos de incêndio.

O que pode ser feito é identificar postos de combustíveis suspeitos, segundo ele, como um preço muito mais barato do que a média. “Pode haver uma variação de 20 ou 30 centavos de um posto para outro. Se o preço estiver 60 ou 70 centavos a menos, em alguns casos chega a R$ 1 por litro, pode desconfiar que é problema”, recomenda.

Outra forma de identificar um posto suspeito é observar o medidor de gasolina. Postos irregulares costumam adulterar eletronicamente o medidor da bomba, que indica uma quantidade maior da que, de fato, entrou no tanque. É possível observar, por exemplo, se o carro rodou menos do que deveria com a quantidade de combustível abastecida.

O QUE FAZER SE DESCONFIAR DE FRAUDE?

A ANP é responsável pela fiscalização. Motoristas que desconfiarem de adulteração podem registrar denúncia pelo site Fala.BR.

Se o consumidor for atingido, também é possível registrar uma reclamação contra o posto no Procon regional de cada estado. Em São Paulo, o site é www.procon.sp.gov.br.

O motorista também pode solicitar, no ato do abastecimento, o teste de qualidade previsto em lei. A verificação é feita pelo próprio posto e permite observar se o combustível atende às especificações da ANP. Para a gasolina, o líquido deve ter um aspecto límpido e variar entre o incolor e amarelo, com densidade relativa e teor de álcool anidro em torno de 30%.