da redação

O aumento de 50% nas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, em vigor desde 6 de agosto, pode transformar os países árabes em um destino estratégico para as exportações nacionais. Um estudo da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira identificou que, diante do “tarifaço” americano, há espaço para o Brasil redirecionar e até ampliar o envio de uma série de itens, principalmente do agronegócio, para os 22 países da Liga Árabe.

A pesquisa mapeou 13 produtos que lideraram as exportações brasileiras aos EUA nos últimos cinco anos e que têm grande potencial no mercado árabe. Entre eles, café verde, carne bovina, açúcar e produtos semimanufaturados de ferro e aço aparecem como destaques. Para cada item, o estudo apontou três países com maior chance de absorver parte da produção hoje enviada ao mercado americano.

O café verde é um exemplo expressivo. Só em 2024, o Brasil vendeu US$ 1,89 bilhão do produto aos EUA, contra US$ 513,8 milhões aos árabes. A Arábia Saudita, que importou US$ 400 milhões em café no ano, comprou apenas US$ 49,1 milhões do Brasil — sinal claro de espaço para crescimento. Na carne bovina, Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita surgem como grandes oportunidades: o Egito, por exemplo, importou quase US$ 1 bilhão em carne bovina, mas só 27% desse total veio do Brasil.

As tarifas também jogam a favor. Enquanto os EUA agora cobram 50% sobre carne bovina e café verde, muitos países árabes aplicam alíquotas de zero a 6% nesses produtos. No açúcar, a taxa árabe varia de zero a 20%, contra 50% no mercado americano. Até mesmo produtos industriais, como aço e madeira, podem encontrar terreno fértil, já que têm tarifas mais baixas ou inexistentes na região.

O secretário-geral da Câmara Árabe, Mohamad Mourad, destaca que a estratégia é dupla: mitigar as perdas causadas pela sobretaxa dos EUA e fortalecer os laços comerciais com países de economia e população em expansão. “O Brasil é visto como parceiro confiável e fornecedor essencial para a segurança alimentar árabe”, afirma.

Segundo Mourad, itens como carne bovina e café têm potencial de inserção rápida, enquanto outros, como equipamentos e produtos industriais, exigem maior trabalho de promoção e adaptação. O estudo também sugere que empresas brasileiras invistam em certificações halal e participem de missões comerciais para ganhar espaço.

O histórico é favorável. Em 2024, o Brasil exportou um recorde de US$ 23,68 bilhões para os países árabes, com destaque para açúcar, frango, minério de ferro, milho e carne bovina. A expectativa é de estabilidade ou leve crescimento neste ano, com possibilidade de ganhos adicionais se o redirecionamento das exportações for bem executado.

Entre os mercados mais promissores, a Câmara aponta Egito, Argélia, Iraque e Líbia. Acordos comerciais já existentes, como o firmado entre Egito e Mercosul, provaram sua eficácia — as vendas brasileiras ao país praticamente dobraram desde então. Negociações com Emirados Árabes Unidos e outros membros da Liga Árabe estão em andamento.

Para Mourad, o momento é de ação coordenada entre empresas e governo. “Não se trata apenas de substituir os EUA, mas de conquistar novos espaços e consolidar o Brasil como fornecedor preferencial no mundo árabe”, conclui.