RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Quando Carlo Ancelotti, 66, concedeu sua primeira entrevista coletiva como técnico da seleção brasileira, no final de maio, o italiano recorreu ao espanhol e prometeu aprender rapidamente o português.
Passados três meses, Ancelotti mostrou que tem estudado a língua dos brasileiros e demonstrou desenvoltura ao divulgar a lista de convocados para os jogos contra Chile e Bolívia, pelas rodadas finais das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2026, na segunda-feira (25).
Já é possível perceber a evolução na fala de Ancelotti que ainda parece ter dificuldades para entender o significado de algumas palavras e tende a misturar espanhol com português; ele usa vocábulos como “solo” em vez de só, “puedo” no lugar de posso, e por aí vai. Compreensível.
No entanto, ele logo se corrige e, de forma simpática, pede ao interlocutor que fale mais devagar. “Devagarzinho, ainda estou aprendendo”, brinca o técnico, que vem tendo aulas de português com Roberto Piantino, 45, professor particular de línguas desde 2014.
Paulista com cidadania italiana, Piantino é autodidata e fala português, inglês, catalão, italiano, alemão, francês e espanhol. Atualmente, está aprendendo russo e, há três anos, começou a trabalhar com profissionais ligados ao futebol.
Fã do esporte e torcedor do Milan -clube em que Ancelotti jogou de 1987 a 1992-, ele não esconde a admiração pelo ex-meia e leu os três livros publicados por ele: “Minha Árvore de Natal”, sobre aspectos táticos; “Prefiro a Copa”, que aborda seu passado; e “Liderança Tranquila”, no qual estabelece paralelos entre sua função e a de líderes empresariais.
“Quando vi, na primeira entrevista, o desejo dele de aprender português, falei: ‘Quem vai ensiná-lo sou eu'”, relembra. Graças à amizade com o jornalista Mauro Beting e à ponte com Fábio Seixas, atual diretor de comunicações da CBF, Piantino foi “convocado” por Ancelotti no dia seguinte à vitória da seleção sobre o Paraguai por 1 a 0, em São Paulo.
“Nos falamos um dia e, no outro, já estávamos conversando”, conta. O professor montou um plano de aulas com foco principal em conteúdos relacionados ao futebol, mas o treinador também se interessa por aspectos da cultura brasileira. “Um dia, me perguntou o que era pão de queijo e eu expliquei. Depois, quis saber a distância entre São Paulo e Belo Horizonte. Ele tem curiosidades sobre o Brasil”.
Piantino recorda que Ancelotti quis saber o que era “frango”. “Ele chegou com essa pergunta. Falei que era uma ave, um tipo de carne, e aproveitei para explicar também que, no futebol, é uma expressão usada quando o goleiro falha. Ele achou graça”.
Não que seja uma urgência, mas o professor também pretende explicar ao treinador outras expressões e jargões boleiros, como “mão de alface”, “virou passeio”, “lá onde a coruja dorme” e “burro” –coro das arquibancadas insatisfeitas, que, se tudo correr como se espera, Ancelotti jamais ouvirá.
O professor também conta que o técnico da seleção brasileira é simpático e com senso de humor apurado. Focado, ele também tem usado aplicativos de celular para aprender mais rápido o português. “Quem quer aprender uma nova língua precisa estar o tempo todo conectado com o idioma”.
Ele aponta os verbos como as maiores dificuldades para quem está aprendendo o português. “Dei uma aula sobre imperativos, com os verbos pegar, correr, mas ele logo disse: ‘eu não me comunico dessa forma, não uso imperativos e não é assim que transmito ordens e instruções'”.
As aulas normalmente acontecem após o café da manhã e são agendadas com um ou dois dias de antecedência, sempre por mensagem de texto. “Tudo depende da agenda dele. Já tivemos 15 aulas, a última foi dia 15 de agosto, e não temos uma meta estabelecida do tipo: serão tantas aulas ou vamos estudar durante um ano”, explica Piantino, que conta com a boa vontade dos outros alunos para encaixar os horários de Carlo Ancelotti. “Eles entendem. É o técnico do Brasil”, brinca.