BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Um dia após ter um evento eleitoral interrompido na Grande Buenos Aires por uma confusão com lançamento de pedras, legumes e outros objetos contra a comitiva em que estava o presidente, Javier Milei voltou a classificar o escândalo dos áudios que sacode o seu governo de uma “nova mentira” da oposição.

O chefe de governo argentino participou nesta quinta-feira (28) de um almoço com empresários do Conselho Interamericano de Comércio e Produção.

“A novela desta semana é mais um item na longa lista de truques da casta, uma nova mentira”, disse ele em discurso. “Quando entramos na política, sabíamos que seria difícil nos livrarmos da casta que está entrincheirada no Estado e que vai fazer o que puder para defender seus privilégios.”

Milei também disse estar à disposição da Justiça. “Esperamos que tudo seja esclarecido o mais rápido possível. Lamentamos que os juízes tenham que perder tempo com truques políticos rançosos em vez de julgar crimes.”

Sobre o ataque que sofreu, Milei disse estar “acostumado”. “Quando fui ver uma partida do Boca com Palmeiras, os brasileiros também nos jogaram pedras no Morumbi”, disse ao se referir a um jogo de futebol em que foi com seu pai quando era mais jovem. “Obrigado kukas [apelido depreciativo para os kirchneristas], vou sair disso melhor”.

“Não vou me assustar. Comentei mais cedo com vocês que quando jogava pelo [clube de futebol] Chacarita, a quantidade de vezes em que fiquei debaixo de uma chuva de pedras… Estou acostumado à chuva de pedras”, disse o presidente aos empresários.

“Não vamos ser intimidados por essas ações covardes. De qualquer forma, eles nos encorajam, porque nos mostram que estão com medo, que estão desesperados e que não [avançam contra] Javier Milei, mas contra a liberdade de todos os argentinos.”

É a segunda vez que Milei fala abertamente sobre os áudios atribuídos ao ex-diretor da Andis (Agência Nacional para Pessoas com Deficiência) Diego Spagnuolo.

Nas gravações, há menção de um suposto esquema de corrupção na compra de medicamentos pelo governo em que a voz que seria do ex-diretor diz que a irmã do presidente, Karina Milei, ficaria com 3% da propina.

Tanto o ex-diretor, demitido na semana passada, quanto empresários da Drogaria Suizo Argentina —empresa responsável pela distribuição dos medicamentos— tiveram celulares e documentos apreendidos por pedido do Ministério Público. A Andis está sob intervenção do Ministério da Saúde.

O presidente, até esta quarta-feira (27), havia se mantido em silêncio sobre o caso. Ele respaldava Karina em eventos públicos, mas sem mencionar diretamente o caso, que a imprensa argentina batizou de “Karinagate”.

No evento de campanha na cidade de Lomas de Zamora, pouco antes da confusão, Milei quebrou o silêncio e disse ao canal de TV C5N que o que os áudios revelam era mentira e que Spagnuolo, que também era seu advogado pessoal, será processado na Justiça.

O ato eleitoral com Milei, que passava em uma caminhonete ao lado de sua irmã e candidatos governistas às eleições legislativas que ocorrem em 7 de setembro, destoa de outros eventos públicos do presidente, que costumam ocorrer em teatros, estádios e locais com acesso controlado.

A província de Buenos Aires, a mais populosa do país, vai renovar parcialmente seus cargos legislativos em menos de duas semanas. Os cidadãos registrados devem eleger 23 senadores provinciais e 15 suplentes, além de 46 deputados provinciais e 28 suplentes. Além disso, haverá a renovação de cargos locais em diferentes distritos eleitorais, onde serão definidos vereadores e conselheiros escolares.

O pleito provincial se tornou uma queda de braço entre Milei e o governador, Axel Kicillof, peronista que ocupa o cargo no Executivo mais importante atualmente e rival do presidente. E também é uma demonstração de força para as eleições de 26 de outubro, quando todos os argentinos vão renovar 24 cadeiras no Senado e 127 da Câmara de Deputados Nacional.

Os governistas já tinham enfrentado gritos de opositores em um ato na segunda-feira (25) na cidade de Junín. Em Lomas de Zamora, imagens divulgadas pouco antes que a comitiva presidencial tivesse de deixar o evento já mostravam um clima hostil, com pessoas gritando “corrupto” ao presidente. Em um dos vídeos, Milei aparece respondendo “corruptos são os que vocês apoiam”.

Após dias de silêncio, o porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni, retomou as coletivas de imprensa e se pronunciou sobre os áudios, culpando a oposição. “Não é por acaso que esses áudios, supostamente gravados no ano passado, tenham vindo à tona duas semanas antes das eleições na província de Buenos Aires”, disse.

“Assim que tomou conhecimento, o governo nacional iniciou uma auditoria interna na Andis, nomeou um auditor e demitiu o ex-diretor, que está sendo investigado”, continuou Adorni. Ele também defendeu o assessor especial de Karina, Eduardo Lule Menem, que foi citado nos áudios, e seu primo, o presidente da Câmara dos Deputados, Martín Menem, dizendo que eles não tinham vínculo com o ex-funcionário. Adorni saiu sem deixar que os jornalistas fizessem perguntas.