SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar ronda a estabilidade nesta sexta-feira (8), com o foco ainda voltado para o impasse tarifário entre Brasil e Estados Unidos.
O mercado também repercute balanços corporativos do segundo trimestre, em especial o da Petrobras, e a aposta crescente de corte de juros pelo Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano).
Às 12h41, o dólar marcava variação negativa de 0,01%, cotado a R$ 5,422, e a Bolsa recuava 0,23%, a 136.210 pontos.
A pauta tarifária segue ditando os negócios no mercado financeiro. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou a implementação de sobretaxas de 50% a produtos brasileiros na quarta-feira. No dia seguinte, impôs tarifas de 10% a 41% para 69 dos principais parceiros comerciais do país.
As novas taxas retomam o chamado “Dia da Libertação”, em 2 de abril, quando Trump anunciou pela primeira vez o tarifaço sobre dezenas de países. A reação negativa na ocasião fez o presidente suspendê-las na semana seguinte, impondo no lugar uma cobrança temporária de 10% enquanto buscava acordos.
O Brasil, até aquele ponto, estava na lista de parceiros atingidos com a tarifa base de 10%. Mas, em 9 de julho, Trump publicou uma carta elevando a carga tarifária para 50%, vinculando a decisão à cena política daqui. O republicano acusa as instituições brasileiras de promoverem uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, réu no âmbito da trama golpista de 2022, e não tem aparentado disposição para negociar com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As autoridades do governo têm tentado sentar à mesa com Washington desde a publicação da carta, mas sem sucesso. Em entrevista à Reuters, o presidente Lula afirmou que não vê espaço para discussões com Trump e rejeitou a “humilhação” de ligar para o republicano.
“Pode ter certeza de uma coisa: o dia que a minha intuição me disser que o Trump está disposto a conversar, eu não terei dúvida de ligar para ele. Mas hoje a minha intuição diz que ele não quer conversar. E eu não vou me humilhar”, disse.
O Brasil não pretende anunciar tarifas recíprocas, afirmou, e não vai desistir das negociações comerciais, mesmo admitindo que não há, no momento, interlocução. O vice-presidente Geraldo Alckmin está tentando negociar, disse Lula, assim como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. “O que nós não estamos encontrando é interlocução”, afirmou.
Haddad confirmou que irá ter uma conversa com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, na próxima semana. Por determinação de Lula, a Fazenda também elabora uma lista de medidas para eventual retaliação às sanções impostas pelo governo Trump. Segundo integrantes do governo, Lula solicitou esse inventário para avaliar a conveniência da aplicação da Lei da Reciprocidade.
A expectativa é de que o governo continue apostando na via diplomática, especialmente após a lista de quase 700 produtos isentos do tarifaço aliviar a pressão sobre alguns dos setores mais dependentes de exportações aos EUA.
Visando empresas e segmentos que seguem pressionados pelo tarifaço, o governo deve anunciar um plano de contingência até a próxima terça-feira, segundo Alckmin.
Está em estudo uma proposta para destinar cerca de R$ 30 bilhões em crédito com condições diferenciadas para as empresas mais impactadas pelo aumento das sobretaxas, de acordo com informações da Reuters.
Nesse sentido, o mercado adota cautela antes de fazer qualquer movimentação financeira, à espera de mais informações sobre o impasse entre Brasil e EUA.
Por outro lado, há um consenso entre analistas de que as tarifas à maioria dos parceiros comerciais dos EUA terão um efeito estagflacionário isto é, diminuirão o crescimento econômico a um nível de estagnação e aumentarão a inflação.
Há a possibilidade do baque na economia ser temporário e pontual, diz Leonel Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX, mas há também a chance dele ser abrangente. “O ambiente de negócios é de cautela por causa disso”, afirma.
A preocupação com uma estagflação e dados fracos do mercado de trabalho têm fomentado apostas de que um corte de juros poderá ocorrer na próxima reunião do Fed, em setembro. Segundo a ferramenta CME FedWatch, operadores agora precificam 92% de chance de uma redução de 0,25 ponto percentual no mês que vem.
A taxa de juros está na banda de 4,25% e 4,5% desde o final de 2024 e vem sendo mantida neste patamar por conta da incerteza que ronda a economia norte-americana, de acordo com declarações de diretores do Fed.
Além disso, Trump disse que irá nomear Stephen Miran, presidente do Conselho de Assessores Econômicos, para a diretoria do Fed, após o inesperado anúncio de saída de Adriana Kugler.
“A nomeação de Miran, economista com perfil mais alinhado à visão de Trump, reforça a leitura de que a autoridade monetária poderá ceder à pressão por cortes de juros já nos próximos meses. A renúncia de Adriana Kugler, somada à escolha de um substituto de linha mais branda, abre caminho para uma composição mais ‘dovish’ [mais tolerante em relação à inflação] dentro do comitê, o que favorece o enfraquecimento do dólar globalmente”, diz Matheus Massote, especialista em câmbio da One Investimentos.
Quanto maiores as taxas de juros nos Estados Unidos, mais o mercado tende a direcionar investimentos para lá, já que os retornos ligados à renda fixa norte-americana ficam mais atrativos o que fortalece o dólar. O inverso também é verdadeiro: sinalizações de queda nos juros levam os operadores a retirar recursos dos EUA e direcioná-los a outros ativos, o que enfraquece a moeda.
Na ponta corporativa, destaque para o balanço da Petrobras. As ações da petroleira tinham queda de mais de 4% após os resultados do segundo trimestre decepcionarem na parte financeira: o mercado esperava um fluxo de caixa mais robusto e mais dividendos.
“A empresa ficou abaixo das expectativas, com dividendos trimestrais de US$ 1,6 bilhão, versus consenso de US$ R$ 2 bilhões do mercado, e fluxo de caixa operacional mais fraco de US$ 7,5 bilhões, contra expectativa de US$ 8,2 bilhões”, diz o relatório da XP assinado por Regis Cardoso, chefe de análises financeiras, e João Rodrigues, analista do setor de óleo, gás e petroquímicos.